Torneio WTA Championships

Uma muralha chamada Serena

Mesmo esgotada, Serena Williams se mostrou superior e fechou o ano com o título no WTA Championships. Para 2014, há espaço para mais alguém?

Por Matheus Martins Fontes em 25 de Novembro de 2013 às 00:00

UMA DAS TAREFAS MAIS ÁRDUAS para um atleta é vencer naqueles dias em que sente que não deveria sequer ter levantado da cama. Ganhar quando tudo parece conspirar contra tira dele o potencial para superar grandes adversidades. Campeão que se preza triunfa até quando o jogo está muito mais para o seu adversário. Em 2013, Serena Williams ensinou às concorrentes que é a melhor em qualquer situação e comprovou sua supremacia no WTA Championships de Istambul, o Masters feminino, onde levantou o seu quarto troféu.

A disputa poderia ser muito mais acirrada caso suas adversárias tivessem algo de sobra no tanque. Victoria Azarenka, única a bater a norte-americana duas vezes no ano, parece ter ficado sem gasolina na reta final de 2013 e não passou da fase de grupos. Maria Sharapova nem pisou na Turquia e encerrou precocemente a temporada para se recuperar de uma lesão no ombro direito.

Com falta de rivais à altura, coube a Na Li “salvar a pátria” da concorrência, com uma excelente campanha rumo à final em Istambul. Ela chegou a ameaçar a número 1 na decisão e nem mesmo a derrota pôde ofuscar seu brilhantismo.

Para os atletas, chegar à reta final de uma temporada longa é exaustivo, principalmente depois de tantos compromissos e viagens. É por isso que o tenista talvez não mostre o seu melhor nível exatamente nos últimos dias de trabalho, como aconteceu em Istambul, onde os fãs turcos esperavam muito mais de suas heroínas na derradeira edição do torneio no país (a partir de 2014, a competição segue para Cingapura). Porém, a Turquia foi testemunha da implacável superioridade de Serena, inclusive quando já demonstrava sinais de esgotamento. Além de dominar o circuito quando está em plena forma, a americana também sabe guardar aquela reserva essencial quando a hora aperta.

Comeu poeira

Quando chegou a Istambul, a caçula das Williams carregava uma invencibilidade de 13 jogos, já sabia que terminaria o ano como número 1 e levava na bagagem 77 partidas disputadas, números assustadores para quem nunca tinha passado de 62 em uma temporada. A fome da americana de 32 anos ficou evidente na primeira fase, em que passou como quis diante de Angelique Kerber, Agnieszka Radwanska e Petra Kvitova. Dessa forma, era complicado imaginar outro cenário além do que se repetiu 10 vezes em 2013, o título.

Só que até os mais fortes têm seus momentos de vulnerabilidade. Serena mostrou isso na semifinal contra Jelena Jankovic, ex-número 1 e que voltou a jogar um tênis mais consistente. Desde o primeiro set, a americana atuou de forma apática, sem sacar com sua máxima potência, tampouco conseguia chegar nas bolas da rival. O drama se estendeu para o banco, onde ela chegou a derramar algumas lágrimas. Parecia inevitável sua eliminação, mas Serena não ficou pelo caminho. Tirou forças sabe-se lá de onde, jogou para o gasto e, ainda assim, foi superior. Depois da partida, veio a confissão de que o cansaço, finalmente, acusava. “Ontem à noite eu estava no meu hotel deitada e simplesmente cheguei ao meu limite. Senti que tinha batido numa parede. É cansativo até ficar de pé”, reconheceu Serena.

A decisão do torneio colocou-a diante do último obstáculo – a chinesa Na Li, que tinha feito uma trajetória impecável desde o começo da semana. As ações do dia anterior pareciam se repetir na decisão e Serena bateu na “muralha chinesa” de início. Mas bastou um set perdido e um break-point salvo no começo da segunda parcial para que a luz da reserva fosse acesa e a número 1 tratou de pisar fundo no acelerador. Terminar rápido era necessário e tudo acabou com um pneu da campeã mais velha da história da Masters.

Fica nítido o recado que Serena dá para as companheiras: será necessário que ela venha num dia realmente muito ruim e que sua adversária esteja inspirada para que uma surpresa aconteça. Ao longo do ano, em 82 vezes que caminhou pelas quadras, a americana só saiu derrotada em quatro delas. O seu aproveitamento, superior a 95% no ano, é o melhor de uma jogadora desde Steffi Graf em 1989, e nas costas ficam 11 troféus (entre eles o bi de Roland Garros e o penta do US Open) e mais de US$ 12 milhões na conta bancária. Só Novak Djokovic ganhou mais do que ela numa temporada (em 2011 e 2012). Não é, portanto, só dentro das quadras que Serena parece jogar outro circuito.

Sem combustível

Ao longo de 2013, Victoria Azarenka foi considerada a rival que mais poderia incomodar Serena em um circuito tão dominado pela americana. No US Open, Vika fez o que pôde e esteve próxima de superar a número 1 em um jogo físico e mental. Mas as consequências pós-Nova York foram demais para a loira, que deixou a desejar na turnê pela Ásia (sem vitórias em Tóquio e Pequim) e chegou sem pernas na Turquia. Até o único triunfo na fase de grupos sobre Sara Errani foi contestado, já que a bielorrussa errou além da conta e venceu só pelo nervosismo da italiana nos momentos-chave. Muito pouco para quem poderia oferecer resistência às embaladas Li e Jankovic. Inclusive contra a sérvia, Vika, lesionada, só não abandonou o jogo com medo da repercussão negativa, graças ao histórico nada louvável de desistências na carreira. Foi de dar dó também a pífia apresentação de Radwanska, que amargou três derrotas na primeira fase, e deixou Istambul sem ganhar um único set. Final melancólico para as duas que aparentemente puxaram o freio de mão antes da chegada.

Máquina do Oriente

Se Azarenka e Radwanska pouco fizeram em Istambul, o mesmo não pôde se falar de Na Li, que levou a China (e a Ásia) ao top 3 pela primeira vez na história. A simpatia não é a única aliada da tenista de 31 anos, que surpreendeu com a precisão e o jogo agressivo, em que arriscou até nas raras subidas à rede. Ela parece ser uma das únicas que busca maneiras de alcançar o sarrafo levantado atualmente por Serena na WTA e seu bom momento transbordou também para o continente asiático nas duplas. Campeãs de Wimbledon, a taiwanesa Su-Wei Hsieh e a chinesa Shuai Peng não ligaram para as disputas históricas entre seus territórios e emplacaram outra excelente campanha, derrotando na final as russas Ekaterina Makarova e Elena Vesnina, algozes das italianas Sara Errani e Roberta Vinci, que, mesmo assim, finalizaram a temporada no topo do ranking.

Fora dos padrões

Diante da hegemonia de Serena no circuito feminino, fica difícil apontar adversárias à altura para a número 1 em 2014. Mesmo após passar por vários problemas de saúde, que chegaram a ameaçar sua carreira, ela parece ficar melhor a cada ano e suas oponentes acusam tal disparidade. O treinador Eduardo Frick crê que a força física ainda é o que determina uma superioridade da americana frente às demais jogadoras. “Fica evidente que a potência e força fazem com que ela seja superior às outras, e também por seu estilo. Serena é uma jogadora que gosta de mandar nos pontos. E devido à essa explosão, dessa sua forma agressiva, ela se impõe nos jogos e tudo isso fez com que ela se tornasse essa jogadora fora de série”, explica o ex-capitão brasileiro na Fed Cup.

Para Rafael Westrupp, diretor do WTA de Florianópolis, os requisitos de Serena evitam que haja uma rivalidade maior no circuito atual, como ocorria com mais frequência no passado. “Serena tem um físico diferenciado, que, aliado aos atributos técnicos, táticos e psicológicos, levaram-na a atingir esse patamar. Em gerações anteriores, havia tenistas que lideravam o circuito, mas a disparidade entre as melhores era menor. Na Era de Graf, por exemplo, tínhamos Seles, Sabatini, dentre outras, que incomodavam mais do que as atuais incomodam Serena”, opina.

Mas com o que se viu em 2013, fica a grande questão: há algum jeito de parar Serena? O treinador Elson Longo acredita que sim e conta como as rivais podem aproveitar os (poucos) pontos fracos da americana: “Em primeiro lugar, é fundamental ter um grande saque para impedir a tomada de iniciativa dela já na devolução. Deve-se jogar de forma agressiva fazendo com que Serena se movimente continuamente. Variar com deixadas e slices é fundamental, principalmente quando ela estiver sacando com a iniciativa”. E em quais situações essa vulnerabilidade fica mais evidente? O técnico de São Carlos cita os pisos e até quem tem mais chances de surpreender a líder do ranking. “No saibro, a velocidade de bola da Serena não é tão contundente. As jogadoras de contra-ataque, como a Wozniacki, Errani, Jankovic e Li têm boas opções. No piso duro, Azarenka, Sharapova, Radwanska e Kvitova são as candidatas mais promissoras. Na grama, Sharapova e Kvitova são as mais perigosas pelo saque e potência dos golpes”, indica.

Para especialistas, ainda veremos Serena muito à frente das adversárias em 2014

Entretanto, a teoria dificilmente será cumprida à risca a curto prazo devido ao nível astronômico que Serena alcançou em relação às concorrentes. Se nos basearmos apenas no ranking, a veterana está a mais de 5 mil pontos de diferença para Azarenka, número 2. Por isso, Westrupp crê que 2014 ainda não será o ano para uma mudança radical no circuito. “Existe um hiato a ser trabalhado pelas demais jogadoras em relação à Serena, um desafio na qual o tênis masculino já passou quando o Federer era soberano. As tenistas precisarão evoluir no aspecto físico (principalmente na força), mas ainda não será em 2014 que haverá o preenchimento dessa lacuna. Acredito que a Serena, motivada e comprometida, será superior por algum tempo”, relata. Frick encerra o ponto de vista afirmando que Serena jogará a próxima temporada para quebrar suas próprias marcas. “A tendência de 2014 é Serena brigar contra ela mesma. Acho que ela estará muito mais preocupada com seu jogo do que com as outras. Ela deve saber qual é a motivação para continuar jogando, quantos títulos ou quais ainda quer conquistar, e vai lutar por isso”.

RESULTADOS

WTA Championships de Istambul 2013
Final de simples: Serena Williams (USA) v. Na Li (CHN) 2/6, 6/3 e 6/0
Final de duplas: Su-Wei Hsieh (TPE) e Shuai Peng (CHN) v. Ekaterina Makarova e Elena Vesnina (RUS) 6/4 e 7/5

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Artigo publicado nesta revista

Revista TÊNIS 122 · Novembro/2013 · Sucesso nas duplas

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