Especial TÊNIS do Futuro

Não há mais volta

Djokovic e Nadal elevaram o tênis a um patamar “sobre-humano”. Este será o padrão do esporte no futuro?

Por Arnaldo Grizzo em 22 de Setembro de 2013 às 00:00

“A maioria dos tenistas não está acostumada a manter esse nível”

IMAGINE UMA COMPETIÇÃO de salto com vara. Nela, geralmente há alguns escalões bem definidos. Há vários atletas que saltam acima de 5 metros. Há alguns que saltam acima de 5,5 metros. Há poucos, porém, que saltam acima de 6 metros. O tênis, hoje, lembra muito isso. Há tenistas em diversos níveis, com muita gente talentosa que pode, em um determinado dia, elevar seu patamar de jogo absurdamente. No entanto, parece que há apenas dois homens que são capazes  de “saltar mais de 6 metros” regularmente e, por isso, destoam em um circuito sempre tão acirrado.

“O grupo vai ter que ‘raise the bar’, aumentar o nível, como dizem os americanos”, acredita Marcelo Meyer, ao falar sobre o atual estágio do tênis masculino, em que Novak Djokovic e Rafael Nadal mostram-se muito acima dos concorrentes. Para o ex-treinador de Fernando Meligeni e Dadá Vieira, no momento presente, o esporte perde um pouco a graça (“pois as partidas só valem mesmo a partir da semifinal”), mas “é para o bem”.

Os altos padrões de jogo de Djokovic e Nadal hoje parecem mesmo inatingíveis. “Eles conseguiram elevar esse conjunto de coisas, essas quatro questões básicas – técnica, tática, físico e mental –, a um nível muito alto. É fato que há outros tenistas que hoje têm um nível um pouco mais abaixo e realmente não conseguem acompanhar”, aponta João Zwetsch, capitão do Brasil na Copa Davis.

E acompanhar esses dois líderes do ranking não é fácil. “Eles conseguem estender uma partida durante 4 ou 5 horas em um patamar altíssimo. Conseguem colocar uma intensidade e constância no jogo que não deixa você respirar. Todas as bolas vêm firmes e fortes. Eles não abaixam a intensidade, a concentração, o foco, a pegada em nenhum segundo. A maioria dos tenistas não está acostumada a manter esse nível. Normalmente, eles se elevam, ficam um pouco perto disso, mas, principalmente nos Grand Slams, com cinco sets, não conseguem manter esse padrão o tempo necessário para poderem enfrentar esses jogadores de igual para igual”, diz Zwetsch.

“Federer ‘puxou’ uma geração muito forte. Os caras tinham que ser fenômenos para ganhar dele. Então, todo mundo trabalhou para ser fenômeno. Eles estão em um estágio de preparação muito alto”

Gerações

Para Ricardo Acioly, o fato de esses dois tenistas terem alcançado esse patamar tem uma explicação. “Quando se está no topo, vira-se espelho para todos. Um tempo atrás, Federer fez com que as coisas mudassem um pouco, por ser mais completo. Quando vieram Nadal e Djokovic, eles deram um passo ainda maior. Mas Federer foi o primeiro a se destacar, a elevar o nível. Os outros dois chegaram a um ponto de equilíbrio de parte técnica – muito clara, estabelecida, sólida, sem grandes buracos – e adicionaram a isso um condicionamento físico diferenciado, cada um no seu estilo. Nadal é mais força física e Djoko mais velocidade e elasticidade”, acredita o técnico de João Olavo Souza, o Feijão.

Treinador de diversos juvenis de sucesso, Carlos Omaki concorda e complementa: “No juvenil, a gente vê que isso ocorre muito de geração para geração. Quando você tem um cara muito bom, ele ‘puxa’ uma geração toda, que fica muito forte. Acho que foi mais ou menos o que aconteceu com eles (Nadal e Djokovic). Federer ‘puxou’ uma geração muito forte. Os caras tinham que ser fenômenos para ganhar dele. Então, todo mundo trabalhou para ser fenômeno. Eles estão em um estágio de preparação muito alto”.

“Eles estão encontrando maneiras de otimizar o corpo”

Irreversível

Todos concordam que a evolução física do tênis é notória. “É só pegar vídeos de 10 anos atrás e de agora. Parece outro esporte”, comenta Rafael Westrupp, ex-técnico de André Sá. Para ele, o condicionamento é tão destacado que Nadal e Djokovic, se quiserem, podem participar de um “Ironman” (prova de resistência que mescla natação, bicicleta e corrida). “Eles não são mais atletas, são super atletas, pois, dentro da modalidade, conseguem fazer coisas de outras modalidades”, acredita.

“A questão física já é um diferencial há algum tempo e eles (Nadal e Djokovic) deixam isso bem evidente. Isso é algo ganho. O preparo físico melhorou. Antes, era um problema convencer os tenistas a fazerem preparação física”, lembra Paulo Cleto, ex-treinador de Luiz Mattar, Cássio Motta, Jaime Oncins, entre outros.

“Acho que é irreversível. Daqui para frente, os caras que vão chegar, vão chegar com esse nível físico. É o patamar agora. A diferença é que, mesmo com alguns tenistas jogando em um nível alto, o Nadal fica tranquilo, pois sabe que o adversário não vai jogar quatro ou cinco sets desse mesmo jeito. Esse nível do tênis chegou para ficar”, pontua Omaki.

Ele é seguido por Zwetsch: “A questão física vai permanecer. Há novas tecnologias e metodologias que permitem isso. Há ainda uma maior qualidade em idade mais precoce. Todas essas características são encontradas facilmente dentro do esporte em geral, e no tênis não é diferente. A tendência é que todos os jogadores agora venham em um nível físico tão bom quanto eles (Nadal e Djokovic) ou até mais”. Acioly lembra, por exemplo, que Djokovic emagreceu 5 quilos recentemente. “É uma loucura. Eles estão encontrando maneiras de otimizar o corpo”, conta.

Por que o tênis se tornou um esporte físico?

Segundo Ricardo Acioly, um ponto que as pessoas esquecem de comentar quando pergunta-se o motivo de o tênis ter se tornado um esporte em que a parte física se destaca é a questão da homogeneização das superfícies. “Talvez as pessoas não se deem conta, mas a razão de esses caras estarem onde estão é por que existe uma homogeneidade dos pisos que faz com que esse padrão de jogador seja bem sucedido em quase tudo. Os pisos são muito parecidos. Se você pegar uma quadra dura hoje, é bem parecido de se jogar em uma quadra de saibro. Agora são pisos bem lentos se comparados com tempos atrás, mesmo na temporada indoor. Isso sem falar de Wimbledon, que hoje tem pontos com 25 trocas de bola”, comenta, perplexo, e incrementa: “O padrão que eles têm é muito alto em tudo, porque o piso é muito similar. Isso é uma parte importante dessa equação”.

“Antes, você jogava 75% do tempo em quadras extremamente rápidas. Então, quem fazia a festa era um determinado estilo de tenista. Hoje, mesmo quando joga-se indoor, é tudo muito semelhante, há algumas que ficam mais lentas do que o saibro”, aponta Paulo Cleto, que alfineta: “Quando alguém tenta mudar, o Nadal e o tio dele começam a reclamar. Quando o Ion Tiriac mexeu (no piso do Masters de Madrid, deixando-o rápido e azul), só faltaram matá-lo, dizendo que não iam mais”.

“Isso é resultado de uma iniciativa tomada pela ATP e ITF para diminuir a velocidade da bola e das quadras. Essa medida fez os caras jogarem por mais tempo. Tanto que o golpe que mais aparece hoje não é o saque, mas a devolução. Foi o golpe que mais evoluiu nos últimos 20 anos. Tudo isso faz com que haja muito mais jogo e isso, consequentemente, força os caras a terem uma cabeça melhor. Antes, a maioria dos pontos era definida nas três primeiras bolas: saque, devolução ou primeira bola. Isso não acontece mais”, lembra Carlos Omaki.

Acioly concorda e retoma o raciocínio: “A demanda do jogo está muito mais igual. Em função de os pisos serem parecidos, você não consegue resolver as coisas muito rapidamente. Os tenistas acabam tendo que resolver tudo de forma mais lenta durante o jogo e isso demanda uma maior preparação interna, mental, favorecendo esses caras (Nadal e Djokovic). Se tivesse pisos mais extremos, queria ver se seria assim”, pondera.

Omaki, porém, finaliza: “Com essas mudanças, apostou-se em espetáculo e estamos tendo espetáculo. O espetáculo veio para ficar. Jogo é isso agora. A não ser que mudem de novo”.

Pisos e bolas hoje são mais homogêneos

“O tênis tem ficado muito mais para o cara que é forte mental e fisicamente. Não necessariamente para o mais técnico”

Físico x técnico

A questão física tem sido tão preponderante que, segundo os treinadores, mudou alguns padrões do tênis. “Antes, se você não fosse tecnicamente perfeito, não seria um bom profissional. Nadal veio para quebrar esse paradigma. Tecnicamente falando, ele não é um modelo a ser seguido. Ele quebrou a barreira técnica através do físico e da cabeça”, afirma Westrupp.

Cleto segue essa linha apontando outro diferencial além da parte física: “Há 40 anos, o talento falava muito alto e o emocional também. O aspecto mental nem tanto. Os tenistas precisavam ter o emocional e o talento. Hoje, o tênis tem ficado muito mais para o cara que é forte mental e fisicamente. Não necessariamente para o mais técnico”.

Meyer concorda: “Nesse nível, o tênis é mais físico do que técnico”, e complementa: “Se um tenista antes treinava 10 horas por dia, ele vai treinar 12 horas. Quem é determinado e está entendendo o patamar em que esses dois (Nadal e Djokovic) chegaram, vai trabalhar mais”. Para ele, Andy Murray foi um dos que compreendeu isso quando contratou Ivan Lendl: “Ele explicou para Murray que precisava partir para um programa de treinamento muito maior do que vinha fazendo”.

Treinar o corpo e a mente

Se o preparo físico é determinante agora, por que alguns tenistas que parecem ter condicionamento similar ao de Djokovic e Nadal simplesmente não conseguem equilibrar essa equação? A resposta não está só no corpo, mas na cabeça. “A parte física é, sim, definitiva. No mental, porém, haverá variação. Essa variável ainda vai existir”, acredita Zwetsch.

Nesse sentido, Cleto explica o porquê de Murray ainda estar abaixo do espanhol e do sérvio: “Eles não são nenhuma maravilha em termos técnicos. Murray é mais completo tecnicamente do que eles. Mas ele não tem a força mental dos dois”. O experiente treinador lembra que sempre houve jogadores no circuito que eram emocionalmente muito fortes. “Hoje eles são emocional e mentalmente fortes”, diz.

Há diferença? Sim. “Emocionalmente são os que têm o caráter de campeão, como Guga, por exemplo. Mas ele não tinha a mentalidade forte de um Nadal. Existiram poucos tenistas assim. Quem poderia estar nesse mesmo clube é Borg, Vilas, Wilander, com certeza e, às vezes, Lendl. Já caras como Sampras e Guga eram emocionalmente muito fortes, confiantes, mas Guga cansava de perder jogos que não deveria, de viajar no meio de uma partida que acabava ganhando. Agora, Nadal e Djokovic, não. Eles são extremamente fortes mentalmente e não dão espaço para o oponente crescer. Eles evitam muito problema porque não abrem uma janela sequer para o adversário. Guga abria janela o tempo todo. Esses caras não estão dando colher de chá”, observa Cleto.

Acioly corrobora essa visão: “O mental deles diferencia. Os outros aspectos (técnico, físico etc) são coisas atingíveis. Mas, no mental, os dois conseguiram dar esse passo a mais. Isso serve de norte para os outros tenistas. E é um desafio maior até para os que estão mais perto deles, como Murray, por exemplo, pois quando se está longe desse grupo, você trabalha e não se cobra tanto, mas, para quem está perto, está perto no ranking, mas longe de chegar naquele patamar de consistência, semana após semana, jogo após jogo”.

O jornalista português, Pedro Carvalho, percebe isso claramente no dia a dia do circuito que cobre há anos. “No ranking, depois de Murray, (lembro que o escocês ainda não consegue ser constante nesse domínio físico-mental), há um vazio por assim dizer nos jogadores que se seguem. Exemplos? David Ferrer e Tomas Berdych. Fisicamente nada a apontar em ambos. Mas quando enfrentam os tenistas do topo, é comum fraquejarem. Mas, frente a tenistas de ranking pior, são também vulneráveis e não conseguem comprovar o favoritismo. Isso se deve à menor capacidade mental”, diz.

“Ninguém vence partidas nos dias de hoje só jogando bonito”, pontua Carvalho, que, contudo, não acredita que o padrão estabelecido por Djokovic e Nadal irá vigorar por muito mais tempo. Segundo ele, a nova geração dá “primazia à técnica em relação ao físico” e portanto veremos um tênis mais técnico no futuro.

“A parte física é, sim, definitiva. No mental, porém, haverá variação. Essa variável ainda vai existir”

Um novo patamar

Djokovic e Nadal colocaram a barra em 6 metros e têm saltado diariamente, constantemente, acima disso e aguardam enquanto os outros, cuja média é mais baixa, tentam elevar seus níveis com regularidade. Se e quando eles vão conseguir isso não se sabe exatamente, mas, é nítido que, novamente, o nível subiu. Para onde vai?

“A beleza do tênis é exatamente essa. Estou no tênis há 50 anos e desde aquela época me pergunto para onde vai”, conta Cleto, que sugere algumas direções: “Acho que uma hora vai ter uma ênfase um pouco maior na parte mental, vai ter gente investindo nisso. A parte física vai continuar. Também não tem mais volta a esquerda com duas mãos. Acho que ainda pode ter algum ‘revival’, de ir um pouco mais à rede do que eles vão atualmente. Não saque-e-voleio, mas com mais constância. Deve surgir um cara de 1,90 m, sacando para caramba, tão rápido quanto o Djokovic, com um revés tremendamente confiável, que tenha uma grande direita de ataque e que saiba volear. Esse seria o jogador do futuro. Muito forte tanto mental quanto emocionalmente. Os tenistas precisão ser muito fortes mentalmente, o que é diferente de emocionalmente. Emocional é o cara que é vencedor nato. Mental é o cara que está disposto a pagar o preço”. E com esse preço cada vez mais alto, quem estará disposto?


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Artigo publicado nesta revista

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