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Marte e Vênus

Andy Murray escolheu uma mulher, Amelie Mauresmo, para ser sua treinadora. Sinal dos tempos?

Por Suzana Silva em 5 de Julho de 2014 às 00:00

Andy Murray e Amelie Mauresmo

HOMENS SÃO DE MARTE, mulheres são de Vênus. Com esse título, o livro do norte-americano John Gray (Ph.D. em psicologia) vendeu milhares de cópias e tentou melhorar a comunicação e, consequentemente, o relacionamento afetivo entre homens e mulheres no mundo todo.

De acordo com o livro, quando têm problemas, os homens gostam de se isolar para resolvê-los sozinhos. Já as mulheres em apuros gostam de se reunir e conversar longamente sobre seus sentimentos. Essas diferenças entre homens e mulheres deixam o mundo bem mais interessante e divertido, estimulando nossa evolução através das diferenças.

O livro de 1992, escrito fundamentalmente para casais heterossexuais, é muito útil para entender as características ditas masculinas e femininas que compõem nossa personalidade – e pode nos ajudar, inclusive, a aprimorar as relações entre os sexos em outras esferas.

Atualmente observamos que os papéis tradicionais de homens e mulheres estão se misturando cada vez mais, com mulheres em postos de comando nos negócios e na política, e homens ajudando nas tarefas de cuidado com a casa e com os filhos. Em alguns momentos, as mulheres precisam exercer comportamentos ditos masculinos (dar broncas, colocar limites) e os homens têm necessidade de exercitar comportamentos ditos femininos (compreender, apaziguar).

Na quadra

Ter alguém com quem compartilhar seus sentimentos foi uma das razões dadas pelo britânico Andy Murray para escolher a ex-campeã de Wimbledon, a francesa Amelie Mauresmo como treinadora para a gira de torneios de grama nesta temporada, notícia que causou frisson no mundo esportivo.

Se a alta qualidade do jogo de rede de Amelie – que pode elevar o nível dos ataques de Andy em pelo menos 20% e encurtar um pouco seus normalmente longos e extenuantes jogos – foi levada em conta na escolha, não foi o ponto destacado nas entrevistas iniciais do escocês.

Depois de 77 anos sem um britânico campeão em Wimbledon, Murray conseguiu tirar literalmente um peso das costas vencendo o torneio no ano passado, sob a tutela do compenetrado e sério Ivan Lendl. Voltando agora a Londres para defender o título, quis contar com a ajuda de alguém mais sensível e divertida para aliviar a pressão.

Murray procurou ativamente uma mulher para treiná-lo, até chegar ao nome de Mauresmo. Marion Bartoli, francesa campeã de Wimbledon em 2013 com o auxílio de Mauresmo, afirma que “foi uma escolha perfeita, pois Amelie é capaz de tirar o estresse dos treinos e fazer com que você se sinta confortável”.

Andy Murray e Amelie Mauresmo
“Não é o sexo do treinador que importa, e sim a força do relacionamento entre treinador e atleta que fará a parceria dar certo”, diz Billie Jean King

Experiência com mulheres

Mulheres fortes não são novidade na vida de Murray. Ele foi iniciado no esporte e treinado por sua mãe Judy, vencendo a categoria juvenil do US Open, em 2004, sob sua tutela. Mãe e filho concordaram em ter Amelie no time por suas características de sensibilidade e bom humor.

Uma treinadora pioneira, corajosa o suficiente para encarar o treinamento de um top 10, foi Eleanor Tennant. Ela preparou Bobby Riggs, tenista norte-americano líder do ranking mundial em 1939. Eleanor era uma garota “papo firme”, sendo a primeira tenista norte-americana a se tornar profissional.

Mais recentemente, a própria Mauresmo treinou com sucesso o compatriota Michael Llodra, em 2010, quando o francês venceu o torneio de grama de Eastbourne. Llodra conseguiu conciliar uma boa carreira profissional tanto em simples como em duplas, chegando respectivamente às posições de 21o e 3o no ranking mundial em 2011.

De qualquer modo, a escolha de Murray, usando as palavras de Jim Courier, “é ousada e certamente interessante”. Billie Jean King também foi categórica: “Não é o sexo do treinador que importa, e sim a força do relacionamento entre treinador e atleta que fará a parceria dar certo”. Quisemos ouvir a opinião de algumas treinadoras brasileiras sobre o assunto, e a empolgação foi geral.

Patrícia Medrado, tenista profissional brasileira nos anos 1980 e ainda hoje na ativa como tenista e presidente do Instituto que leva seu nome, afirma que “as mulheres que se aventuram nessa área precisam ser muito competentes e seguras. Aspectos técnicos à parte, elas podem acrescentar à relação treinadora/atleta sutileza e afeto. Quem sabe até uma viagem mais profunda, na alma e na cabeça do pupilo. No tênis de alto rendimento, o que conta são os detalhes”.

“Ainda vivemos num mundo machista e, embora haja mulheres presidindo empresas e países, no esporte é incomum uma mulher dirigir homens ou times. Romper os preconceitos e superar as cobranças são os grandes desafios”, acrescenta Patrícia.

Andy Murray e Amelie Mauresmo

Eleanor Tennant foi uma pioneira. Na década de 1930, ela treinou Bob Riggs, que alcançou a liderança do ranking

Primeiros passos

“Para o tênis em geral, não é um fato inédito, afinal tivemos, no passado, uma das grandes tenistas de todos os tempos, Billie Jean King, acompanhando o Tim Mayotte. O russo Andrei Chesnokov, que chegou a ser nono do ranking mundial, foi treinado pela conterrânea Tatiana Naumko. E vários outros tenistas foram e são treinados pela mãe (o russo Marat Safin e o norte-americano Jimmy Connors; além de Denis Istomin e Donald Young, entre outros). É também incontestável o fato da importância que teve uma treinadora na vida do atual número 2 do mundo, Novak Djokovic. Obviamente, no caso do Murray, estamos vendo um jogador que é top 5, e que pode agora impulsionar mulheres nesse campo de trabalho, de forma a equilibrar melhor essa balança discriminatória. Acho uma quebra de paradigma muito interessante e que, se der certo, incomodará muitos dos nossos, ainda não extintos, dinossauros!”, complementa Patrícia, entusiasmada.

Já Andrea “Dadá” Vieira, que chegou à posição de número 76 do ranking profissional de simples em 1989 e atualmente trabalha com a formação de tenistas, confessou que essa notícia lhe surpreendeu muito, “afinal é a primeira vez que um jogador top convida uma ex-jogadora top para esse desafio em tempos recentes. Acho que será muito interessante e que todos os olhos estarão voltados para essa nova parceria. Gostei da atitude do Murray, nada machista, e acho que ela pode ajudar muito sim, afinal de contas, esse esporte, muitas vezes, precisa de um toque de sensibilidade e de um olhar feminino. Torço para que dê certo e tomara que essa moda pegue...”

Treinadora de vários juvenis masculinos com títulos dentro e fora do Brasil, a ex-tenista profissional Letícia Sobral acredita que “as mulheres de um modo geral (e isso conta para treinadoras também) têm uma visão mais ampla sobre tudo e, com isso, conseguem fazer um trabalho mais completo. Além de sermos mais competitivas e focadas, o que, de certa forma, acabamos passando para o atleta”.

E ela vai mais longe: “Pode ser uma parceria muito positiva. A Mauresmo foi uma ótima jogadora, então já conhece bem o caminho que deve ser seguido e já provou que é uma excelente treinadora para homens (é só ver os bons resultados que Llodra apresentou com ela). Somando isso à excelente qualidade técnica do Murray, não vejo por que não dar certo. Uma das grandes questões de Murray sempre foi o lado mental. Acho que a francesa, por ser mulher e consequentemente mais ‘sensível’, tem tudo para ajudá-lo neste aspecto também”, complementa.

Respondendo às críticas masculinas de que Amelie não poderá entrar nos vestiários, Murray já rebateu que pode conversar tranquilamente 20 ou 30 minutos com ela antes dos jogos no player’s lounge (sala de estar construída para os jogadores nos eventos profissionais de tênis).

Se o britânico está num momento de ouvir mais os seus próprios sentimentos e o seu corpo, e de se divertir mais durante os treinamentos e jogos, a francesa foi eleita para estar ao seu lado. Andy e Amelie afirmaram, em entrevistas separadas à BBC de Londres, que a parceria poderá se estender caso dê frutos na temporada de grama.

Estaremos curiosos e na torcida para que a dupla Marte+Vênus se fortaleça mutuamente. E, que venham as próximas.


Especial John Gray Andy Murray Amelie Mauresmo treinadora Ivan Lendl Judy Eleanor Tennant

Artigo publicado nesta revista

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