Instrução Juvenil

Meu filho é um talento: e agora?

Como agir quando um jovem começa a se destacar no tênis

Por Suzana Silva em 30 de Março de 2015 às 00:00

Se esse dilema tem tirado o seu sono, é melhor mesmo ler este artigo. Se ao final da leitura, ainda sentir-se atormentado pela dúvida, não tema: milhares de pais ao redor do mundo estão afetados pela mesma “Síndrome da Parentite Aguda”. Os sintomas são: super envolvimento com a vida atlética dos seus filhos, projeção das frustrações esportivas em seus rebentos e apropriação do rendimento dos filhos durante as competições como se fosse o próprio. Casos mais graves levam à falência econômica e emocional da família onde nasceu o talento precoce.

Num mundo dominado pelo conceito do sucesso, da vitória a qualquer preço e do culto às celebridades, cada vez mais crianças são envolvidas precocemente na roda viva das tarefas e responsabilidades, seja no esporte (os casos mais extremos no Brasil acontecem no futebol, em que muitos prodígios de 12 anos já são arrimos de família), seja no mundo do entretenimento (recente matéria da revista Veja mostrou famílias orgulhosas de seus DJ’s mirins do estilo “funk ostentação”).

Talento é a potencialidade de se tornar um sucesso, de estar na elite de um grupo, de apresentar alto rendimento em alguma atividade que exija habilidades específicas e muito treinamento. No caso específico do tênis, podemos destrinchar essa definição em quatro aspectos (1):

1. Detecção de talentos: refere-se a identificar crianças potencialmente talentosas e trazê-las para a atividade ou esporte. Exemplo: ao ver uma criança exibindo grande agilidade no basquete, convidá-la a participar do time de futebol como atacante.

2. Seleção de talentos: escolher aqueles que têm chance de ir bem numa atividade, e rejeitar aqueles que não têm. Exemplo: um professor que orienta um time de interclubes escolhe apenas o jogador mais vencedor naquele momento. Não se preocupa com o longo prazo.

3. Identificação de talentos: se refere ao processo de reconhecimento de praticantes de uma modalidade com o potencial de se tornarem atletas de elite no futuro. Exemplo: os tenistas mais talentosos são escolhidos para os programas, mas todas as crianças têm chance de participar de competições e de praticarem juntas. É um processo de longo prazo, pois entende que crianças se desenvolvem em ritmos diferentes e que, até a puberdade, aspectos fisiológicos interferem demais no rendimento. É um processo que realiza uma avaliação de qualidades físicas, mentais, psicológicas, técnicas e táticas.

4. Desenvolvimento de talentos: oportunizar um ambiente favorável de aprendizado e de treinamento para que o talento potencial possa se manifestar plenamente. Exemplo: uma federação consegue reunir todos os seus atletas potenciais com programas organizados para o longo prazo, com um planejamento de práticas e de competições progressivamente mais desafiadoras.


70% das crianças norte-americanas param de participar do esporte organizado antes dos 13 anos devido à cultura de seleção de talentos

Seleção?

A cultura de seleção de talentos, que prioriza a participação das crianças mais habilidosas nos esportes em detrimento de outras (as crianças que nunca são escolhidas para participar do time da escola, ou que, quando convocadas, ficam o tempo todo no banco) é responsável, entre outras coisas, pela incrível estatística de que 70% das crianças norte-americanas param de participar do esporte organizado antes dos 13 anos de idade (2). Três em cada quatro crianças norte-americanas não praticarão mais nenhum esporte na vida adulta. Assustador, não?

Vencer a qualquer preço em competições esportivas infanto-juvenis promove a seleção de talentos. Quando um treinador é pressionado a vencer pelos pais ou pelos dirigentes de clubes e federações, ou quando esse treinador quer vencer para satisfazer o seu próprio ego, ele se torna um selecionador de talentos.

O que queremos instalar é a cultura da identificação de talentos, na qual buscamos jogadores jovens que não são necessariamente da elite da escola, clube ou academia, mas que reúnem características físicas e psicológicas para se tornarem no futuro. Talvez não sejam nem tão habilidosos, mas possuem alto grau de respeito às orientações do treinador, demonstram empatia e sensibilidade, e, principalmente, motivação para aprender cada vez mais.

Segredos do sucesso?

O pesquisador polonês Piotr Unierzyski, do Departamento de Tênis de Campo da Faculdade de Educação Física da Universidade da Polônia, conduziu um estudo bastante revelador de longo prazo, acompanhando cerca de mil atletas de 50 países que disputavam os principais torneios europeus até 12 anos – atletas do calibre de Kim Clijsters e Roger Federer – de 1994 a 2002. Das crianças pesquisadas, seu foco foi naquelas que anos depois furaram a barreira dos 100 primeiros tenistas nos rankings profissionais. E o que ele descobriu?

Na época do início da pesquisa (em 1994, quando tinham 12 ou 13 anos), as crianças que entraram anos mais tarde na lista dos top 100 da APT e da WTA:

  • Eram três a quatro meses mais jovens do que a média das crianças pesquisadas;
  • Eram mais magras e com menor potência física do que a média da idade;
  • Geralmente eram mais rápidas e ágeis do que a média;
  • Jogavam menos jogos do que seus pares que estavam no topo do ranking na época;
  • O número de horas de treino por semana era duas a quatro horas a menos do que a média das horas dos atletas de elite da idade;
  • Seus pais os apoiavam, mas não eram super envolvidos com o tênis dos filhos.

Especialização

Então, chega aquela criança de 6 ou 7 anos com bons movimentos do tênis e trocando muitas bolas, vira a sensação do pedaço, já são colocadas expectativas, e....bem, ela é apenas uma criança que bate bem na bola. Corre bem? Como se comporta sob pressão? Como é sua agilidade? E a curva de crescimento? Um pouco cedo para prever se essa criança: primeiro, continuará a jogar tênis no futuro, segundo, se continuará gostando de jogar, de evoluir, de superar a dor, o sofrimento, tudo o que envolve o esporte de alto rendimento.

Para o desenvolvimento de um atleta no futuro, as diferentes experiências de movimento e dinâmicas competitivas e cooperativas que os diferentes esportes proporcionam são extremamente importantes. Assim, quando observamos uma criança pequena que bate super bem na bola, minimizaremos suas chances de sucesso caso deixemos que ela jogue apenas tênis todos os dias. Simples assim.

A especialização precoce se revela maléfica em ainda mais pesquisas conduzidas nos Estados Unidos:

1. Crianças que se especializam em um único esporte precocemente (a idade recomendada de especialização é a partir dos 13 anos) respondem por mais de 50% das lesões por super uso segundo os ortopedistas pediátricos;

2. Um estudo da Universidade de Ohio demonstra que as crianças que se especializam em apenas uma modalidade precocemente tendem a abandonar o esporte antes dos seus pares e a ter uma vida adulta sedentária;

3. Em outro estudo com 1.200 atletas, o Dr. Neeru Jayanthi, da Universidade de Loyola, demonstrou que as crianças que se especializam em apenas um esporte precocemente têm de 70 a 93% mais de chance de desenvolverem lesões do que aquelas que praticam vários esportes antes de se especializar;

4. Crianças que se especializam muito cedo em apenas um esporte têm maior chance de “burnout” graças ao estresse, motivação decrescente e perda de prazer na atividade.


Ao observar uma criança que bate super bem na bola, minimizaremos suas chances de sucesso caso deixemos que ela jogue apenas tênis todos os dias

Monitoramento no Brasil

Bem, se você continuou lendo até aqui, pode ser que exista ainda a chance de cura para a “Síndrome da Parentite Aguda”.

O primeiro remédio é entender que a principal motivação para iniciar uma criança no esporte é desenvolver nela os principais valores que a vida atlética proporciona: superação, disciplina, coragem, respeito... E que a principal motivação para incentivar que seu filho siga praticando esportes deve ser o prazer e a alegria que ele sente em praticar a atividade.

Se as duas coisas estão acontecendo, e a criança está evoluindo, é importante monitorá-la com sinais dentro de casa (quantidade e qualidade de sono, alimentação, dores corporais, disposição para conversar, alegria de viver) e avaliações periódicas ou testes (para avaliar dados antropométricos, capacidades físicas, habilidades motoras, características psicológicas, habilidades técnicas e táticas, o ambiente familiar, treinabilidade, entre outras).

Os testes servem não apenas para o processo de identificação de talentos, mas também para monitorar a evolução do atleta e realizar as intervenções necessárias para a manutenção da saúde e do seu processo evolutivo no longo prazo.

De acordo com o maior especialista brasileiro em identificação de talentos para o tênis, Mark Caldeira – Mestre em Desempenho Humano, coordenador do Núcleo de Ciências da CBT e coordenador do Laboratório de Psicologia do Esporte da UNIVALI –, definir a idade ideal para que esses testes sejam aplicados não é tão simples. Segundo ele, “quando falamos em idade ideal para testes, necessariamente temos que pensar nos objetivos do programa de treinamento, nos estágios de desenvolvimento do indivíduo, nas variáveis a serem avaliadas, nas possibilidades de monitoramento e nas condições de intervenção”.

Caldeira ainda conta que, após uma série de experimentos, os resultados indicaram que os protocolos mais importantes para os tenistas estão relacionados à sua capacidade de aceleração e desaceleração com envolvimento de mudança de direção, à capacidade de resistência em esforço intermitente e à potência. Num segundo momento, o foco passa às funções cognitivas e na modulação do Sistema Nervoso Autônomo (SNA) por meio da VFC (variabilidade da frequência cardíaca), sobretudo em situações de estresse. Nesses testes, Caldeira encontrou resultados promissores no que diz respeito à detecção de talentos.

Na opinião dele, os testes físicos devem ser aplicados a partir dos 13 ou 14 anos com monitoramento anual até os 16 anos e a cada seis meses (no mínimo) a partir dos 17. Os testes de funções cognitivas devem ser aplicados a partir dos 10 anos, com monitoramento ano a ano; e da modulação do sistema nervoso autônomo (SNA), a partir dos 14 anos, também com monitoramento anual. “Para termos esses testes aplicados em todo o território nacional de modo padronizado, simples e com baixo custo, creio que uma das melhores opções seria utilizar as universidades como centros de avaliação”, completa.

Pais infectados pelo vírus da “Parentite Aguda” têm cura: aceitar que o tênis para as crianças até 10 anos deve ser pura diversão. Seu filho “talentoso” agradece, e o “não talentoso” também.

Fontes:
(1) Piotr Unierzyski, do Departamento de Tênis de Campo da Faculdade de Educação Física da Universidade da Polônia, apresentou seu trabalho sobre Desenvolvimento de Talentos no Congresso Mundial de Treinadores da Federação Internacional de Tênis (ITF) em 2005 na Turquia.
(2) O coach de futebol (sim, futebol) norte-americano John O’Sullivam é autor do #1 best-seller “The Parents Guide to Rising Happy, High performance Athletes” e escreve no blog “Changing the Game Movement”. Para entender como manter seu filho no esporte, o livro e o blog são incríveis.

Pílulas

  •  Colocar a criança pequena para aprender esportes é um privilégio, e a motivação principal deve ser educativa, ou seja, pensando nas habilidades e competências que o esporte poderá aportar para a formação de um ser humano mais completo.
  • O tênis é um esporte fantástico no que diz respeito tanto à aquisição de habilidades como em valores para a vida. Mas as crianças pequenas não devem praticar apenas uma modalidade esportiva, e sim, experimentar várias, para sua educação motora, psicológica e mental.
  • Ao procurar um local para inserção de seu filho em atividades esportivas organizadas (como academias de tênis, clubes, aulas em condomínios etc), certifique-se de que existe um programa cientificamente planejado e ministrado por professores capacitados.
  • O programa deve incluir em sua agenda os festivais, festivais de jogos, campeonatinhos por equipes, para que a inserção à competição seja gradual e agradável.
  • A utilização das bolas do Play and Stay para crianças até 10 anos é regra da Federação Internacional de Tênis, e estudos conduzidos desde sua criação em 2008 comprovam que a evolução técnica e tática das crianças acontece mais rapidamente com a utilização do sistema das bolas vermelha, laranja e verde.
  • A utilização de bolas adequadas, tamanho de quadra proporcional, carga de atividades e inserção gradual às competições promove o crescimento saudável da criança. Muitos jovens promissores no Brasil foram “queimados” por excesso de solicitação músculo-tendinosa em altas cargas de treinamentos.
  • O ranqueamento das crianças até 10, até 12 e até 14 anos não é indicador de que essa criança será um atleta de elite no futuro. As melhores metas são aquelas relacionadas ao aprendizado, à condição física e ao aperfeiçoamento das capacidades emocionais e cognitivas.
  • Quando colocar seu filho num programa no qual confia, lembre sempre que a autoridade em quadra é o professor. Pergunte a ele o andamento das aulas e, ao assistir as competições de seu filho, procure não interferir.
  • Trate seu filho com carinho e respeito em situações de vitórias e de derrotas esportivas, evitando supervalorizá-lo por eventualmente jogar tênis melhor que a média das crianças.
  • Fique atento ao maior termômetro de que está indo pelo caminho certo: a saúde e a alegria do seu filho.

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