Artigo Capacitação

Em família

Irmãos fazendo aulas no mesmo grupo: desafios ou oportunidades?

Por Suzana Silva em 28 de Setembro de 2015 às 00:00

 

Era uma vez uma tenista promissora que tinha um irmão também promissor. Ambos começaram jogando no mesmo clube, foram convidados para treinar e disputar torneios como militantes – graças ao chamado “talento” – em outro clube de maior prestígio. A tenista promissora era três anos mais velha que seu irmão.

No primeiro ano como militantes, a menina foi campeã brasileira de duplas e vice-campeã em simples, o irmão, foi semifinalista em simples. Mas as comparações entre os irmãos foram duras. O irmão acabou abandonando o tênis competitivo prematuramente. A irmã mais velha continuou e teve destaque no tênis infanto-juvenil. A boa notícia é que ainda se enfrentam em duelos hoje em dia, o que rende um pouco de dor nas costas e muitas risadas.

Mais ou menos na mesma época, os irmãos Oncins eram militantes no mesmo clube. Eduardo, o mais velho, venceu o Banana Bowl de 18 anos (torneio infanto-juvenil disputado no Brasil geralmente em março) em 1981. Jaime, o caçula, representou o Brasil na Copa Davis por anos seguidos ao lado de Luiz Mattar. E o irmão do meio, Alexandre, não teve resultados tão expressivos como seus irmãos, mas jogou um tênis de alto nível.

História

Quando o papai Williams sugeriu que suas filhas jogassem tênis, pensando em sair eventualmente da vida de poucos recursos materiais que tinham no Harlem (bairro dos menos favorecidos em Nova York, Estados Unidos), não podia imaginar que a dupla de irmãs tenistas, Vênus e Serena, ganharia tantos títulos nas disputas de simples e duplas.

As garotas, respectivamente nascidas em 1980 e 1981, “mandaram bem” na carreira esportiva: quebraram marcas, venceram 13 Slams de duplas – o primeiro título aconteceu durante o Aberto da França em 1999 – e, em 2010, eram “apenas” as duas primeiras classificadas no ranking de simples e, ao mesmo tempo, a dupla número 1 do mundo. Sucesso.

Não será assunto central deste artigo a discussão sobre como cada uma delas se sente ao jogar uma versus a outra, nem o questionamento se papai Williams realmente decide quem vai ganhar cada partida na qual as meninas se enfrentam, muito menos a dúvida se fazem parte de uma família feliz ao redor do tênis. Quando há muito dinheiro envolvido, o negócio pode ficar bem complicado. Mas, a parte boa está sempre por lá, podem acreditar.

Os irmãos Luke e Murphy Jensen, uma dupla de tenistas profissionais de grande sucesso durante os anos 1990, mostram um lado bem mais leve e divertido do sucesso do tênis em família. Depois do título de duplas também no Aberto da França em 1993, os irmãos foram alçados à categoria de superstars do esporte norte-americano, com direito a partidas disputadas em horário nobre na segunda quadra mais importante do US Open em 1995.

Claro, ter uma irmã que trabalha com a imprensa pode ter ajudado. Mas os garotos eram alegres, se vestiam no estilo grunge, comemoravam os pontos mais importantes com as famosas “peitadas” e não tinham preguiça para dar entrevistas, participar de eventos beneficentes e espalhar autógrafos. Os irmãos Jensen foram muito importantes para a manutenção do tênis na mídia esportiva naquela época, e inspiraram muitos jovens a se iniciar no tênis.

Já os irmãos Mike e Bob Bryan, nascidos em abril de 1978, aperfeiçoaram as “peitadas” comemorativas dos Jensen e reconhecem os dois como ídolos inspiradores durante a adolescência. Tendo vencido o primeiro torneio de duplas quando tinham apenas seis anos de idade – pasmem! –, os gêmeos resolveram mais tarde apostar nas duplas como carro chefe da carreira de tenistas profissionais, sonhando em defender a Davis pelos Estados Unidos.

Aos 23 anos, conquistaram seu primeiro título profissional de duplas, e não pararam mais. Considerados a melhor parceria da década em 2009, fizeram o Golden Slam em 2012 – venceram os quatro Grand Slam e os Jogos Olímpicos de duplas. Os brasileiros Marcelo Melo e Bruno Soares podem se orgulhar de formarem uma das quatro duplas que venceram os Bryan na Davis. É um feito e tanto. Mas voltando aos irmãos...

Lidando com irmãos

Um professor que recebe irmãos para fazer aulas de tênis juntos tem desafios e alegrias pela frente. Um problema potencial – e acontece bastante – é gerado pela diferença na curva de desenvolvimento fisiológico, motor, afetivo e cognitivo entre as crianças. Mesmo quando a escola de tênis é preocupada em formar grupos pelo nível de habilidade, diferenças entre as crianças são normais e professores competentes estão acostumados a lidar com isso diariamente.

No lado das alegrias, é muito gostoso comunicar à criança que ela vai ter alguém para brincar de tênis dentro da própria casa. Muitas vêm fazer aulas porque os pais já praticam, mas muitas outras vêm justamente porque os pais nunca tiveram essa oportunidade e querem proporcionar a experiência de jogar tênis aos seus filhos.

O desafio dos instrutores é lidar especificamente com a criança que possui mais dificuldades – na verdade, com os sentimentos dessa criança – e fazer os pais entenderem que é preciso evitar fazer comparações entre os irmãos ou irmãs. Quando pedimos para o aluno lembrar como ele era no início do processo de aulas, e como ele está no momento, ajudamos a fazer uma autoavaliação, e esse é o segredo. Aliás, esse é o segredo para manter a motivação de todas as crianças, mesmo as não irmãs, em alta.

As crianças não possuem curvas de crescimento e desenvolvimento no mesmo grau nem ao mesmo tempo. A irmã menor pode ser bem miudinha e, por um tempo, não aguentar o ritmo de jogo da irmã mais velha. De repente, ela entra no processo de estirão primeiro, e a força muscular e a coordenação motora podem mudar bastante. Por isso, é tão delicado apontar essa ou aquela como a próxima promessa do tênis durante os anos de formação. Por isso, é tão injusto comparar irmãos entre si.

A educação dos pais nesse sentido é fundamental e essa é uma das grandes responsabilidades do instrutor que trabalha com crianças pequenas: informar, informar, informar sobre as diferenças, sobre as curvas de crescimento, sobre as distintas personalidades das crianças e, consequentemente, sobre os particulares estilos de jogo que poderão desenvolver futuramente. Assim eles podem comparar menos os filhos e observar como eles se desenvolvem naturalmente.

Os professores que dão aulas e que organizam festivais de jogos de simples e duplas para crianças têm a oportunidade de educá-las no que diz respeito às boas condutas em quadra. Podem aproveitar ainda mais essa influência e auxiliar o desenvolvimento da amizade e de boas trocas de informações entre os irmãos através do jogo de tênis, a saber:

1    As duplas desenvolvem o espírito de equipe e podem ajudar os irmãos nesse sentido. Um sempre poderá contar com a ajuda do outro. Não é o máximo?

2    Nas duplas e team tennis, as crianças podem combinar estratégias e solucionar problemas, que também são dinâmicas interpessoais interessantes. Já pensou se for uma dupla ou uma equipe de irmãos?

3    Nas duplas, as diferentes habilidades de cada tenista podem ser complementares: uma criança pode ser melhor nas jogadas de defesa, sua irmã nas jogadas de ataque etc. Mais um aprendizado interpessoal.

4     Nas partidas de simples, um irmão sempre poderá contar com a torcida de, pelo menos, seu irmão. Se for uma disputa por equipes e os irmãos estiverem no mesmo time, um terá a oportunidade de ser o coach do outro. Legal, né?

Professores, caso tenham a oportunidade de lidar com irmãos, aproveitem as deixas educativas que essas relações oferecem. Pais, caso seus filhos se iniciem juntos no tênis, parabéns: muitas aventuras os aguardam, cada um no seu próprio ritmo, com suas próprias características e necessidades. Jogar tênis em família: recomendamos.


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