Especial Técnica

Opomente

Ter a correta leitura do nível de jogo do oponente é tarefa complexa e enganosa

Por Elson Longo em 28 de Setembro de 2015 às 00:00

O oponente. Na maioria dos casos, este personagem nos é apresentado na entrada da quadra e pouco sabemos sobre ele. Independente das questões táticas, de como joga e quais são seus pontos fracos, o que sempre buscamos compreender é o quanto joga nosso rival. Qual seu nível de jogo? Ele é bom? Ruim?

Diagnosticar o nível de jogo de um tenista pode parecer tarefa fácil. Basta olhar cinco minutos e já se pode definir o quanto tal pessoa joga. Terrível engano. Muitos tenistas já foram vítimas de análises precipitadas e acabaram perdendo rápido para jogadores que avaliaram mal.

Nada pior que adentrar uma quadra acreditando que se está jogando com alguém inferior, quando, na realidade, o outro é bem superior e não se tem consciência disso. É muito comum encontrarmos jogadores frustrados porque perderam para “uma cara muito ruim”, quando, na verdade, não é nada disso.

O adversário era superior e o jogador, mesmo após o jogo, não conseguiu ter essa leitura. Treinadores experientes sabem que o que se vê em um primeiro momento é muito pouco para avaliar o nível de jogo de alguém e não aventuram palpites sem uma base de dados mais sólida.

Sendo assim, vejamos porque quantificar o nível de jogo de um tenista é algo difícil, que requer experiência e pode facilmente incorrer em erro de apreciação.

1 - As aparências enganam


"Cuidado com as aparências! Um tenista jovem, bem vestido, magro, forte, alto, com técnica linda etc pode facilmente enganar a sua percepção quanto ao seu verdadeiro nível de jogo"

Vivemos em um mundo em que o aspecto visual tem forte representatividade. Desde pequenos, somos condicionados a atribuir valores de acordo com o que vemos. Quer queira, quer não, essa característica acaba migrando incondicionalmente para dentro da quadra. Muitas vezes, um rival que se apresenta com enorme raqueteira, várias raquetes, lindo uniforme, acaba causando impacto. É inevitável acreditar que esse jogador tem jogo. Se tem patrocínio então, fica sacramentado que joga bem. Por outro lado, um tenista com um uniforme desbotado, raquetes gastas e tênis furado é olhado com desdém. Isso ganha ainda mais força entre os mais jovens, principalmente nas categorias de base. Não é necessário muitas explicações para sabermos que a indumentária do tenista muito pouco fala sobre seu jogo. Devemos deixar fora da quadra a herança visual que trazemos conosco.

2 - O poder do “fitness”

Um tenista que se apresenta com uma forma física super sarada intimida bem mais que um gordinho motivado. Principalmente entre adolescentes e adultos, o índice de gordura induz facilmente a avaliação do nível de tênis. No entanto, devemos tomar muito cuidado. No caso do tênis amador, há vários jogadores com barriga que já foram ótimos tenistas e ainda retém ótimo nível de jogo. Sabem se posicionar e antecipar, e assim conseguem compensar os quilos a mais. Em um nível mais alto, inclusive no profissional, pode-se encontrar jogadores um pouco acima do peso, tanto no masculino como no feminino, competindo em igualdade. Por outro lado, jogadores em excelente forma física podem carecer fortemente de técnica, experiência tática e de um bom perfil competidor, tendo apenas uma boa forma física. Ao avaliar um jogador, não se permita ser levado pelo aspecto físico do tenista, isso ainda pouco fala do quanto ele pode jogar.

3 - O tênis não tem idade

Muitas vezes, um jogador muito jovem, ou muito velho, pode ser menosprezado pela sua idade. Com os mais jovens, há a questão do tamanho e da imaturidade, componentes chaves para se suspeitar do nível de jogo. Os de idade avançada são associados com lentidão e debilidade física. Mais uma vez, surpresas acontecem. Há garotos muito jovens que já possuem bom controle da bola e do jogo, pois começaram muito cedo, favorecidos pelos novos métodos de ensino. Há jogadores de mais idade que possuem muita experiência e precisão, e são duros de bater.

4 - Tamanho não é documento

A altura é outro fator que influencia sutilmente as avaliações. Jogadores altos são mais facilmente associados com um bom nível de tênis que os baixinhos. Isso é ainda mais incisivo nos níveis mais altos de competição. É difícil imaginar que um jogador de pequena estatura pode jogar em um nível muito alto. Mas há vários exemplos que provam o contrário. Jogadores menores compensam em velocidade, antecipação e em uma atitude competitiva impecável. Tendem a ser mais precisos também. Jogadores altos possuem a vantagem do saque, mas as questões coordenativas e agilidade são mais difíceis de conseguir. Definitivamente tamanho não é documento.

5 - Jogar bonito não é jogar bem

Plasticidade técnica. Este, sem dúvida, é o fator que faz mais vítimas na hora de se avaliar o nível de jogo de alguém. Quantas vezes olhamos alguém bater bola por alguns minutos e notamos que os golpes não possuem boa técnica e boa forma, e já definimos que aquele jogador não é bom. Alerta: muito cuidado, não se avalia nível de jogo com um simples bate bola. Por mais torto que pareçam os golpes, na hora de jogar, o tenista pode ser muito preciso, regular e ter um padrão muito bem definido. Ser ótimo competidor, tomar boas decisões e saber jogar sob pressão – estes são aspectos bem mais importantes na construção da vitória que o formalismo técnico. Por outro lado, quando vamos espiar nosso rival bater bola e notamos que ele tem golpes lindos, tecnicamente perfeitos, já passamos a acreditar que ele joga demais e que será difícil vencê-lo. Há muitos tenistas com bons golpes, mas na hora de jogar, são irregulares, ficam tensos, afobam-se nos momentos chave da partida. A técnica é muito importante, mas ela ainda diz muito pouco do que nossos adversários são capazes.

6 - Bater forte não é tudo

Novamente quando analisamos nosso adversário apenas pelo bate bola, somos sempre afetados pela velocidade de seus golpes. Se nos deparamos com alguém que pega duro na bola, com muita potência, com saques violentos, já criamos uma expectativa que teremos um adversário difícil pela frente. De forma análoga, se o oponente apresenta uma bola leve, sem peso, já definimos que estamos em vantagem. Tênis é uma modalidade de precisão. Potência não é nada sem controle. Bater forte e colecionar erros não forçados tornam qualquer jogador um alvo fácil. Quem joga sem tanta aceleração, mas com muita consistência e precisão, vende caro os pontos e é difícil de bater. O velocímetro da bola de seu adversário está longe de ser o termômetro do seu nível de jogo.


Quando analisamos nosso adversário apenas pelo bate bola, somos sempre afetados pela velocidade de seus golpes. Mas, o velocímetro da bola está longe de ser o termômetro do nível de jogo

7 - Dar uma “olhada” no jogo

Assistir alguns games de seu rival jogando já é um pacote de informação bem mais completo, porém não conclusivo. Cada jogo tem sua linguagem própria, sua característica tática e, o mais importante, seus momentos. Você pode ter observado um começo de jogo em que seu oponente não entrou em jogo, ou em um momento de distração ou tensão, subestimando suas capacidades reais. Seu adversário também pode estar jogando com alguém que possui uma linha tática desfavorável a ele, ou um tipo de bola que não encaixa com o jogo dele, ocultando suas reais habilidades. Portanto, muita cautela. Alguns games é muito melhor que um bate bola, mas ainda revela muito pouco do que vem pela frente.

8 - Quem tem boca nem sempre chega a Roma

O tênis está muito além do que apenas se vê, é algo que acontece, manifesta-se. É essência. E como tal, deve ser compreendido

Perguntar e ouvir opiniões sobre seu rival pode ser ainda mais enganoso. Primeiro porque quem opina pode não saber avaliar corretamente. Segundo, porque as avaliações de outros jogadores estão, muitas vezes, destorcidas. Quem já venceu seu adversário, quase sempre vai enaltecer o jogo dele e, quem perdeu, por sua vez, vai menosprezar as habilidades na hora de relatar. Em um nível mais competitivo, os jogadores podem ocultar informações ou mostrar desentendimento, tal é a rivalidade. Procure, sim, saber sobre seu adversário, mas filtre bem o que escuta e não tome como verdades absolutas, apenas como mais dados para sua coleta. Não deixe de analisar muito bem a fonte da informação, isso é de extrema relevância para se saber a real natureza dos fatos.

9 - Quem tem fama deita na cama

Nada pior do que enfrentar alguém de quem todos falam e enaltecem. Cria-se uma consciência de invencibilidade sobre o rival. Afaste-se disso. Por mais que esse tenista tenha tido bons resultados e boas performances, uma vez estabelecido um consenso local de que ele joga bem, sua fama vai ser sempre bem maior que seu jogo. Uma partida equilibrada sempre gera oportunidades para ambos os lados e quem aproveitar acaba saindo vencedor. E, em relação a isso, a fama de alguém pode fazer muito pouco. De maneira contrária, aquele que todos dizem que não joga bem, merece respeito e seriedade na hora de jogar, para evitar surpresas. Como dizem os mais velhos, tênis é na quadra. E só dentro dela.

10 - Ranking não diz tudo

Hoje em dia, com a internet, fica fácil procurar seu adversário na rede e ver sua posição em algum ranking de que ele participa, seja de uma liga regional ao profissional. O ranking procura exatamente estabelecer um nível de tênis para uma pessoa. Em geral, funciona muito bem, mas tem sua imprecisão. Existem desde os casos de tenistas que jogam muitos torneios e conseguem acumular pontos através da quantidade, aos que constroem o ranking através de torneios de qualidade inferior. Nesses casos, o jogador acaba possuindo um ranking melhor do que realmente é seu jogo. Leve em conta o ranking, mas tente analisar como ele foi conseguido, quantos e quais tipos de torneios foram jogados. Isso dará uma precisão maior do quanto o ranking de seu adversário é fidedigno.

Nível de jogo

Quando se procura identificar o nível de tênis de alguém, é certo que isso não pode ser um processo superficial. Aparências, comentários, rankings ou breves observações de seu adversário vão incorrer em uma conclusão imprecisa. Um quadro real pode ser feito reunindo muitas informações, juntamente com uma análise mais extensa de seu rival em competição. É preciso tempo, juntar dados e ter experiência para analisá-los. Evitar ser influenciado pelos padrões visuais e estereótipos. O tênis está muito além do que apenas se vê, é algo que acontece, manifesta-se. É essência. E como tal, deve ser compreendido.


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