Esporte adaptado, uma nova perspectiva para o futuro

É preciso conscientizar a população sobre as pessoas portadoras de deficiência (os cadeirantes) e suas possibilidades como atletas, mas também é preciso conscientizar os cadeirantes sobre como atuar como verdadeiros atletas


Luiz Pires

EM ABRIL, TIVE UMA EXPERIÊNCIA inédita, acompanhar uma equipe de tênis em cadeira de rodas (cadeirantes) em uma competição. O destino: nada menos que o mundial da categoria, que foi realizado em Pretória, na África do Sul. Foi a primeira vez que um fisioterapeuta acompanhou a delegação de cadeirantes - algo corriqueiro entre os profissionais não cadeirantes, como na Copa Davis, por exemplo.

É interessante contar alguns detalhes dessa viagem para mostrar como é o universo desses atletas, para que as pessoas entendam como eles são tratados e não tenham preconceito. Assim como também para que os atletas cadeirantes entendam o seu papel.

Reg Caldecott / Gallo Images

Mesmo com limitação funcional importante, a maioria dos atletas é totalmente independente

NA HORA DE VIAJAR
Para quem não conhece o procedimento, que era o meu caso, quando um deficiente físico vai viajar de avião, ele deve informar a companhia aérea e chegar pelo menos uma hora antes do tempo normal de embarque, ou seja, para embarques internacionais, deve chegar pelo menos três horas antes para fazer o check-in. Isso porque, independentemente do número de deficientes no mesmo voo, eles devem embarcar primeiro. Em compensação, são os últimos a desembarcar...

Fizemos o check-in e fomos para a fila da imigração - enorme, como sempre, e desorganizada. Por sorte (ou não), os deficientes têm um acesso específico, por causa da cadeira de rodas, e prioridade na fila. Nesse aspecto, o aeroporto funciona para os deficientes, incrível! Mais incrível ainda foi quando chegamos até o embarque e todos os passageiros ainda estavam aguardando os últimos deficientes entrarem.

COMO FUNCIONA NO AVIÃO
Assim que o deficiente chega na porta do avião, ele é transferido para uma cadeira especial, que é mais estreita para poder passar pelo corredor. O comissário o transporta até o seu assento. Depois que todos se acomodam, os outros passageiros são autorizados a entrar. Se algum deficiente precisar ir ao banheiro durante a viagem, é só solicitar ao comissário para levá-lo.

Nos casos de deficientes visuais, mas que podem andar, é só informar o comissário sobre suas necessidades e, se ele fizer uso de um cão guia, o cachorro poderá ir junto e ficar sob seus pés. Para deficientes que são dependentes, eles têm o direito a um acompanhante com desconto de até 80% na compra da passagem.

fotos: Ricardo Takahashi

CHEGADA À ÁFRICA DO SUL
Após 14 horas de viagem, chegamos ao aeroporto de Johannesburgo e, na esteira para retirada das malas, tive o meu primeiro desafio, "tentar" identificar as cadeiras e rodas (jogo) de cada atleta. Fiquei impressionado com a habilidade do técnico e do auxiliar técnico (Wanderson Cavalcanti e Leonardo Butija Oliveira, respectivamente). Logo na saída do aeroporto o pessoal da federação africana de tênis já estava nos aguardando para nos recepcionar. As cadeiras foram posicionadas em um carro com caçamba e os atletas, um a um, com a maior paciência do mundo, foram acomodados no ônibus adaptado cuidadosamente.

#Q#

Apesar de serem os melhores de seus países, nem todos os atletas tinham uma rotina de aquecimento

Pegamos mais três horas de estrada e chegamos a Sun City, local de um torneio preparatório, que foi literalmente um preparatório para mim, pois pude conhecer atletas de todos os países, observar vários tipos de deficiências e suas adaptações e conhecer melhor os atletas do Brasil.

Levando em consideração queixas e dificuldades de cada um, conseguimos trabalhar flexibilidade, mobilização e manipulação articular, bandagens e, para os mais corajosos, acupuntura. O torneio foi muito bom para os brasileiros, ficamos com vice-campeonato no feminino e campeão da chave de consolação no masculino.

Apesar de serem os melhores de seus países, nem todos os atletas tinham uma rotina de aquecimento

MUNDIAL
O Mundial foi realizado na universidade de Pretória (Tshwane), onde havia várias quadras de tênis, dois campos de futebol americano, piscinas, campos de futebol e um centro de medicina esportiva invejável. Dentro do campus, a organização montou um espaço para restaurante, sala de computadores, sala de fisioterapia, estacionamento de cadeiras e uma oficina de cadeiras.

No total, foram 32 atletas de cada grupo (Grupo 1 e 2 - masculino), 16 do feminino , oito do quads (A e B - masculino e feminino) e oito do juvenil (A e B - masculino e feminino) representando 34 países. A organização estava impecável, digna de um torneio de nível mundial. Contudo, algumas coisas me chamaram a atenção:

- Os melhores atletas do mundo estão o tempo todo na oficina para ajustar suas cadeiras, mas infelizmente a maioria não aproveita a ocasião;
- Mesmo com limitação funcional importante, a maioria dos atletas é totalmente independente;
- 14 países tinham o acompanhamento de um fisioterapeuta, o único país da América do Sul era o Brasil;
- Nem todos os atletas tinham uma rotina de aquecimento e/ou alongamento pré e pós-jogo, apesar de serem os melhores de seus países;
- Como eu imaginava, a maior parte dos tenistas usa, em média, 58 libras de tensão na corda. Se levarmos em consideração que eles somente usam os braços para golpear a bola, a corda não deveria ser mais frouxa? Fizemos o teste de diminuir a tensão da corda com um dos atletas da equipe brasileira, que adorou a experiência;
- A situação do esporte adaptado no mundo todo é muito parecida. No Brasil, o que mais falta é informação. Educar a comunidade sobre os deficientes iria ajudar muito.

OLÍMPICO X PARAOLÍMPICO
-Você sabe quanto tempo é necessário para se formar um atleta olímpico? Segundo especialistas, pelo menos 12 anos.
-E um atleta paraolímpico? É possível formar em dois anos.
-O que é ser atleta paraolímpico? Um atleta com deficiência?
Pense: Eles representam o nosso país em eventos internacionais. Fazem treinamentos regulares (físico, técnico, psicológico, entre outros). Um "atleta" precisa se alimentar bem e, em alguns casos, se suplementar para obter um ótimo rendimento. Mas, infelizmente, não é isso que acontece.
Esse foi o meu questionamento para alguns atletas.
"Se você quer ser tratado como atleta tanto pela população quanto pelos órgãos competentes, haja como um atleta." "Faça diferença, seja você mesmo. Alguns atletas querem ser tratados em competições como são tratados fora da quadra: talvez esse não seja o seu lugar"
Ricardo Takahashi

Publicado em 12 de Dezembro de 2011 às 13:52


Especial

Artigo publicado nesta revista