Revista TÊNIS

O adeus de Tim, e do saque-e-voleio?

Tim Henman não foi número um do mundo, não ganhou Grand Slams, não foi dos mais carismáticos, mas certamente seu estilo de jogo fará falta ao circuito

Arnaldo Grizzo E Luiz Pires em 18 de Outubro de 2007 às 10:19

A PRIMEIRA ENTREVISTA coletiva do US Open 2007, cinco dias antes de começar o torneio, foi convocada pelo inglês Tim Henman. Dentro de duas semanas, ele completaria 33 anos. Antes de as perguntas começarem, o tenista confirma os boatos da imprensa inglesa e diz que se aposenta após a disputa do play-off da Copa Davis. Ele alega que o nascimento da terceira filha e os diversos problemas físicos que vem enfrentando o levaram a tomar a decisão de ficar em casa.

"Sinto que com o nível de tênis que já tive e com as coisas que pude alcançar, eu não queria apenas me manter jogando sabendo que as recompensas serão limitadas (de agora em diante)", reconheceu o inglês, que admitiu estar sendo cada vez mais duro jogar com uma dor crônica nas costas. Com a aposentadoria de Henman, a técnica do saque-e-voleio parece estar com os dias contados no circuito profissional.

Patrick Rafter, Pete Sampras, Stefan Edberg, John McEnroe foram alguns dos expoentes do estilo conhecido como "Big Game", caracterizado por excelentes saques, subidas à rede e voleios plásticos e precisos. A evolução tática, física e tecnológica do esporte fez os adeptos do saque-e-voleio - em sua concepção original - entrarem em extinção atualmente. Após ser eliminado do US Open na segunda rodada pelo francês Jo-Wilfried Tsonga, Henman fez a seguinte avaliação das novas gerações: "Acho que (esta partida) foi um reflexo do porquê estou me aposentando. Você olha para o estilo do Tsonga, acho que ele é um jogador clássico dos dias modernos. Você olha para a maneira como ele saca, como bate a direita, a forma atlética, é fenomenal hoje em dia. Mas há vários outros caras como ele por aí. É por isso que, com os meus problemas, e o fato de ficar velho, vai ficando cada vez mais duro competir".

FIM E INÍCIO
Durante a última coletiva do britânico no US Open, a Revista TÊNIS propôs a pergunta: "Ainda há lugar para o saque-e-voleio no circuito atual?" e a nostalgia tomou conta do tenista e dos repórteres. Henman avaliou: "Acho que há, mas não da maneira como fiz em parte da minha carreira. Acho que fui uma espécie de sacador-e-voleador genuíno. Enquanto isso, nos dias atuais, você observa uma espécie de saque devastador, tão forte quanto se pode, e então você vai atrás dele (saque). Se ele voltar, você voleia. Não creio que isso seja necessariamente um tipo de combinação. Mas, obviamente, com a natureza das condições e das bolas (mais lentas), isso (saque-e-voleio) está se tornando cada vez mais difícil de fazer e, por isso, acho que menos pessoas estão sendo ensinadas e encorajadas a fazêlo quando jovens. Sendo assim, você tem um torneio aqui, com 128 tenistas, e há pouquíssimos caras que sacam e voleiam".

Um jornalista britânico completa: "Isso é algo que se deve lamentar?" E a resposta: "Acho que sim. Acho triste porque todo mundo sabe que ver os estilos contrastantes faz um bom espetáculo. Se o saque-e-voleio e o chip and charge forem extintos, seria um pouco decepcionante". A Revista TÊNIS insiste no tema: "Se pudesse começar de novo, escolheria o saque-e-voleio?" Henman titubeia: "Ainda usaria partes dele. Gostaria de ser uns dez centímetros mais alto e uns dez quilos mais pesado (rindo)... Acho que o chip and charge é mais efetivo do que o saque-e-voleio. Se você saca, seu serviço cai na linha de saque ou antes, mas, se faz o chip and charge, você coloca seu approach na linha de base e pode ficar numa melhor posição na quadra. Acho que isso é uma tática incrivelmente efetiva. E todo mundo odeia.

É onde você não dá ritmo para estes caras, você tira o tempo deles todo segundo serviço, ninguém gosta disso".

INSPIRAÇÃO
Henman nunca escondeu de onde surgiu sua admiração pelo estilo que incorporou em seu jogo. Foi acompanhando as partidas do sueco Stefan Edberg que o inglês decidiu sair da mesmice e adotar uma técnica mais apurada e complexa. "Sempre admirei Edberg por sua postura e excelência dentro e fora das quadras. Ele foi o maior expoente do estilo saque-e-voleio que já vi jogar e é por isso me inspirei em seu jogo ", revelou.

"Acho que fui uma espécie de sacador e- voleador genuíno "

O tênis sempre esteve no sangue do inglês. Seu avô, Henry, disputou algumas edições do torneio de Wimbledon. Tímido, educado e retraído, Henman é um típico britânico, e sua relação com o torneio de Wimbledon e as quadras de grama do All England Club é apaixonante. O tenista ainda se recorda da primeira vez que entrou na quadra central do clube londrino. "Eu tinha apenas seis anos, e assisti Bjorn Borg dar início à campanha pelo pentacampeonato histórico. Foi uma data marcante, naquele dia eu decidi que seria tenista profissional, mesmo sem ter idéia da importância de Wimbledon", lembrou.

A partir então, seu maior objetivo - conquistar o Grand Slam inglês - estava traçado. Em quatro edições (1999, 1999, 2001, 2002), Henman deu esperança para a torcida londrina, que não via um inglês vencer em casa desde 1936, mas foi barrado nas semifinais. Isso é algo que o desaponta? "Quando penso no meu histórico em Wimbledon, seria o primeiro a admitir que ele é bom, mas sempre foi uma meta vencer o torneio. Em alguns aspectos, poderia dizer, 'estou desapontado porque não o venci?' Sim, acho que estou.", admitiu o tenista.

#Q#

No entanto, uma brasileira que o viu crescer, o considera um grande amigo e sabe o quanto é duro alcançar uma semifinal em Wimbledon, acredita que os britânicos cobraram-no demasiadamente por não ter vencido a competição: "Acho que o público inglês forçou muito a barra, porque ele chegou em quatro semifinais de Wimbledon. Não é qualquer um. Acho super-triste perder um jogador assim de estilo clássico, bonito, saque-e-voleio, como Sampras, Rafter. Esse sim, vale a pena ver. Gente que saca normal, voleia bonito, joga na rede, variando bastante jogo. Mas acho que o principal motivo para ele parar foi estar sentindo muita dor", contou Maria Esther Bueno, que ganhou três Grand Slams na Inglaterra e se considera amiga de Henman: "Conheço muito a família dele. Fui uma das primeiras pessoas que o levou para Wimbledon, para assistir os jogos. A gente treinava junto, fora de Londres, quando ele era pequeno. A gente se dá muito bem e até hoje conversa muito. Vai fazer falta, pois era um grande amigo e um grande expoente do tênis no estilo de jogo que eu gosto, saque-e-voleio".

LEMBRANÇA
Perguntado sobre qual foi o oponente mais duro, Henman apontou certeiro: "Roger. Sem dúvida. E, novamente, isso é um reflexo de como o jogo tem mudado. Não há duvida de que quando você estava jogando contra Sampras na grama, era incrivelmente difícil. Você podia não responder um saque por três ou quatro games, mas, se fizesse um bom trabalho no seu saque, poderia manter seu serviço e chegar a 4/4, 5/5, 6/6. Isso quando as condições (de jogo) eram mais rápidas. Agora, sendo consideravelmente mais lentas, você joga contra Roger e cada game é uma luta. E você olha para os placares dele contra outros tenistas, o número de caras que ele já deu 6/0, acho que isso enfatiza como o jogo dele é completo. Definitivamente diria que ele é o melhor jogador contra quem já joguei".

Mesmo apontando Federer como o melhor, o britânico faz questão de ressaltar que algumas de suas maiores vitórias foram contra o suíço: "Lembro de um ano em que perdi meu serviço apenas uma vez na semana toda em Basel e fiz Roger chorar na final. Aquilo foi especial. Tenho que lembrá-lo daquilo toda vez, apenas para deixálo com os pés no chão", diverte-se Henman, que alcançou mais duas semifinais em Grand Slam, ambas em 2004, no US Open e, surpreendemente, em Roland Garros.

"As pessoas perguntam: 'Você mudaria algo na sua carreira?' Certamente. Faria várias coisas de maneira diferente. Acho que se alguém fala: 'Não, eu não mudaria nada se tivesse a chance', creio que seja muito estúpida", apontou o inglês, contudo disse que gostaria de ser lembrado por "ter sido um bom jogador, que trabalhou duro e deu tudo pela a sua profissão. Não acho que haja muito mais a pedir do que isso..."


Perfil/Entrevista

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