Como a evolução da preparação física profissional está transformando o tênis amador

A preparação física no tênis evoluiu com o avanço da ciência e da tecnologia, incorporando métodos utilizados no esporte de alto rendimento para melhorar o desempenho dos atletas amadores. Eduardo Faria, fundador da 5º Set, explica como o treinamento físico individualizado, a avaliação funcional, o monitoramento das cargas e o mapeamento genético esportivo podem contribuir para a evolução dos tenistas, auxiliar na prevenção de lesões e orientar estratégias de recuperação. O texto também aborda a influência da genética nas características fisiológicas de cada jogador e destaca que o desempenho esportivo depende da combinação entre genética, treinamento, alimentação, sono, recuperação, planejamento e dedicação.
As exigências do tênis profissional mudaram drasticamente nas últimas duas décadas. Antes baseado principalmente em talento e técnica, o jogo se transformou em uma modalidade extremamente exigente do ponto de vista físico, que demanda altos níveis de força, velocidade, potência, resistência, mobilidade e prevenção de lesões.
Hoje, os jogadores profissionais são, antes de tudo, atletas completos. As partidas podem durar várias horas, com trocas rápidas, acelerações explosivas, mudanças bruscas de direção e uma intensidade que coloca o organismo à prova do primeiro ao último ponto.
Jogadores como Jannik Sinner, Aryna Sabalenka e Carlos Alcaraz são frequentemente admirados pela potência dos golpes, pela velocidade de deslocamento e pela capacidade de manter o nível físico durante partidas de quatro ou cinco horas. Essas características não são apenas fruto do talento. São consequência de programas de treinamento altamente estruturados, que integram preparação física, fisiologia, biomecânica, nutrição esportiva, recuperação e monitoramento contínuo do atleta.
Ficaram para trás os tempos em que correr longas distâncias e fazer musculação convencional eram suficientes para preparar um tenista. Hoje, preparadores físicos utilizam plataformas de força, câmeras de alta velocidade, sensores vestíveis, monitoramento da carga de treinamento, controle da fadiga, avaliações funcionais e protocolos específicos de recuperação. Mobilidade, estabilidade, qualidade do movimento e prevenção de lesões passaram a fazer parte da rotina diária dos melhores atletas do mundo.
A recuperação também deixou de ser apenas descanso. Crioterapia, terapias compressivas, monitoramento do sono, estratégias nutricionais e controle das cargas são hoje componentes fundamentais para que o atleta consiga competir durante toda a temporada. Mas existe um aspecto interessante nessa evolução.
Durante décadas, a Fórmula 1 sempre foi um grande laboratório de inovação. Diversas tecnologias desenvolvidas para ganhar décimos ou até milésimos de segundo nas pistas acabaram chegando aos automóveis que utilizamos diariamente. No esporte acontece exatamente o mesmo. Tudo aquilo que hoje é utilizado pelos melhores atletas do mundo, amanhã estará disponível para os praticantes amadores. Foi assim com o treino de força específica para o tênis. Foi assim com os programas de prevenção de lesões. Foi assim com o treinamento funcional, com os testes físicos periódicos, com o monitoramento das cargas de treinamento e com a utilização da tecnologia para acompanhar o desempenho. O conhecimento produzido no esporte de alto rendimento desce, gradativamente, para todos aqueles que desejam jogar melhor, com mais saúde e maior longevidade esportiva.
O objetivo do tenista amador é diferente do profissional. O amador, mesmo competitivo, deseja jogar melhor, permanecer saudável, evitar lesões e continuar desfrutando do esporte por muitos anos. Além disso, existe um desafio adicional. O tenista amador precisa conciliar trabalho, família, viagens, compromissos pessoais e uma rotina cada vez mais intensa. O tempo disponível para treinar é limitado e, justamente por isso, cada sessão precisa gerar o máximo de resultado.
Treinar muito deixou de ser o principal objetivo. Treinar de forma inteligente tornou-se muito mais importante. Essa mudança fez com que conceitos antes restritos ao esporte profissional passassem a fazer parte da rotina do tênis recreativo: avaliações físicas periódicas, testes de potência, controle da carga semanal, programas individualizados de força, estratégias de recuperação e acompanhamento profissional.
Talvez a maior revolução da preparação física moderna seja compreender que dois atletas aparentemente iguais podem responder de maneira completamente diferente ao mesmo treinamento. Idade, histórico esportivo, qualidade do sono, alimentação, rotina de trabalho, recuperação, perfil biomecânico e características genéticas influenciam diretamente a forma como cada organismo se adapta aos estímulos.
É justamente dentro desse conceito que o Programa TFI – Treinamento Físico Inteligente, desenvolvido pela 5º SET, incorpora o Mapeamento Genético Esportivo como mais uma ferramenta de individualização da preparação física. O objetivo não é descobrir quem será campeão nem prever o futuro esportivo de um atleta. A proposta é compreender suas potencialidades fisiológicas para construir programas de treinamento cada vez mais precisos e individualizados.
O Mapeamento Genético Esportivo permite identificar tendências relacionadas à produção de força explosiva, resistência aeróbica, recuperação muscular, metabolismo energético, resposta inflamatória e susceptibilidade a determinadas lesões. Essas informações podem auxiliar o preparador físico a ajustar as cargas de treinamento com maior precisão, orientar estratégias individualizadas de recuperação e identificar vulnerabilidades fisiológicas que merecem atenção durante todo o processo de preparação.
Na 5º SET, entretanto, a genética nunca é analisada de forma isolada. Ela é integrada à avaliação física, à anamnese, ao histórico de lesões, à rotina de treinos, aos objetivos do atleta e à experiência do preparador físico. Dessa forma, o programa TFI transforma informações científicas em decisões práticas que podem contribuir para um treinamento mais eficiente e seguro.
É importante destacar que o mapeamento genético deve ser compreendido como um instrumento complementar ao planejamento esportivo, e não como um fator determinista do sucesso atlético. Embora a análise genética possa apontar predisposições fisiológicas, como maior aptidão para resistência aeróbica, força explosiva, recuperação muscular ou maior susceptibilidade a determinadas lesões, esses dados não determinam o desempenho esportivo.
O rendimento de um atleta é resultado da interação entre genética, treinamento, ambiente, alimentação, recuperação, qualidade do sono, motivação, aspectos emocionais e orientação técnica.
Ao longo da história do esporte, inúmeros atletas alcançaram níveis extraordinários de desempenho mesmo sem apresentarem, teoricamente, as características fisiológicas consideradas ideais. A elevada capacidade de adaptação ao treinamento, a disciplina, a consistência e a qualidade do planejamento frequentemente superaram limitações individuais.
Esses exemplos reforçam um princípio fundamental da ciência do esporte moderna: o determinismo genético é uma visão ultrapassada. A genética não determina o destino esportivo de ninguém. Ela fornece informações valiosas para que treinadores, preparadores físicos e atletas possam tomar decisões mais inteligentes durante o processo de treinamento.
Assim como a telemetria revolucionou a Fórmula 1 sem substituir a habilidade do piloto, o mapeamento genético representa mais uma ferramenta da ciência para orientar o treinamento, respeitando a individualidade biológica de cada jogador.
A preparação física deixou de ser um diferencial exclusivo dos atletas profissionais. Ela tornou-se um componente indispensável para qualquer pessoa que deseja jogar tênis com qualidade, evoluir tecnicamente, reduzir o risco de lesões e permanecer ativo por muitos anos. O tênis moderno não exige apenas bons golpes. Exige um corpo preparado para executar esses golpes centenas de vezes, com potência, eficiência e segurança. Da mesma forma que muitas das tecnologias da Fórmula 1 chegaram aos automóveis que utilizamos todos os dias, as ferramentas desenvolvidas para o alto rendimento estão transformando a realidade do tênis amador.
No fim, não é a genética que cria campeões. É a combinação entre conhecimento, planejamento, treinamento consistente, experiência profissional e dedicação diária que permite a cada jogador alcançar o melhor desempenho possível.
Eduardo Faria é licenciado em Educação Física e pós-graduado em treinamento esportivo, Eduardo Faria trabalha com tenistas desde 1986. É fundador da 5º Set, criadora do TFI (Treinamento Físico Inteligente), que combina testes físicos, mapeamento genético e avaliação nutricional para melhorar a performance.
Eduardo Faria
Publicado em 20/10/2026, às 12h36