Perfil Bollettieri

Mudando o jogo

Trechos do livro “Changing the game (Mudando o jogo)” de Nick Bollettieri mostram como ele se relacionou com dois dos maiores tenistas dos anos 1990, André Agassi e Jim Courier, seus pupilos

Da redação em 29 de Agosto de 2014 às 00:00

 

NICK BOLLETTIERI ENTROU NO HALL da Fama do tênis com um recorde inigualável como técnico, tendo treinado 10 ex-números 1 do mundo, além de ter uma academia que mudou a forma como o tênis é ensinado no mundo. E Bollettieri, aos 83 anos, ainda não se deu por vencido. Por que tanto sucesso?

“Deus me deu o dom de ser capaz de ler as pessoas. Tudo o que sou é devido à minha habilidade de me relacionar com as pessoas de forma simples. Não sou o melhor treinador do mundo. Sou um cara simples”, diz.

A seguir, dois excertos de seu livro “Changing the Game (Mudando o jogo)” mostram como ele se relacionou com dois dos maiores tenistas da década de 1990.

Jim Courier

Comecei a notá-lo [Jim Courier] quando ele competia contra alguns de meus jogadores e, depois que chegou às finais do Orange Bowl de 1984 – ele era o melhor juvenil do ranking na época –, contatei-o e ofereci um lugar na Nick Bollettieri Tennis Academy (NBTA). Mais tarde, ele me disse que levou menos de 10 minutos para tomar uma decisão e eu tampouco levei muito tempo para perceber que esse garoto era um buldogue.

Nick Bollettieri

É vital que os pais e treinadores entendam que palavras erradas podem destruir um jovem. Encontrar algo positivo em suas performances e encorajá-los é crucial

Em sua carta, Linda (mãe de Courier) pediu-me para mudar seu backhand de duas mãos. Jim amava beisebol e era muito bom nisso; tão bom que, na verdade, ele poderia ter sido profissional. Ele batia o backhand de duas mãos como rebatia com um taco de beisebol, usando uma empunhadura pouco convencional – semi-Western na mão de baixo e semi-Western na de cima. Antes de decidir o que fazer com a solicitação de Linda, avaliei os outros golpes de Jim, seu físico e atitude mental, além do quão competitivo ele era. Minhas descobertas:

-    O forehand de Jim era letal, batido com uma empunhadura Western extrema.
-    Seu saque chapado era sônico e ele ainda podia mudá-lo para um quique tão alto que o devolvedor precisava de uma escada para alcançar.
-    Ele era tão competitivo que quase lhe apelidei de buldogue.
-    Ele não era um voleador convencional, mas seguiu minhas instruções para fazer seus voleios acima dos ombros.

Meu conselho foi: “Jim, meu garoto, esqueça seu backhand e bata tudo de forehand”. Isso é uma prática muito comum hoje. Atualmente, você sempre vê jogadores como Roger Federer e Rafael Nadal fugindo do backhand, mas, na época, isso era um novo desenvolvimento para o tênis.

Também lhe disse para acertar saques potentes, grandes devoluções e ir em todas as bolas. A propósito, o backhand de Jim, apesar de não convencional, era muito bom também.

Em seu primeiro ano na academia, Jim venceu o Orange Bowl na categoria 16 anos quando tinha 15, e na categoria 18 anos no ano seguinte. Apenas Bjorn Borg tinha conseguido esses títulos seguidos antes dele. Jim e meu filho Jimmy Boy tornaram-se grandes amigos – ambos têm uma veia artística; Jim era baterista e, meu filho, fotógrafo. Na época, havia uma garagem no nosso campus que era dividida no meio, com um lado estocando a bateria de Jim e o outro servindo de laboratório fotográfico para Jimmy. O som da bateria irritava muitos tenistas que frequentavam a academia, incluindo André Agassi. Mas o interesse de Jimmy Boy era menos intrusivo e ele capturou muitos dos jogadores da academia em soberbas fotografias de ação.

“Jim, meu garoto, esqueça seu backhand e bata tudo de forehand”

Jim e André eram meus “garotos especiais”. Ele tiveram uma grande rivalidade na academia. Jim se ressentia que André fugia das coisas das quais os outros estudantes não podiam fugir e que André não tinha que trabalhar tão duro quanto os outros. Ele legitimamente reclamava que precisa acordar e começar o treino às 7h da manhã enquanto André podia aparecer nas quadras às 11h. Eu não percebia a profundidade desse ressentimento na época.

Durante a minha carreira, sempre tentei tratar meus estudantes com equidade e compaixão (da forma que gostaria que as pessoas tratassem meus filhos). Mas, em 1989, perto da época em que Jim estava deixando a academia, cometi um erro terrível. Estávamos em Roland Garros e Jim enfrentou André na terceira rodada. Deveria ter escolhido um lugar neutro e torcido para ambos, mas sentei com Phillip Agassi, irmão de André, e Bill Shelton, seu agente. Quando Jim olhou para cima e me viu, ficou devastado. Podia ver em seus olhos que ele estava pensando: “Por que você está escolhendo André em vez de mim?” Depois, ele disse: “Percebi que Nick não queria que eu ganhasse e isso me machucou”.

Isso não atrapalhou sua performance, contudo. Deixei-o bravo e ele jogou um pouco do seu tênis mais feroz para despachar André (e eu) em quatro sets.

Até hoje, pergunto-me por que escolhi sentar no box do André – quando amava ambos os jogadores com todo o meu coração. Como eu pude ser tão imprudente de não perceber que isso era um ato de traição, uma admissão tácita da minha torcida? Era como um pai abertamente escolhendo um de seus filhos em detrimento de outro.

Quando Jim cresceu, ele me perdoou pela minha indiscrição e nos tornamos, e ainda somos, melhores amigos. Ele sempre teve um coração tão grande quanto todos os outdoors e sou grato a ele por seu apoio ao que faço.

Jim ficou na academia por quatro anos. Seus maiores triunfos, os quatro Grand Slams, em Roland Garros e no Australian Open, assim como o número 1 do mundo, vieram depois que ele saiu e trabalhou com outros treinadores. Mas ele sempre reconheceu o impacto que seu tempo na academia teve em seu jogo – estabelecendo as bases de seu sucesso – e seu desenvolvimento pessoal.

André Agassi

Em um jogo noturno no estádio do torneio Sovran Bank Classic, em Washington, em julho de 1987, André jogou contra Patrik Kühnen. André era o burburinho do circuito – com roupas extravagantes, cabelos selvagens e grandes contratos de patrocínio. Isso irritou muitos tenistas já consagrados e eles queriam dar uma lição nesse garoto arrogante. Depois do primeiro set, André começou a travar e duvidar de sua habilidade de vencer e ser um grande tenista. Patrik derrotou-o facilmente por 4/6, 6/4 e 6/0. Quando a partida terminou e deixei o box dos treinadores, Phillip e o agente, Bill Shelton, disseram que André estava no parque do outro lado da rua destruindo suas raquetes. Caminhei até ele e perguntei, com uma voz suave, o que havia de errado. Ele gritou: “Não posso fazer isso”. Apontei para o meu punho esquerdo e disse: “André, eu estou usando um relógio? André, eu estou usando um relógio? Não há um relógio em você. Sua equipe acredita e vai ficar com você em cada milímetro do seu caminho”. André me olhou com uma expressão de curiosidade e dúvida. Cheguei mais perto e, quase sussurrando, disse: “Meu garoto, você será um grande tenista”.

A equipe fez as malas e fomos para o próximo torneio, em Stratton Mountain. E, uau, que campanha o André fez! Naquele ponto, ele estava em 90o no ranking e venceu quatro jogos seguidos, incluindo um contra Pat Cash, sétimo do mundo. Ele perdeu nas semifinais para Ivan Lendl, o número 1! Esse foi o começo de sua ascensão para o estrelato internacional.

Tão dotado e talentoso quanto André era, ele também tinha muitas dúvidas consigo mesmo. Isso não é incomum quando se está competindo em alto nível. É vital que os pais e treinadores entendam que palavras erradas podem destruir um jovem. Encontrar algo positivo em suas performances e encorajá-los é crucial.

Outro elemento importante é uma boa equipe de apoio; acredito que isso pode significar a diferença entre sucesso e fracasso, e André teve sorte de ter um bom time. Além de seu irmão, Phil, havia Bill Shelton, o primeiro agente negro de um tenista top, que faleceu em 2011. Ele tinha uma grande voz de cantor e fazia boas imitações de Nat King Cole. André adorava ver Bill cantando.

Fritz Nau viajou para todos os Grand Slams de que André participou, exceto pelo Australian Open, apesar de ele odiar voar. Ele era discreto, uma presença bem-humorada, ainda que uma rocha em seu apoio a André e crucial em reconstruir sua confiança depois de suas três finais de Grand Slam – que ele perdeu para Pete Sampras no US Open e para Andrés Gomez e Jim Courier em Roland Garros.

Outra pessoa especial a quem não se deu todo o crédito merecido é Gil Reyes, seu preparador pessoal, guarda-costas e amigo de longa data. Gil fez seu melhor para gerenciar o físico e a dieta de André, mas ele era um espírito livre. Lembro de uma ocasião no Aberto da França em que André mandou Bill e eu para o McDonald’s. Voltamos com US$ 200 em hambúrgueres, fritas e refrigerantes. Então André baixou a temperatura do quatro para menos de 5oC e todos assistimos a filmes de terror. Como preparador, Gil devia querer morrer com esse tipo de atitude, mas era a única forma de manter André calmo e relaxado.

Fazíamos outras coisas loucas para nos manter sãos na turnê. Um ano, no Aberto da Itália, ficamos todos em um hotel construído em uma encosta. Estávamos no quinto andar e compramos balões que eram lançados das janelas e “abatidos” com estilingues. As pessoas sentadas nos balcões mais baixos ficaram assustadas enquanto os tetos dos carros e ônibus da rua abaixo eram apedrejados. Em certo momento, a polícia chegou e tivemos sorte de não termos sido presos.

Em seu primeiro Wimbledon, em 1987, André teve que jogar sua primeira rodada na quadra 2, a que todos se referiam como “quadra da morte”. O rival era Henri Leconte, o francês número 1, e eu mal tinha sentado em meu lugar quando a partida acabou. O placar foi 6/2, 6/1 e 6/2. André disse: “Vamos dar o fora daqui”, e decidiu, como Ivan Lendl tinha feito antes dele, que “grama era para vacas”. Ele não disputou o torneio nos três anos seguintes.

Poucos dias antes da competição de 1992, André me ligou às 3h da manhã na Flórida – meia noite em Las Vegas. Disse: “Nick, o que vamos fazer para Wimbledon?” Eu respondi: “André, tenho esperado você me dizer o que quer fazer”. Ele sugeriu irmos para Boca Raton treinar nos dois dias seguintes.

Então, Fritz Nau, Raúl Ordóñez e eu decidimos nos empilhar em meu Bronco (carro) e nos encontrarmos lá – nós três queriam jogar um pouco de golfe enquanto estávamos lá. Um dia antes de partir para a Europa, André finalmente anunciou que estava pronto para treinar.Acredite, ele não tinha batido na bola desde Roland Garros dois meses antes! Encontramos duas quadras verdes cercadas por exuberantes árvores e fingimos que era a grama de Wimbledon! Depois de 30 minutos de treino, André declarou que estava pronto e eu concordei, apesar das minhas dúvidas. Ele tinha uma grande destreza para pegar a raquete depois de não ter jogado há semanas e bater na bola como se o tempo não tivesse passado.

Ele quase foi derrotado na primeira rodada novamente contra Andrei Chesnokov, um russo perigoso. A partida foi suspensa devido à escuridão, dando-nos tempo de nos rearranjar, e, no dia seguinte, André venceu três sets seguidos e foi para a próxima rodada.

Depois disso, tudo pareceu fluir. A caminho da final, ele venceu dois ex-campeões de Wimbledon, Boris Becker e John McEnroe. A final foi de roer as unhas, uma batalha de cinco sets que pendeu para ambos os lados. Goran Ivanisevic tinha o maior saque do tênis na época e marcou inacreditáveis 37 aces. Mas André, o melhor devolvedor, não deixou que isso o atrapalhasse e respondeu tudo. Quando Goran voleou o último backhand de André na rede, André caiu de joelhos e levantou os braços em celebração. Ele reivindicou seu título de Wimbledon, o primeiro dos oito de sua carreira. A grama não mais era apenas para as vacas.  André a dominou!

Na noite seguinte, vestidos a rigor, fomos ao baile de Wimbledon, que homenageava os campeões. A vencedora entre as mulheres tinha sido Steffi Graf, que mais tarde se tornaria a esposa de André depois de se aposentar. Era uma celebração de tudo o que André e eu tínhamos trabalhado para conseguir.

Mas, depois de vencido Wimbledon, André teve algo como uma desilusão que durou cerca de um ano. Senti que as coisas estavam começando a mudar. Seu amigo de infância, Perry Rogers, substituiu Bill Shelton como agente. André passou a consultar outros técnicos e comecei a ficar extremamente desconfortável, silenciosamente pensando quando seria substituído. Depois de muito exame de consciência, cheguei à conclusão que, depois de quase uma década juntos, era hora de terminar nosso relacionamento e escrevi uma carta para André falando da minha decisão. Aquilo foi um dos maiores erros da minha vida. Deveria ter voado até Las Vegas e dito a ele em pessoa. Meu segundo erro foi mencionar minha decisão a um repórter; André soube de nossa separação no noticiário antes que minha carta chegasse. Ele ficou devastado – qualquer um ficaria.

Tenho poucos arrependimentos em minha vida; a forma como lidei com essa situação foi um deles. Se tivesse entrado em um avião, sentado com André e lhe dito por que queria deixar a equipe, as coisas podiam ter sido diferentes. Questões de sensibilidade merecem respostas bem pensadas. E quando se lida com amigos e pessoas queridas, a resposta deve mostrar o respeito que o relacionamento merece. Sei que era como um pai para ele e deveria ter feito algo melhor por ele. Se tivesse lidado com o problema apropriadamente, talvez tivéssemos nos mantido uma equipe, quem sabe?

Na época, ficamos ambos muito magoados e, durante algum tempo, continuamos jogando sal na ferida, como discuti em detalhes em um livro que escrevi com Dick Schaap, “My Aces, My Faults”. Tempos depois que nosso relacionamento profissional terminou, André escreveu sua biografia. Sei que ele foi crítico em relação a mim e chamou a academia de prisão. Para ser honesto, nunca li seu livro, nem uma linha dele. Mas tudo isso são águas passadas.

Deus me mandou uma mensagem para manter André na academia e apreciar seu comportamento idiossincrático

Com o tempo, gradualmente deixamos as mágoas para trás. No Aberto do Canadá, sentamos na lanchonete e conversamos por um instante. Falamos sobre meus filhos, Alex e Nicole, que sempre disseram o quão bom André era com eles. André sempre foi bom com crianças. Passei a escrever bilhetes para André. Começamos a trocar cartões de Natal, atualizando-nos sobre nossas famílias. E conversamos sempre que nos vemos nos torneios. André não foi ao 30o aniversário da NBTA, mas enviou um vídeo, que foi mostrado no evento, no qual ele disse coisas muito bonitas sobre mim e nosso relacionamento. Hoje, ele e eu somos bons amigos. Sei que, se precisar de algo, ele vai me ajudar e vice-versa!

Tenho orgulho de tudo o que fizemos por André na academia. Acredito que, se não fosse por sua equipe de apoio, talvez não tivesse alcançado o nível de sucesso que teve. O velho provérbio de que é preciso de uma cidade para criar um filho é especialmente verdadeiro no caso de André. A cidade era composta por seu pai, Mike, sua mãe, Betty, sempre descontraída e calma – a rocha em um mundo sempre tempestuoso –, seu irmão Phillip e outros membros da família, Fritz Nau, Gil Reyes, Bill Shelton e eu. Deus me mandou uma mensagem para manter André na Academia e apreciar seu comportamento idiossincrático. Apesar de termos tido um relacionamento de altos e baixos, não tenho problema em admitir que nossos sete anos juntos estão entre os mais prazerosos da minha vida.

E deixe-me dizer ainda que não tenho orgulho apenas do tenista que André se tornou, mas fico satisfeito pelo homem que ele se tornou! Ele tem uma boa família com Steffi Graf e seus dois filhos lindos. Ele ainda abriu uma escola privada com uma incrível taxa de graduação. Ele levantou milhões de dólares para sua escola e outras na região de Las Vegas. Ele se tornou um homem consciente e generoso cujo impacto no mundo vai muito além de suas conquistas como tenista.

From Tennis Magazine. Copyright 2014 by Miller Sports Group LLC. Distributed by Content Agency


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