A reinvenção de Connors

Como, aos 29 anos, Jimmy Connors, então dado como acabado, conseguiu voltar a vencer os grandes torneios

Por Jimmy Connors em 16 de Julho de 2015 às 00:00

Jimmy Connors

Depois de cinco anos seguidos (de 1974 a 1978) terminando como número 1 do mundo, tendo vencido cinco e feito outras seis finais de Grand Slams nesse período, Jimmy Connors era dado como “acabado” três anos depois, quando Bjorn Borg e John McEnroe passaram a dominar o circuito.

No entanto, no final de 1981, ele conseguiu se “reinventar” depois de uma partida épica contra McEnroe em Wembley. No ano seguinte, venceu Wimbledon e o US Open, provando que ainda tinha muita “lenha para queimar”. Incansável, atuou em alto nível até os 40 anos de idade, em uma época em que um atleta de 30 anos dificilmente conseguia acompanhar os mais jovens.

Terminou a carreira com oito Grand Slams conquistados e impressionantes 109 títulos no total, um recorde até hoje. Connors era capaz de ser amado e odiado pelo público em uma mesma partida. Sua personalidade sempre foi marcante. Seu estilo, com forehand e backhand ambos batidos com as duas mãos, causava estranheza. Certamente foi um dos maiores tenistas de todos os tempos.

Recentemente, sua biografia “Jimmy Connors – Minha vida dentro e fora das quadras” foi lançada no Brasil e a Revista TÊNIS traz com exclusividade trechos do primeiro capítulo , chamado “Saindo das sombras”, em que “Jimbo” conta como conseguiu se reinventar. Confira a seguir.

Tenho 29 anos e, desde os 26, ouço as pessoas dizerem que estou acabado, cansado, que eu já era.

Jimmy Connors

“Qualquer outro antes de mim teria se dado por satisfeito com os meus resultados, mas eu não”

Não concordo com isso. Eu é que vou dizer quando estiver cansado, e isso ainda não aconteceu. Nem sequer cheguei ao meu ápice. Que se danem. Estamos em 1981, e perdi minha posição de número um do ranking no ano passado. Embora tenha acumulado 17 vitórias em torneios desde então, não venci nenhuma competição grande. Uma dúvida se intromete em meus treinos diários: será que ainda faço parte da elite? Será que ainda consigo competir nesse nível? Não estou ganhando. Estou sendo empurrado para o fim da fila. E isso é duro de engolir.

Tenho altos e baixos. Acho que sou bom, mas não consigo vencer. Todo dia eu me levanto e faço as coisas certas, porém os resultados não melhoram. Chego às semifinais e, então, perco jogos que deveria ganhar. Isso não é bom o bastante. Tudo bem ganhar torneios de importância secundária ao longo da carreira, mas não é o mesmo que vencer um dos principais, e é disso que estou atrás. Qualquer outro antes de mim teria se dado por satisfeito com os meus resultados, mas eu não, e, evidentemente, a mídia também não. Os três últimos anos foram os mais frustrantes da minha carreira.

[...]Tenho de exigir mais de mim mesmo, treinar mais pesado, me exercitar por mais tempo. Estou mais velho, e agora os resultados não chegam com a mesma facilidade de antes. Não estou me referindo à parte física. O que acho difícil é a parte mental. Ultimamente, não estou vencendo tanto quanto gostaria, mas tenho de achar um jeito de me comportar como se estivesse, para não me convencer a parar com tudo. Não quero cair na armadilha de dizer: “Ah, que merda, talvez todo mundo tenha razão. Eu devo estar acabado”. Tenho de recuperar a autoconfiança, ainda que não saiba ao certo onde foi que a deixei. As coisas não estão dando muito certo para mim, então preciso ser duas vezes mais arrogante para sobreviver. É assim que vou enfrentar as dificuldades. Não posso simplesmente sair por aí e fazer as coisas de qualquer jeito. Tenho de ir fundo. Tenho de me preparar, encontrar minha melhor forma e recuperar o meu jogo.

Wembley, Inglaterra, 14 de novembro de 1981.

Wembley é um torneio importante, realizado no fim do ano, mas não é um Grand Slam. Mesmo assim, esta não é uma partida qualquer. Estou perdendo por dois sets a zero e encarando, do outro lado da quadra... John McEnroe.

Adoro jogar contra Borg, Lendl, Nastase, Panatta e Gerulaitis. A lista dos grandes tenistas do meu tempo é comprida como o meu braço, mas jogar contra Mac é mais que uma partida de tênis. Ele é a minha referência. Olho para ele e vejo o nível que tenho de alcançar para ser o número um de novo.

Mac é o melhor tenista do mundo. Ele simplesmente venceu Wimbledon e o US Open. Quando McEnroe surgiu, ele queria tudo que eu tinha. Eu era o número um dos Estados Unidos, e ele queria isso. Eu era o número um do mundo, e ele queria isso. E ele conseguiu tudo. Agora, eu quero de volta.

Eu não vou apenas dar as costas e dizer que é difícil demais, que ele é muito jovem (sete anos mais novo que eu, para ser exato). Embora Mac e eu nos enfrentemos o tempo todo, somos tão parecidos que até assusta. Sou irlandês, e ele também. Sou canhoto, e ele também. Tenho um temperamento horrível, e ele também. Eu sempre disse que adoraria jogar contra mim mesmo, e Mac é o mais perto disso a que chegarei.

Esta partida contra McEnroe podia fazer com que eu voltasse a vencer, em grande estilo. Sei que meu jogo está melhorando de novo e agora tenho uma chance de provar isso, derrotando Mac na final.

Infelizmente, estou perdendo por dois sets a zero. A única coisa que posso fazer é imaginar como continuar ali por mais um minuto, um ponto, uma bola, qualquer coisa que possa fazer pressão sobre Mac. Isso é tudo que quero. Construí minha reputação com um estilo agressivo de jogo e hoje vou viver ou morrer mais uma vez, jogando desse modo. Não vou ficar só esperando que alguma coisa aconteça. Vou fazer acontecer.

Jimmy Connors

"Quando McEnroe surgiu, ele queria tudo que eu tinha. Eu era o número um dos Estados Unidos, e ele queria isso. Eu era o número um do mundo, e ele queria isso. E ele conseguiu tudo. Agora, eu quero de volta"

Jimmy Connors

 

Só que, neste exato momento, não consigo. Mac dá um show. Ele está fazendo tudo certo, e parece que sou um figurante numa futura produção da Broadway que se chamará Detonando Connors. Estou sendo massacrado, mas no tênis até mesmo a coisinha mais insignificante pode mudar o desenrolar de uma partida. Pode ser uma jogada, uma palavra de um juiz, uma interrupção vinda das arquibancadas – qualquer coisa que alivie a pressão e a tensão. Claro que esse tipo de mudança mínima também pode me desfavorecer. Não seria a primeira vez que eu perderia o rumo.

Mac está no que chamo de “pausa do confronto”, ou seja, ele ainda não deu tudo que tem, ainda há mais pela frente, e está descansando para uma segunda investida contra o juiz principal. Sentado na cadeira, Mac levanta os olhos para o sujeito e então recomeça:

– Você não sabe as regras. Você não tem o direito de me dizer nada.

Eu me distraio com um rosto simpático e solidário na arquibancada, uma moça que parece sentir pena de mim porque estou sendo massacrado. Assimilo suas palavras de incentivo e me preparo para voltar e enfrentar a situação. Esse breve momento foi o que bastou para eu me sentir parte do que acontece à minha volta. Relaxo. Agora, tenho uma chance de enfrentar os demônios na minha cabeça e desenterrar algo do meu passado que me ajude a vencer.

[...]

Começa o terceiro set. Meu trabalho de pernas melhora, e estou mais preparado para acertar as bolas. Minhas devoluções ficam mais fundas, fortes e rápidas, então Mac tem menos tempo para reagir. Começo a ditar o ritmo da partida.

Quando quebro o saque dele no terceiro set, minha confiança sobe pela primeira vez na partida. Estou mandando as bolas mais perto da linha, com maior controle e exatidão. Por causa disso, Mac chega atrasado para rebater e, assim, tem menos chances de ditar o jogo. Embora sejamos parecidos em muitos sentidos, temos estilos antagônicos de jogar. Quando um dos dois está jogando seu melhor tênis, o outro recua. Ele é bom em saque e voleio; e eu, em devolver do fundo da quadra e fazer a bola percorrer a quadra toda. Nos dois primeiros sets, Mac estava dando ótimos saques e subindo à rede, bem dentro de sua zona de conforto, mas agora ele é obrigado a jogar do jeito que eu quero, junto à linha de fundo.

Jimmy Connors

Agora que venci o terceiro set, o jogo está a meu favor, e, mesmo perdendo por um set, sinto-me preparado para enfrentar Mac, não importa o que ele planeje. Ainda assim, não posso ficar muito convencido. É de John McEnroe que estamos falando, e você não deve nunca subestimá-lo. Nunca.

No quarto set tenho a chance de quebrar o serviço dele mais uma vez, e a multidão sente que o jogo mudou. É isso que faz valer o preço do ingresso, e agora a torcida não tem um favorito. No entanto, quanto mais empolgados os fãs vão ficando, mais fácil é me perder no entusiasmo deles. Então, a coisa se resume a isto: como manter minha cabeça no lugar quando todo mundo em volta está enlouquecendo. Minha missão é deixar a torcida louca, mas não entrar nessa onda.

[...] Quando me tornei profissional, aos 19 anos, comecei a ter o que eu costumava chamar de “tiques”. O problema apareceu na primeira vez que fui a Wimbledon. Meu primeiro “tique” surgiu na Quadra Central quando, no meio de um jogo, fui tomar um gole de Coca-Cola. Bebi um tanto e comecei a baixar o braço para largar a latinha, mas minha mão não abria.

– Tempo, senhor Connors – disse o juiz principal, notando minha conduta bizarra. – Tempo, senhor Connors.

“Larga a droga da latinha e volta logo para a quadra”, disse para mim mesmo. Eu podia sentir o juiz principal me olhando fixamente. O tempo estava correndo. E eu não conseguia soltar a latinha.

– Tempo, senhor Connors. Tempo, senhor Connors – disse ele de novo.

Senti a lata de um jeito estranho na minha mão. Por algum motivo, ela não parecia sólida. Vinte mil pessoas me observavam tentando largar uma latinha de refrigerante! E eu dizia para mim mesmo: LARGA A PORRA DA LATINHA!

Finalmente, depois de mais ou menos 25 tentativas, a lata voltou ao normal na minha mão e consegui largá-la. Estava pronto para jogar de novo.

Fui para o saque e não conseguia parar de quicar a bola. Repeti o movimento umas 30 vezes, tentando fazer a bola me dar a sensação de que estava do jeito certo. Acredite em mim: não estava tentando atrapalhar o jogo do meu oponente com tantas repetições, embora esse talvez fosse um bom efeito colateral. Mas não ia conseguir parar de quicar a bola até que minha mão e meu cérebro percebessem que ela estava quicando direito.

Foi somente aos 30 e poucos anos que vi um programa de televisão sobre TOC e pensei: “Caramba! É isso que eu tenho”. Achei que era só superstição, ansiedade, nervosismo. Mas, quem diria, existe até um nome para isso.

Tive sintomas de TOC desde aquela primeira viagem a Londres e depois ao longo de toda a minha carreira. Era exaustivo. Qualquer gesto – desde guardar alguma coisa na geladeira várias vezes seguidas até arrumar uma cadeira no lugar exato – poderia descambar num ritual a qualquer momento e ocupar inteiramente o meu pensamento. Talvez eu tenha sintomas de TOC desde menino, mas eles não se tornaram tão evidentes até o dia do estresse e da excitação do meu primeiro torneio em Wimbledon. [...]

É o quarto set, e o placar ainda está apertado. Mac provavelmente acha que, se não fechar o jogo agora, vou levar o quinto set. Depois de ganhar o quarto set, posso sentir a mudança em sua linguagem corporal. Vejo a confiança dele desaparecer.

Empatamos em dois sets cada. Mac tropeça e torce o tornozelo. Não me surpreendo. A quadra é um tapete recoberto de piso duro. Superfície difícil para jogadores de tênis. Ela pode empelotar, afundar um pouco, e há pontos cegos. Mac controla a dor e se prepara para retomar a partida. Ele teria jogado contra mim ainda que tivesse fraturado o tornozelo. E já joguei com ele com o tornozelo quebrado.

Nossa rivalidade tem a ver com respeito. Ele exige mais de mim do que qualquer outro jogador, e espero que eu tenha o mesmo efeito sobre ele. Estou lutando com todas as minhas forças, e ele também. Não há nada falso em nossa rivalidade. Mac é o único jogador que, ao vê-lo mancando na quadra, não me sinto mal de pensar: “Foda-se”.

O juiz principal diz para Mac jogar. E ele põe a bola em movimento. Ele saca e leva o ponto. No saque seguinte, ele acerta a juíza de linha no meio do estômago. Sem dúvida, doeu. Olho para ela, ponho a mão na barriga e me dobro para a frente num gesto de simpatia. Ela sorri, o público dá risada e depois aplaude. Adoro isso.

Ganho o game e, na troca de lado, soltam fogos de artifício. Mac está sentado em sua cadeira, esbravejando com o juiz principal.

– Você é idiota, entendeu? Idiota! Você tomou parte do meu tempo de atendimento. Você tomou 20 segundos do meu tempo de atendimento – diz Mac. – Você só piora as coisas quando diz para eu pôr a bola em jogo se não me sinto bem!


"Mac é o único jogador que, ao vê-lo mancando na quadra, não me sinto mal de pensar: “Foda-se”"

Ele tem razão. Você tem 20 segundos entre os pontos. Além disso, dão três minutos de atendimento com o fisioterapeuta. O juiz principal errou mandando Mac continuar o jogo. Mac poderia ter chamado o fisioterapeuta se quisesse, mas o juiz principal não parecia conhecer bem as regras. Quando alguém é o juiz principal numa partida em que jogamos Mac e eu, ele está sentado em cima de uma bomba-relógio. Ou melhor, de duas. É só uma questão de tempo. Mais cedo ou mais tarde.

Do meu lado da quadra, penso: “Que se dane, ele que lide com os problemas dele”, mesmo sabendo que ele tem razão. Eu já tive minha cota de problemas.

– Não tenho de continuar se me machuquei! – Mac berra para o juiz principal.

 

Jimmy Connors

Publicado pela editora Benvirá, com tradução de Maria Silvia Mourão Netto
Para adquirir, acesse: www.saraiva.com.br/jimmy-connors-minha-vida-dentro-e-fora-das-quadras-8869347.html

Estou pronto para voltar à partida, mas, ao mesmo tempo, quero ficar na cadeira e ouvir essa “conversa”. Ei, e daí? O que são mais 30 segundos quando Mac pode começar a despejar uma boa dose de insultos? Mas dessa vez me decepciono, porque Mac não abre mais a boca e vai andando furioso para o seu lado da quadra.

Estou na frente no quinto set, sacando, e então Mac me dá uma passada de backhand na paralela. A bola sai, mas cantam bola dentro. OK, lá vamos nós mais uma vez. Estou pertinho da vitória e então tem de acontecer essa merda. Vou até o juiz principal.

– Já estamos jogando há mais de três horas, e sei que você deve estar muito cansado – digo. – Correndo bastante e tudo o mais. Então, só tente prestar um pouco mais de atenção, pode ser?

Sarcasmo, a arma dos campeões.

Continuo jogando bem. A partida está do jeito que quero, e posso sentir isso. É uma compensação pelo trabalho extra. Venço os pontos seguintes com facilidade. Connors, 40 a 0, triplo match point. Mac devolve o saque com um backhand na rede e é o fim. Acabou. Eu perdia por dois sets, me matei para ganhar e ganhei: 2-6, 3-6, 6-3, 6-4, 6-2.

[...]

Os três últimos anos de críticas ao meu jogo – durante os quais ouvi que eu estava acabado, que o tênis estava me deixando para trás, que outros jogadores estavam me superando – acabaram me dando um presente: permitiram que eu entendesse como eu precisava do tênis. Precisava ir lá e ganhar. Precisava ver estádios lotados: a prova de que eu estava ganhando. Não podia deixar que os críticos vencessem. Mesmo que, na realidade, estivessem dizendo: “Vamos lá, Jimmy, esperamos mais de você”. E, ainda que alguns fãs estivessem de fato tentando se livrar de mim, eu precisava dessa motivação também. Tudo isso me fez trabalhar com mais empenho. O que eles não sabiam é que esse era o maior elogio que poderiam me fazer. Tinham sido anos difíceis e frustrantes, mas, nesse tempo todo, nem sequer por um único segundo perdi meu amor e minha paixão pelo tênis. [...]


Perfil/Entrevista Jimmy Connors Minha vida dentro e fora das quadras vencer grandes torneios Grand Slams

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