Como é ser diretor de relacionamento com jogadores dos Australian Open
André Sá Publicado em 15/05/2026, às 10h01
Um jantar casual em Eastbourne, em 2016, mudaria completamente o rumo da minha carreira. Estava lá com o Thomaz Bellucci, nos preparando para uma sequência de torneios após Wimbledon, quando ele me surpreendeu:
— André, o que você acha de experimentar viajar comigo como treinador?
O que era para ser três semanas de teste se transformou em quase onze meses juntos e abriu um novo caminho.
Dali veio um convite da ITF para trabalhar no relacionamento com jogadores durante a reformulação da Copa Davis. E foi assim que Craig Tiley, diretor-executivo da Tennis Australia, me encontrou. Ele precisava de alguém para um papel similar, voltado para um projeto novo que viria a se tornar a United Cup.
Em março de 2019, assumi o cargo de diretor de relacionamento com os jogadores da Tennis Australia, função que exerço até hoje. Meu trabalho é manter uma relação próxima e de confiança com jogadores, treinadores e empresários, sendo um canal humano de comunicação entre eles e a Tennis Australia.
Montar a programação de um Grand Slam é uma tarefa complicada. Quatro fatores governam esse processo: ranking, pedidos dos jogadores — que são vários —, televisão e integridade física dos atletas.
Os tenistas do top 10 têm prioridade nas quadras principais, mas um jogador que encerrou uma batalha de cinco sets às três da manhã não pode jogar no dia seguinte. E, quando você está gerenciando dezenas de partidas simultâneas, esse tipo de sobreposição pode acontecer se não houver controle.
Tem jogador que prefere jogar à noite, outros de dia, a televisão precisa fazer os encaixes etc.
E os imprevistos são inevitáveis. Em Melbourne convivemos com dois inimigos climáticos: a chuva e o calor extremo. Por isso investimos em três estádios com teto retrátil. Mas nem sempre é suficiente. Já presenciei jogos sendo encerrados às quatro da madrugada, com jogadores frustrados.
O fato de ter sido jogador ajuda muito nesse trabalho, pois há uma empatia genuína.
Por exemplo: quando a Tennis Australia decidiu mudar o formato das semifinais para colocar as mulheres no prime time de quinta-feira, uma das semis masculinas precisou ser deslocada para sexta de dia, com o calor de janeiro em Melbourne. Os jogadores ficaram insatisfeitos.
Mas eles entendem que você tem uma compreensão maior das dificuldades que eles têm, então isso facilita muito para entrar na cabeça do jogador e explicar a razão dessa mudança.
Não à toa, o torneio ganhou o apelido de “Happy Slam”. Os jogadores chegam em janeiro, depois de dois meses sem competir, animados com o início de uma nova temporada.
Mas a diferença vai além da atmosfera. Quando um atleta tem um problema, a resposta não é “aqui é assim”. É: o que você precisa? Como a gente pode resolver?
Iniciativas como o One Point Slam — que reuniu mais de quatro mil inscritos por todo o país para que amadores pudessem enfrentar profissionais em Melbourne — mostram que o Australian Open está sempre inovando.
A ideia era criar um evento curto, que envolvesse tênis, mas também a comunidade. A história da primeira edição foi incrível: um amador vencendo.
Também criamos um showdown de duplas mistas, reunindo os melhores duplistas do mundo em um formato acessível ao público. Assim, a semana do qualifying passou a ter conteúdo para os fãs e os tenistas.
Mineiro de Belo Horizonte, André Sá se profissionalizou em 1996 e encerrou a carreira em 2018, aos 40 anos. Em simples, chegou ao 55º do mundo, com destaque para as quartas de Wimbledon 2002. Nas duplas, sua especialidade, conquistou 11 títulos ATP e chegou ao 17º lugar do mundo.