Instrução Mental

Lições de uma derrota avassaladora

O vexame da Seleção Brasileira na Copa, o pneu de Eugenie Bouchard na final feminina de Wimbledon... Essas derrotas são capazes de ensinar algo?

Por Suzana Silva em 28 de Julho de 2014 às 00:00

Eugenie Bouchard

Bouchard perdeu a final feminina de Wimbledon em menos de uma hora de jogo

COMO ESQUECER A DERROTA avassaladora do Brasil frente à Alemanha nesta Copa do Mundo de 2014. Como atleta e educadora, meu pensamento não para de analisar todos os aspectos possíveis para encontrar os porquês. Sou daquele tipo de pessoa que acredita que tudo tem uma razão e que sempre acontece o melhor.

Se nosso sistema futebolístico nacional levou uma chacoalhada para acordar, e a partir disso houver uma plena reformulação – profissionalização dos cargos diretivos, reestruturação dos sistemas de competição desde a base, criação de um centro nacional de treinamento para preparar as futuras gerações etc – entenderemos que há males que vêm para o bem.

A jovem tenista canadense Eugenie Bouchard também levou uma “sacolada” na final de Wimbledon, perdendo da tcheca Petra Kvitova por 6/3 e 6/0 em pouco menos de uma hora. Também podemos chamar essa derrota de avassaladora. Mas foi impressionante a expressão de Bouchard durante o segundo set e ao final do jogo. Ela ficou brava consigo mesma por não ter conseguido fazer melhor. Sim, reconheceu que Kvitova esteve brilhante – como também esteve a Alemanha no 7 a 1 –, mas não gostou da própria performance e deixou isso bem claro. Sabe que tem conquistado cada vez mais experiência e que está perto de vencer um torneio importante, mas não gostou de perder feio. “Me aguardem”.

Os jogadores alemães entenderam que aconteceu algo inusitado. Desculparam os brasileiros, que consideram ser grandes jogadores, mas que não aguentaram a pressão. Uma equipe desgovernada, a ponto de tomar quatro gols em nove minutos, que nem de longe parecia a seleção de um país cinco vezes campeão mundial, só podia mesmo estar em estado de choque profundo.

Bouchard não teve desculpas a dar. Pode ter sentido a pressão de jogar uma final de Wimbledon pela primeira vez, contra uma tenista mais experiente, já campeã dessa competição em 2011, mas não abaixou a cabeça em momento algum, mantendo uma atitude de confiança para seu caminho através das próximas disputas. Já o time brasileiro...

Dois pesos?

É muito difícil comparar um esporte individual com um coletivo. Mas os dois envolvem a bola, mas, mais do que isso, envolvem comprometimento, reações rápidas, encadeamento tático. Conseguir a unidade em um time, destaque no coletivo ao invés de nos talentos individuais, não deve ser tarefa das mais fáceis, reconheço. Porém, não consigo ver nesses boleiros milionários a humildade e o comprometimento necessários para perder um jogo de futebol com a cabeça erguida. E não estou falando agora apenas da Seleção Brasileira, mas dos futebolistas brasileiros em geral.

Roger Federer levou a final masculina ao quinto set diante de um Novak Djokovic extraordinário. Ele já poderia ter parado de jogar, com os recordes alcançados e a conta bancária polpuda. Foi, jogou, lutou e ainda reconheceu que fez muito mais na final do que imaginava conseguir. Venceu o quarto set com jogadas de grande coragem, sacando e subindo, devolvendo com slice e subindo, enfim, com aquelas jogadas que enchem nossos olhos e valorizam ainda mais a vitória do adversário. Perdeu de pé, como um rei. Djoko, vencedor do dia, chorou.

Tenista com “T” maiúsculo entende muito bem o que é se sentir pressionado, mas nosso tipo de jogo não permite “apagões”

Não dá: tenista não pode andar em campo, não pode cavar uma falta, não pode pedir substituição, não pode colocar a culpa no companheiro que errou um passe. Ele enfrenta tudo sozinho e segura todas as pontas. Tenista com “T” maiúsculo entende muito bem o que é se sentir pressionado, mas nosso tipo de jogo não permite “apagões”.

A maioria dos futebolistas brasileiros vem de famílias muito humildes, param de estudar muito cedo e ficam deslumbrados com as conquistas materiais que alcançam precocemente. Entram no mundo ilusório das celebridades, carrões e mídias sociais. Perdem a conexão consigo mesmos e com valores importantes como a honra, o espírito de equipe, a disciplina e a coragem.

Os tenistas possuem um caminho muito duro para chegar ao profissionalismo e, lá chegando, precisam dar muito mais duro ainda para conseguir pagar suas contas e seguir jogando. Já disseram que as dificuldades moldam o caráter. E não podemos dizer que não há tenistas arrogantes, que dão desculpas quando perdem, que jogam com pouca garra. Mas os grandes campeões dão um show de profissionalismo e humildade.

Quem sabe se esses contratos milionários feitos por agentes sanguessugas com jogadores de 10 anos de idade não devessem ser proibidos, para que os jovens boleiros pudessem, enfim, ter mais tempo para desenvolver seu caráter e amor pelo jogo. Quem sabe tenhamos um dia um plano esportivo de futebol de longo prazo.

Já a “Seleção Brasileira” de tênis entra em campo contra a Esquadra Espanhola de Rafael Nadal no dia 12 de setembro, no Ibirapuera. Queremos vencer tanto quanto a Seleção de futebol quis. Reconhecemos o favoritismo adversário, pelo menos no que diz respeito aos rankings dos jogadores de simples dos dois países – e são quatro jogos de simples. Nas duplas, os favoritos somos nós. Mas devemos esquecer tudo isso e jogar jogo a jogo, bola por bola, com muita garra e espírito coletivo.

A lição mais importante que recebemos nesta Copa não serve apenas para o futebol, mas para todo o mecanismo esportivo nacional, ainda tão precário, individualista, imediatista e ganancioso. Foi uma lição para cada um de nós.


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Artigo publicado nesta revista

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