Nascidos para mudar o tênis

10 tenistas que transformaram a forma como o tênis é jogado

Por Arnaldo Grizzo em 21 de Novembro de 2014 às 00:00

Acredita-se que os primórdios do jogo de tênis tenham surgido em algum ponto da Idade Média e evoluído até o major Walter Clopton Wingfield, oficial do exército britânico, criar um livro de regras e “patentear” o esporte em fins do século XIX. Um dos marcos oficias do nascimento do tênis como o conhecemos hoje, porém, é a realização do primeiro torneio de Wimbledon, em 1877.

No entanto, pode-se dizer que o “tênis como conhecemos hoje”, apesar de as regras terem mudado pouco, é bastante diferente do esporte praticado naquela época. Se atualmente é comum vermos jogadores se digladiarem em longas trocas de bola, nos idos de 1900, isso era impensável. Nascido sobre a grama e a terra, superfícies irregulares, deixar a bola quicar no chão era temerário, portanto, logo os tenistas aprenderam que era preciso sacar e pegar a resposta adversária antes que ela quicasse de seu lado da quadra. Ou seja, o voleio se desenvolveu antes mesmo dos golpes de fundo.

Vale lembrar ainda que, sendo um esporte de elite, era jogado com calças compridas e camisa pelos homens, além de vestidos e saiões pelas mulheres. As raquetes eram de madeira e ainda feitas de forma bastante rudimentar. Aliás, um dos poucos equipamentos usado desde os primórdios e que permanece top de linha ainda hoje é a corda de tripa natural – não há quem conteste sua excelência em elasticidade e conforto.

Assim, com cada avanço de tecnologia, o esporte obviamente mudou. A evolução das raquetes, por exemplo, foi uma das que mais afetaram a forma como o tênis é jogado. No entanto, boa parte do desenvolvimento do jogo se deve aos tenistas. Com o tempo, eles criaram novas formas de jogar, adaptaram-se às inovações, e possibilitaram essa incrível gama de estilos que observamos hoje no tênis.

Por isso, a Revista TÊNIS decidiu elencar 10 tenistas (homens) que mudaram a forma com que o tênis foi jogado durante essa história de pouco menos de 150 anos. E como fazer listas é sempre uma tarefa ingrata. Ao selecionar um tenista em detrimento de outro, alguma injustiça acaba sendo cometida. Portanto, ao escolhermos esses 10 tenistas, temos consciência de que deixamos de fora diversos nomes que certamente poderiam ser citados. Alguns talvez até com mais mérito do que os que aqui estão presentes. Contudo, não se pode negar que esses 10 personagens tiveram grande influência na formação dos mais diversos estilos de jogo que temos hoje.

Bill Tilden

Ainda nos primórdios do tênis, Bill Tilden foi o primeiro a conseguir dominar o jogo de fundo de quadra

Bill Tilden

William Tatem Tilden II, ou Bill Tilden, foi o primeiro grande ídolo do tênis na história. O norte-americano foi considerado o melhor de todos durante a década de 1920, “os anos dourados” do esporte, tendo conquistado 10 Grand Slams em simples, mais seis em duplas e cinco em duplas mistas, além de sete Copas Davis. Sua dominância era tão grande que terminou a carreira como amador (na época, somente os tenistas amadores podiam disputar os Grand Slams e outros torneios da Federação Internacional de Tênis) com aproveitamento de mais de 90% nos 969 jogos que disputou.

Alto para os padrões da época (1,89 m), Big Bill (como era conhecido) tinha um serviço devastador. Assim, em uma época em que o tênis clássico (saque-e-voleio) era a norma, seria natural supor que seu jogo se resumisse a um grande serviço complementado com um voleio de definição, fechando bem a rede com ajuda de sua enorme envergadura. No entanto, um dos grandes trunfos de Tilden, na verdade, era dominar o jogo de fundo de quadra, algo impensável até então.

Outra vantagem sua era a capacidade de aliar potência (tinha forehand e backhand extremamente pesados) com golpes de extrema sutileza, como deixadinhas e lobs desconcertantes, além de um slice afiado. Por tudo isso, Tilden também foi um dos primeiros a pensar o esporte de forma estratégica, comparando-o frequentemente a uma partida de xadrez.

René Lacoste
Lacoste não somente inovou no vestuário, ele foi o primeiro a usar a estratégia de forma sistemática em suas partidas, estudando minuciosamente cada pequena falha de seus adversários para poder explorá-las e vencer
René Lacoste

René Lacoste

Alguns podem até achar que a inclusão de René Lacoste (o Crocodilo) nessa lista deve-se às suas contribuições ao tênis fora da quadra, como as primeiras roupas realmente desenhadas para a prática do esporte (isso ainda na década de 1920) ou então pelo desenvolvimento da primeira raquete de metal, criada em 1963, e que ficaria famosa nas mãos de Jimmy Connors. Mas, se o intuito fosse abarcar outros nomes que contribuíram com o tênis fora das quadras, seria preciso citar gente como Jack Kramer, Arthur Ashe, entre outros.

No entanto, o legado de Lacoste vai muito além da marca de vestuário que leva seu sobrenome. Nos anos 1920, ele era um dos astros do quarteto de tenistas franceses que foi apelidado de “Mosqueteiros” e incluía Jean Borotra, Henri Cochet e Jacques Brugnon.

O Crocodilo foi um dos competidores mais vorazes de seu tempo. Filho de uma família abastada, ainda assim decidiu se arriscar no esporte. Apesar de alguns apontarem que o jovem não tinha um dom natural para o tênis, ele compensava isso com horas e horas de treinos. Acredita-se que, de tanto treinar, o paredão de sua casa precisava se reformado continuamente.

Não contente, ele estudava seus adversários minuciosamente para poder explorar cada possível fraqueza. Sua meticulosidade era tamanha que mantinha diários sobre o jogo de cada rival. Não à toa, é considerado um dos maiores estrategistas de todos os tempos. Lacoste ainda foi um dos primeiros a introduzir treinos de força à sua rotina diária.

Don Budge
Don Budge, o primeiro a completar o Grand Slam, deve grande parte de seu êxito ao aprimoramento do backhand com topspin

Don Budge

Don Budge

Quando vencer os quatro principais torneios do tênis (os Abertos da Austrália, França, Inglaterra e Estados Unidos) em uma única temporada não tinha o apelo que tem hoje, o norte-americano Don Budge conseguiu e, por sua causa, criou-se esse mito dos Grand Slams e também em torno dos poucos heróis que um dia foram capazes de conquistá-los todos em um único ano.

Com 1,85 m, Budge tinha um saque poderoso e golpes de base igualmente potentes. Sua principal arma, por mais contraditório que possa parecer, era o backhand. Apesar de bater com apenas uma mão (comum para a época), ele conseguia imprimir uma enorme potência, mas, mais do que isso, topspin. Hoje um efeito tão comum no tênis, o topspin era uma novidade na época. Graças a uma empunhadura Eastern (o comum era Continental tanto para o forehand quanto para o backhand), o norte-americano conseguia fazer a bola girar no ar para quicar e subir quando atingisse a quadra adversária.

Apesar de outros tenistas antes dele já utilizarem o topspin, foi Budge quem aprimorou a técnica com seu backhand. O topspin, no entanto, só se tornaria “obrigatório” no jogo a partir dos anos 1970, com Bjorn Borg e Jimmy Connors.

VIV MCGRATH


O backhand de duas mãos era considerado uma fraqueza até que McGrath o tornou uma arma

Viv McGrath

Hoje tão comum no tênis, o backhand com duas mãos era tido quase como uma aberração até os anos 1960, mais ou menos. Até então, o mais comum era jogar com apenas uma das mãos. Se lembrarmos que algumas raquetes de madeira chegavam a pesar cerca de 500 gramas, imagine a força no braço que um tenista precisava ter para suportar partidas intermináveis – já que não havia tiebreak.

Portanto, não é de se espantar que o backhand com duas mãos tenha surgido, já que a segunda mão na raquete ajuda e muito na sustentação do golpe. E também não é à toa que hoje essa técnica seja tão comum. Apesar de “estranho”, a verdade é que o backhand de duas mãos já vinha sendo usado por alguns tenistas desde os primórdios do esporte. Até então, porém, esse tipo de backhand era considerado uma fraqueza de quem o utilizava.

No entanto, um tenista da década de 1930 decidiu aprimorar o golpe. O australiano Vivian McGrath, apesar de considerado um prodígio – chegou a ser chamado de “Garoto Maravilha” –, não se tornou um grande campeão. Venceu apenas duas vezes o Grand Slam em seu país, uma vez em simples e outra em duplas. Todavia, sua marca registrada acabou sendo o backhand de duas mãos, que ele praticou até aperfeiçoar e se tornar uma arma.

Rod Laver

Aliás, sua maior vitória, no Australian Open de 1937, deu-se sobre o compatriota John Bromwich, um tenista ambidestro que também desenvolveu um potente golpe de duas mãos – difícil definir, porém, se era seu backhand ou forehand.

Rod Laver

O único tenista a conseguir conquistar os quatro títulos de Grand Slam em um mesmo ano por duas vezes (sendo também o único até hoje a conseguir realizar essa façanha na Era Aberta – ou seja, após 1968), Rod Laver é e sempre será uma referência no tênis. O australiano ruivo foi o maior expoente do estilo moderno de “jogador de quadra toda”, ou “all-court player” como os norte-americanos chamam.

Apesar de baixo (tinha apenas 1,73 m) ou talvez por isso mesmo, Laver construiu um jogo completo, sem grandes fraquezas, capaz de atuar com maestria tanto do fundo de quadra, com incríveis variações de topspin e slice, quanto na rede, onde demonstrava toda a sua habilidade. O australiano canhoto não tinha falhas técnicas e era dotado de uma força desproporcional a seu tamanho. Vale lembrar ainda que ele foi um dos primeiros a adotar golpes com topspin regularmente em seu arsenal.

Dessa forma, Rod Laver estabeleceu um padrão de jogo que foi perseguido por muitos tenistas durante os anos seguintes, com alguns bons expoentes, mas que talvez só tenha sido realmente igualado com Roger Federer.

Rod Laver instituiu o estilo moderno do “all-court player” no tênis

JIMMY CONNORS

Nunca ninguém foi capaz de envolver a plateia em um jogo de tênis como Jimmy Connors. Ele soube usar a energia do público para fortalecer o seu jogo

Jimmy Connors

O tênis da década de 1970 acompanhou o surgimento de um dos competidores mais vorazes da história do esporte. Com sua garra extremada, Jimmy Connors tornou-se o campeão das multidões. Aliás, ele foi um dos pioneiros quando o assunto é envolver a plateia e trazê-la para dentro do jogo a seu favor. Nisso, ele foi um maestro como nenhum outro tenista tinha sido e até hoje ninguém mais conseguiu. Um exímio “showman”, ele sabia catalisar toda a energia emanada do público para amedrontar seus adversários. Mesmo que a torcida lhe fosse contrária, ainda assim ele era capaz de usá-la.

O backhand de duas mãos de Jimbo também se tornaria um dos golpes mais célebres do tênis, especialmente quando usado para suas poderosas devoluções de saque, em uma era em que o tênis ainda era dominado pelo estilo de saque-e-voleio. Apesar do jogo completo, foram seus golpes de base que ajudaram a fundamentar o tênis-força nos anos seguintes. Vale lembrar ainda que ele foi pioneiro no uso das inovadoras raquetes de aço que surgiram na época. Muitos de seus golpes foram forjados com ajuda dessa nova tecnologia.

Para quem acha que a entrega de Rafael Nadal em quadra é a maior já vista, vale ver algumas partidas de Connors. Não à toa, ele continuou atuando até depois de completar 40 anos, sempre com a mesma gana, e angariou nada menos que 107 títulos em simples na carreira, um recorde que muitos acreditam ser insuperável nos dias de hoje.

Bjorn Borg

Bjorn Borg

Borg foi o maior expoente do tênis-força, caracterizado por longas trocas de bola de fundo de quadra com muito topspin, e também um dos tenistas mais frios da história do esporte, um exemplo de força mental

Alguns creditam a Bjorn Borg a primazia do uso do topspin no tênis devido ao sucesso que ele alcançou ao golpear todas as bolas com esse efeito. Apesar de o sueco não ter sido o primeiro a usar essa técnica como arma, foi sim ele quem instituiu a era do topspin no esporte.

Maior expoente do “tênis-força” – nome dado ao estilo que ficou marcado por incansáveis trocas de bolas pesadas de fundo de quadra –, Borg também pode levar o crédito pela crescente popularização do tênis no começo da década de 1980, quando se tornou um dos ídolos da juventude.

Graças a regularidade extrema de seus golpes com topspin, ele venceu Roland Garros por seis vezes (um recorde até o aparecimento de Rafael Nadal) e Wimbledon por cinco vezes, sendo que ganhou os dois Grand Slams seguidos em três temporadas consecutivas, de 1978 a 1980.

O sueco também é considerado um dos tenistas mais frios de todos os tempos e ganhou o apelido de “IceBorg”. Inabalável em quadra, Borg se tornou um exemplo de força mental para as gerações futuras.

Ivan Lendl

Ivan Lendl


Graças a Lendl, houve uma revolução na preparação física no tênis. Além disso, ele foi um dos pioneiros do forehand inside-out

Com o topspin e o tênis-força já consolidados, logo surgiu, na década de 1980, um tenista que revolucionaria a forma como era feita a preparação física no tênis. Ivan Lendl se dedicou à parte física como nunca ninguém antes havia feito, aliando exercícios de força, resistência, agilidade etc, realizados em academias de ginástica, aos treinamentos em quadra. Foi a partir daí que os tenistas passaram a ser realmente considerados atletas.

O tcheco foi o jogador mais bem preparado de sua geração e, com isso, dominou o circuito como nenhum outro tenista havia conseguido, ficando 270 semanas como líder do ranking (recorde que só seria batido anos mais tarde por Pete Sampras e depois por Roger Federer). Devido à sua rapidez, Lendl também foi um dos precursores no uso do forehand inside-out (quando o tenista foge da esquerda e bate com a direita mandando a bola de dentro para fora), recurso que se tornaria uma das principais armas da escola espanhola nos anos 1990 e até hoje.

Com um jogo de grande consistência, uma mente inabalável e um preparo físico nunca antes visto, Lendl chegou a ser apelidado de robô por seus adversários e criou um padrão copiado até hoje, especialmente na parte física.

André Agassi

André Agassi


Em uma época que estava fadada a ser dominada por grandes sacadores, Agassi mostrou a importância das devoluções de saque

Mesmo tendo ficado à sombra de Pete Sampras durante boa parte de sua conturbada carreira, a influência de André Agassi para o tênis não pode ser subestimada, tampouco descartada. Ainda que não tenha alcançado as mesmas façanhas que seu principal rival, seu estilo de jogo acabou se tornando uma referência mais presente do que o clássico saque-e-voleio usado por Sampras.

Diante de uma geração de grandes sacadores, que se sobressaíam em pisos cada vez mais velozes, Agassi trouxe esperança aos que pretendiam jogar no fundo de quadra mesmo em superfícies rápidas. Jogando com raquetes de cabeça maior do que o convencional (ditas oversize), ele fundamentou seu jogo nas devoluções de saque e nas potentes batidas de fundo, de preferência pegando a bola na subida e com constantes trocas de direção para castigar seus adversários. Foi com essa técnica que o norte-americano assombrou o mundo ao vencer o torneio de Wimbledon em 1992 enfrentando alguns dos maiores sacadores da história recente do tênis.

Gustavo Kuerten

Agassi ainda teve uma participação enorme na popularização do tênis na década de 1990, ditando tendências de moda com seus cabelos compridos, camisetas com combinações de cores extravagantes etc.

Gustavo Kuerten

Longas trocas de bola com topspin alto e muito preparo físico para manter a regularidade e desgastar o adversário. Guga reverteu essa tendência tornando o jogo no saibro muito mais agressivo

Muito além de uma grande referência no tênis brasileiro, Gustavo Kuerten teve uma gigantesca influência na renovação do jogo de saibro. Desde o final dos anos 1980 até o final dos anos 1990, o estilo que predominava nas quadras de terra batida de todo o mundo era o das intermináveis (cansativas e monótonas) trocas de bola com topspin alto e pesado até levar algum dos tenistas ao erro. A inesperada conquista de Guga em Roland Garros 1997, contudo, pavimentou a mudança que se solidificou hoje.

Diante de adversários que fundamentavam seus jogos no preparo físico e na regularidade de fundo, o brasileiro ousou acelerar bolas, arriscar paralelas de backhand, tentar curtinhas etc. De repente, aquele padrão extremamente defensivo do jogo de saibro deu lugar a um estilo muito mais agressivo, exuberante e alegre.

Mesmo jogando do fundo de quadra, Guga mostrou que era capaz de encurralar os oponentes, tirá-los do sério com seus imprevisíveis ataques com o backhand na paralela ou então com deixadinhas depois de tê-los jogado metros longe da linha de base.


Perfil/Entrevista Walter Clopton Wingfield Wimbledon Bill Tilden René Lacoste Don Budge Viv McGrath Rod Laver Jimmy Connors Gustavo Kuerten

Artigo publicado nesta revista

Revista TÊNIS 134 · Novembro/2014 · Revolucionários

Os 10 jogadores que mudaram o tênis. As mais importantes inovações técnicas e táticas

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