Ver, ouvir e sentir

Formas de aprimorar três dos cinco sentidos para melhorar o seu foco e o seu tênis

Por W. Timothy Gallwey em 27 de Abril de 2017 às 12:21

Ninguém consegue explorar o máximo potencial de seu tênis – ou de qualquer outra habilidade – se não aprender a concentração relaxada; e o mais interessante é que o jogo de tênis é um excelente meio para desenvolver o foco da mente. Ao aprender a se concentrar enquanto joga, o tenista desenvolve uma habilidade que pode melhorar seu desempenho em todos os outros aspectos da vida.

Para dominar essa arte, é preciso praticar. E é possível praticar em toda e qualquer situação, com exceção de quando se está dormindo. No tênis, o objeto mais conveniente e prático para concentrar o foco é a bola. Provavelmente, a frase mais repetida no tênis é: “olhe a bola”. Mesmo assim, poucos jogadores olham bem para ela. Na verdade, a frase quer dizer simplesmente que o tenista deve prestar atenção.

Ele não precisa pensar na bola, na dificuldade do golpe, no movimento da raquete, ou no que seus amigos vão pensar se ele errar. A mente focada captura somente os aspectos necessários para executar atarefa em questão. Ela não se distrai com outros pensamentos ou com eventos externos; ela só dá atenção ao que é relevante aqui e agora.

Olhe a bola

Olhar a bola significa focar sua atenção em sua imagem. Descobri que a maneira mais eficaz de aprofundar a concentração pela imagem é se concentrar em algo sutil, pouco perceptível. É fácil olhar a bola, mas não é comum observar o padrão de movimento de seu giro a partir de sua costura. A prática de observar a costura da bola produz resultados interessantes. Depois de pouco tempo o jogador descobre que está vendo a bola mais claramente do que antes.

Ao observar o padrão de movimento da costura, ele naturalmente segue a bola por todo o seu percurso, concentrando sua atenção mais cedo, desde que ela sai da raquete do adversário, até chegar à sua – algumas vezes a bola parece até ficar maior, ou se mover mais lentamente. São resultados naturais do foco. Mas ver a bola mais claramente é apenas um dos benefícios de focar a mente em sua costura. O padrão de movimento da bola é muito sutil, e isso acaba ocupando mais a mente.

Ela fica tão envolvida na observação que esquece de realizar um esforço excessivo. Sua preocupação é a costura da bola, logo, ela não interfere nos movimentos naturais do corpo. Além disso, a costura está sempre lá, no presente, e se a mente do jogador está focada nela, não se preocupa com o passado ou com o futuro. A prática desse exercício possibilita que o tenista atinja níveis cada vez mais profundos de concentração.

Ouça a bola

É raro encontrar um tenista que ouve a bola, mas essa atividade pode ser um método valioso de concentração. O impacto da bola com a raquete emite um som peculiar, que varia consideravelmente de acordo com a região da raquete em que a batida ocorre, o ângulo da face e a posição do corpo do tenista no momento do golpe.

Se você prestar atenção aos sons, vai logo perceber que eles vêm de diferentes tipos e qualidades de rebatidas. E em pouco tempo você será capaz de distinguir o som produzido por uma bola com efeito, que foi rebatida no centro da raquete, de uma outra bola que teve menos efeito e não encontrou a região central da raquete.

Ou vai reconhecer o som de um golpe chapado de esquerda, e diferenciá-lo de um golpe com slice. Certo dia eu estava praticando esse método de concentração enquanto sacava e percebi que meu serviço estava ótimo. Eu ouvia um estalo agudo em vez do som normal do impacto. Era um som peculiar, e o saque tinha mais velocidade e precisão. 

Memorizei aquele som, e meu corpo conseguiu reproduzi-lo por diversas vezes. Essa experiência me ensinou que a lembrança de certos sons pode ser muito eficaz no processo de acesso à imensa base de dados que temos em nosso cérebro. Quando um jogador ouve o som do seu forehand, ele o armazena memória e o relaciona com um golpe específico; quando necessário, o corpo procura repetir os elementos do movimento que produziram aquele som. Essa técnica pode ser particularmente útil para aprender diferentes tipos de saque.

Os sons de um saque chapado, com slice ou com efeito, são muito diferentes uns dos outros. Da mesma forma, pode-se estabelecer um padrão de segundo serviço tomando como base os sons da bola no momento do impacto. Outro exemplo similar é o voleio. O som da bola pode ajudar o trabalho de pernas e de raquete durante a execução desse tipo de golpe. Um voleio tem um som inesquecível quando é rebatido na hora certa e na posição perfeita.

Alguns jogadores preferem se concentrar nos sons produzidos pela bola a se concentrar em sua costura, porque para eles a técnica é mais inovadora. Na verdade, é possível utilizar os dois métodos simultaneamente, já que os sons só acontecem no momento do contato. No meu caso, costumo utilizar a técnica do som da bola durante o treino. Isso faz com que a sensibilidade ao som aumente gradualmente, e quando chega a hora de uma partida, tem-se mais facilidade para executar golpes sólidos com base no som da bola. Os resultados são comprovadamente positivos.

Sentindo a raquete

Lembro-me de que quando tinha 12 anos, meu professor fez um comentário sobre meu parceiro de jogos de duplas: “Ele sabe onde está a cabeça de sua raquete”. Não entendi o que aquilo significava, mas minha intuição dizia que era importante, e por isso jamais esqueci aquela frase. Poucos tenistas entendem que é importante sentir a raquete durante todo o movimento. Há duas coisas que um tenista precisa saber para executar um golpe: onde está a bola e onde está sua raquete.

Sem essas informações, é difícil jogar. A maioria dos jogadores sabe que tem de ter contato visual com a bola, mas poucos têm a noção exata da posição da cabeça da raquete durante um ponto. Um dos momentos mais difíceis para saber a posição exata da raquete é quando ela está atrás do jogador. Nesse momento, ele precisa se concentrar por meio do sentimento. Durante um golpe, sua mão fica a cerca de 30 centímetros do centro da raquete.

Isso significa que mesmo uma pequena mudança na angulação de seu pulso pode produzir uma grande diferença na posição da cabeça da raquete, que, por sua vez, tem efeito significativo na trajetória da bola. Na verdade, uma mudança de poucos centímetros na posição da cabeça da raquete pode resultar em metros de diferença no local em que a bola vai quicar. Por esse motivo, é muito importante ter um sentimento apurado para que seu jogo seja consistente e preciso.

Todo tenista pode se beneficiar de um “treinamento de sensibilidade”. A maneira mais fácil de treinar as sensações é focar a atenção em seu corpo enquanto joga. O ideal é que alguém bata algumas bolas para você, para que elas quiquem aproximadamente no mesmo local repetidas vezes. Então, dê pouca atenção à bola, e preste atenção no que você está sentindo ao rebatê-la. Dedique atenção especial ao sentimento, no momento em que sua raquete está atrás de seu corpo.

Perceba o que seu braço e sua mão estão sentindo no momento que antecede o início do movimento para a frente, em direção à bola. Procure também sentir a sua empunhadura. Com que intensidade você está segurando a raquete? Há muitas formas de melhorar o sentimento de sua consciência muscular. Uma delas é praticar seus golpes em câmera lenta. Execute a rebatida como se fosse um exercício, sentindo as partes de seu corpo que se movem durante a ação.

Procure sentir cada evolução de movimento, cada músculo requisitado. Quando você aumentar a velocidade para rebater as bolas novamente, vai perceber uma melhor consciência de sua musculatura. Quando executo um backhand, por exemplo, tenho plena consciência de que meu músculo do ombro (e não o do antebraço) está movimentando meu braço. Ao me lembrar do músculo antes de executar o golpe, consigo obter mais potência. Por outro lado, quando executo um forehand, presto atenção em meu tríceps quando a raquete está abaixo do nível da bola.

Sentir esse músculo diminui minha tendência de levantar a raquete quando a levo para trás. É também importante ter plena consciência de seu ritmo. É possível aprimorar o tempo de bola e ganhar potência nos golpes prestando atenção no ritmo de cada uma de suas ações durante uma sessão de treino. Todo jogador tem um ritmo natural. Se você conseguir se concentrar e sentir esse ritmo, vai perceber que as ações acontecerão de maneira natural e serão muito eficazes. Não adianta estabelecer um ritmo à força; é preciso deixar acontecer.

Mas a sensibilidade ao ritmo, desenvolvida pela concentração, pode ajudar. Quando um jogador consegue se concentrar e sentir a trajetória de sua raquete por meio dessas sensações, seus golpes começam a ficar mais simples e naturais. Movimentos bruscos e espalhafatosos tendem a desaparecer e dar lugar a consistência e potência. Assim como o som da bola pode auxiliar o seu jogo, é muito útil focar na sensação do momento do impacto da bola com a raquete. É possível notar diferença na vibração que chega à sua mão quando a bola encontra a raquete.

Ela depende do ponto em que o contato aconteceu, de como seu peso está distribuído no momento do impacto e do ângulo da face da raquete. E nessa situação também é possível prever o melhor resultado por meio do que você sente em sua mão, pulso e braço, depois de executar um golpe bom e sólido. Praticar esse tipo de sensação desenvolve o que chamamos de “toque”, muito importante na execução de dropshots e lobs.

Trocando em miúdos, procure ter consciência de seu corpo. Saiba o que você sente ao posicionar seu corpo, ou quando movimenta sua raquete. Lembre-se: é quase impossível sentir ou ver algo enquanto estamos pensando se um determinado movimento está correto ou não. Esqueça o que deve ser feito. No tênis, há apenas um ou dois elementos que têm importância visual, mas há muito o que sentir. O aumento do conhecimento sensorial de seu corpo vai acelerar o processo de desenvolvimento de suas habilidades.

Descrevi algumas formas de aprimorar três dos cinco sentidos e de expandir a consciência que esses sentidos nos dão. Pratique esses métodos, sem tentar encontrar a maneira “correta” de executá-los; apenas pratique-os individualmente e no seu ritmo. Até onde eu sei, o paladar e o olfato não são cruciais para uma boa técnica de tênis. Guarde o treino desses sentidos para a refeição feita depois do jogo.

Trechos retirados do livro “O Jogo Interior do Tênis”, de W. Timothy Gallwey, publicado pela editora SportBook. Para adquirir, acesse:  http://edipro.com.br

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