O pulso ainda pulsa

A impressionante volta de Juan Martin del Potro ao circuito depois de três cirurgias no punho

Por Arnaldo Grizzo em 18 de Maio de 2017 às 17:32

São quase 2 metros de altura (daí o apelido de Torre de Tandil, nome da cidade onde nasceu) capazes de disparar um forehand demolidor, arma contra a qual poucos tenistas conseguem reagir. Foi a potência nos golpes, principalmente na direita, que fez com que Juan Martin del Potro conseguisse conquistar seu único título de Grand Slam, o US Open de 2009.

Naquele ano, naquela final, ele fez o que pouquíssimos tenistas até hoje realizaram: encurralou Roger Federer disparando mísseis do fundo da quadra impiedosamente. Ali foi sua consagração. Depois de Federer, Rafael Nadal, Novak Djokovic e Andy Murray (que só venceria um Major três anos depois), Delpo estava fadado a ser uma das principais forças do tênis daí em diante.

A história, porém, não seguiu o rumo que todos imaginavam. Logo em janeiro do ano seguinte, a Torre passou sentir dores na munheca. Em maio, decidiu operar o pulso direito para resolver o problema. Foram nove meses longe das quadras e, na volta, houve certa demora para retomar a boa forma, que só veio, realmente, em 2012, quando ganhou o bronze nas Olimpíadas de Londres.

Problema no pulso ou na cabeça?

Apesar de uma infeção ter lhe tirado a chance de disputar a temporada de saibro de 2013, ainda assim conseguiu grandes resultados e voltou ao top 5 do ranking. Durante a temporada e no ano seguinte, desistiu de participar da Copa Davis alegando problemas com a federação argentina, com os outros membros do time, incluindo o capitão, Martin Jaite, e também com a imprensa de seu país. Isso, obviamente, não caiu nada bem com a opinião pública.

Em 2014, o pulso voltou a incomodar. Desta vez, o esquerdo. Foi necessária uma nova cirurgia. Mais um ano fora das quadras. Aí, muitos já questionavam não somente o físico do argentino, mas sua cabeça. Em sua volta, no começo de 2015, depois de apenas dois torneios, constatou-se a necessidade de mais uma cirurgia. Aos 27 anos, Del Potro ainda teria motivação para retornar ao circuito?

Os rumores sobre uma possível aposentadoria precoce foram muitos, especialmente devido ao fato de o argentino não ter definido uma data para sua volta. Sua lesão chegou a ser questionada. Para alguns, seu grande problema não estava no punho, mas na cabeça. Delpo teria perdido a motivação. “Por pouco não deixei o tênis”, revelou. O tempo passou e provou que os que duvidavam dele estavam errados.

Um novo tenista

Sua volta, no ATP de Delray Beach, foi uma das mais aguardadas e emocionantes do circuito nos últimos anos. O argentino não venceu o torneio, tampouco tinha essa preocupação. Sua vitória, segundo ele, era estar de volta sem sentir dor. Por isso, estava dando um passo de cada vez, comemorando cada etapa vencida. Os meses se seguiram sem nenhuma grande campanha.

Delpo parecia ter se tornado um jogador previsível, errático, longe daquele tenista que antes amedrontava os tops. Mas a história deu uma nova reviravolta durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro. O cruel sorteio da chave colocou Del Potro diante de Djokovic na primeira rodada. De um lado, o invencível número 1 do mundo que, com seu espírito patriótico ferrenho, aguardava a competição com ansiedade e tinha o ouro como indiscutível meta.

Do outro, um tenista que voltava de lesão e chegou a ser criticado por falta de combatividade tempos atrás. No que foi provavelmente a melhor partida da temporada, a Torre, revivendo seus melhores momentos, anulou e asfixiou Djoko, vencendo em dois tiebreaks fenomenais.

A vitória parece ter feito reviver algo que estava adormecido dentro de Delpo, mais do que isso, o que se viu foi um jogador cada vez mais intenso e vibrante, conquistando fãs não somente com seu jogo, mas com seu carisma. No caminho até a final no Rio, venceu Nadal na semi, em outra partida fantástica e, na decisão, entregou-se por completo, mas faltaram pernas para superar Murray. A prata, contudo, vestiu-lhe como ouro.

Herói argentino

O grande momento, no entanto, ainda estava por vir. Uma nova grande campanha no US Open fez com que o público estivesse cada vez mais em sintonia com Delpo. No ATP de Estocolmo, em outubro, ele voltou a vencer um torneio depois de dois anos. No fim de novembro, na Croácia, a Argentina chegou à sua quinta final da Copa Davis e Delpo foi escalado.

Foi a terceira final de Davis de Delpo, que participou em 2008, quando o argentinos, liderados por David Nalbandian, perderam em casa para a Espanha que estava desfalcada de Rafael Nadal. Del Potro, na época com apenas 20 anos, foi extremamente criticado depois de perder a partida para Feliciano Lopez, de virada, e sequer disputar o jogo seguinte.

Em 2011, os argentinos voltaram a enfrentar a Espanha em uma final, mas, dessa vez em Sevilha. Porém, Del Potro novamente deixou a desejar. Pouco depois disso seus entreveros com a federação argentina e as lesões fizeram com que ele se afastasse da equipe. A Torre só voltou em 2015, quando Daniel Orsanic assumiu como capitão. Em 2016, Delpo não jogou, mas todos se lembram de como ele torceu pelos seus colegas no confronto contra o Brasil, vencido de virada, no quinto jogo.

Del Potro foi introduzido aos poucos na equipe. Primeiro, jogou duplas na vitória contra a Itália, nas quartas. Na semifinal, derrotou Murray no primeiro jogo e viu seus compatriotas garantirem a vitória na quinta partida. Contra a Croácia, porém, Del Potro assumiu a responsabilidade. Venceu Ivo Karlovic na sextafeira, jogou duplas no sábado, mas perdeu, e, no domingo, quando todos imaginavam que, após Marin Cilic ter aberto 2 sets a 0, a taça seria dos croatas, Delpo protagonizou uma virada emocionante.

Levou a decisão para a quinta partida e viu Federico Delbonis selar a conquista mais aguardada pelo tênis argentino nos últimos anos. Algo que, nem mesmo nos áureos tempos de Guillermo Vilas e José Luís Clerc, o país conseguiu. “A maior vitória da minha vida”, afirmou Del Potro. Sua volta triunfal deve tornar a temporada 2017 ainda mais interessante.

Resultados finais Argentina X Croácia – Copa Davis 2016

Marin Cilic (CRO) v. Federico Delbonis (ARG) 6/3, 7/5, 3/6, 1/6 e 6/2

Juan Martin Del Potro (ARG) v. Ivo Karlovic (CRO) 6/4, 7/6(6), 6/3 e 7/5

Marin Cilic e Ivan Dodig (CRO) v. Juan Martin Del Potro e Leonardo Mayer (ARG) 7/6(2), 7/6(4) e 6/3

Juan Martin Del Potro (ARG) v. Marin Cilic (CRO) 6/7(4), 2/6, 7/5, 6/4 e 6/3

Federico Delbonis (ARG) v. Ivo Karlovic (CRO) 6/3, 6/4 e 6/2

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