Coração. Ele também deve ser treinado

No tênis, não exigimos só os músculos das pernas e braços. também é precisopreparar o coração para a prática esportiva e, assim, evitar riscos desnecessáriose melhorar sua performance em quadra

Maria Luisa Afonso De André em 1 de Abril de 2008 às 14:36

NOS ARTIGOS ANTERIORES FALEI sobre o funcionamento do aparelho locomotor, as sobrecargas sofridas por ele no tênis e como contrabalançá-las. Hoje vou tratar de um aspecto orgânico de fundamental importância para a prática segura do esporte: a preparação e proteção do coração.

O tênis exige muito da função cardíaca, pela natureza dos deslocamentos em quadra: piques rápidos e curtos, intermitentes, com pausas menores ou maiores entre eles. O coração tem oscilações repentinas e fortes de solicitação. Deve passar imediatamente de uma cadência tranqüila para "a todo vapor", em constante alternância, como em uma montanha-russa. Dá para imaginar que ele então precise ser bem sólido e preparado para dar conta do recado, já que não tem tempo de se adaptar calmamente, como acontece em esforços progressivos. Nesse processo, há também maior demanda de nutrientes para a atividade muscular, ao mesmo tempo que substâncias tóxicas são geradas pelo metabolismo energético e precisam ser eliminadas. O coração deve bombear mais sangue para o desenrolar dos processos fisiológicos em andamento e os pulmões devem aumentar sua atividade para levar mais oxigênio ao sangue e expulsar os gases resultantes dos processos químicos geradores de energia.

É obvio que, para condicionar-se, deve-se utilizar o mesmo tipo de esforço exigido pelo esporte. Para o tenista amador, ele será feito em geral no próprio ato de jogar. Só os tenistas competitivos farão esse tipo de treino também fora da quadra. Mas, tanto para um quanto para outro, é preciso preparar o coração para poder receber bem essa solicitação mais agressiva, característica do tênis. Sem isso, ele ficará vulnerável e desprotegido, correndo o risco de sofrer as conseqüências. Esse condicionamento, chamado aeróbio, deverá ser feito forçosamente fora da quadra e podemos dizer que é o alicerce de um coração saudável e capacitado a esforços intensos. Ele fará com que o coração e as artérias, que levam sangue oxigenado a todas as partes do corpo, desenvolva seu aparato e otimize seu funcionamento. Ao mesmo tempo, permitirá ao organismo aperfeiçoar seu mecanismo de transporte de oxigênio pelo sangue e sua absorção pelos tecidos - o oxigênio é uma substância fundamental no metabolismo energético.

O coração possui quatro câmaras ou cavidades, sendo que uma delas, o ventrículo esquerdo, é responsável pelo bombeamento de sangue arterial para alimentar todo o corpo. O condicionamento aeróbio resultará num ventrículo esquerdo capaz de abarcar mais sangue, numa rede de artérias ampliada e no aumento da luz dos vasos. Isso significa que, em cada bombeamento, maior volume de sangue será ejetado de uma vez, o que aumentará a oferta de nutrientes em um dado espaço de tempo, gerando economia de batimentos cardíacos por minuto. Com a rede arterial mais ampla, melhor será a irrigação sanguínea de músculos e demais tecidos. Com melhoria do transporte de oxigênio pelo sangue e melhor capacidade do organismo em aproveitá-lo, menor o esforço do coração para suprir o organismo, economizando-se também aí batimentos cardíacos.

Profissionais e amadores devem condicionar o coração

O QUE É ESFORÇO AERÓBIO?
É aquele em que existe um equilíbrio entre a quantidade de oxigênio utilizada pelos músculos durante o esforço e o aporte dessa substância ao organismo. O organismo não entra em débito. Consegue- se um condicionamento nessa modalidade realizando exercício físico contínuo, de baixa intensidade, sem paradas, durante um tempo razoavelmente longo. Os exemplos mais corriqueiros são a caminhada e a corrida tipo trote. Como determinar a intensidade do esforço para o trabalho em equilíbrio de oxigênio e como treinar?

Em primeiro lugar, certifique-se de que está apto a fazer atividade física, com o aval de seu médico. Recomendo, no que nos concerne aqui, no mínimo um eletrocardiograma e um teste ergométrico. Melhor ainda será realizar um teste ergoespirométrico, que dará um perfil muito acurado de seu estado cardiovascular e do aproveitamento de oxigênio por seus tecidos. A partir desse teste, será determinada a faixa de freqüência cardíaca (fc) de treino mais indicada para o seu desenvolvimento particular. Para cada pessoa ela é diferente. Minha indicação é que se treine numa faixa de fc de 20 batimentos, sendo que a fc maior seja a de seu limiar aeróbio1 (isso constará no teste). Por exemplo: se seu limiar aeróbio1 é 120 batimentos por minuto (bpm), recomendo treinar na faixa entre 100 a 120 bpm, procurando estar no meio termo ou próximo ao limiar, sem permanecer sobre ele nem ultrapassá-lo. Para você ter uma idéia subjetiva do que isto significa: sua respiração acelerará, mas não a ponto de ficar ofegante. Você deverá ser capaz de falar uma frase curta enquanto se exercita, sem que isso aconteça.

Recomendo que comece a prática com 20 a 30 minutos de duração (dependendo de seu estado), aumentando gradativamente ao longo de dois meses até 40 minutos de trabalho contínuo. O tipo de esforço variará da caminhada até o trote. Muitas vezes, no início, começa-se caminhando, só posteriormente e progressivamente passa-se à corrida. Porém isso deve ser avaliado caso a caso. Deve-se fazer esse tipo de trabalho três vezes por semana, em dias alternados, para que a transformação orgânica ocorra. Após poucos meses, você constatará que seu estado geral será muito melhor, que você cansará menos na quadra e que seu desempenho será bem melhor. Seu coração, e não seu adversário, vai agradecer!

Maria Luisa Afonso de André, formada em Educação Física e pós-graduada em fisiologia do exercício pela USP, é especialista em Ginástica Holística e RPG. incorpore@marialuisa.com.br www.marialuisa.com.br

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