Ele é o cara!

Roger Federer venceu seu 14o Grand Slam no mais improvável cenário, Roland Garros, e, definitivamente, reescreveu a história do esporte

Da redação em 23 de Junho de 2009 às 14:33

Na década de 1960, a Austrália era provavelmente a grande potência do tênis mundial. Seu time na Copa Davis, campeão de 1959 a 1968, teve nomes como Neale Fraser (tido como uma dos maiores sacadores de todos os tempos), Rod Laver (que ganhou o Grand Slam duas vezes, em 62 e 69), John Newcombe (o segundo a liderar o ranking da ATP depois de sua criação em 1973), Fred Stolle (mais um gigante sacador australiano), Tony Roche (aquele mesmo que treinou Federer durante um tempo) e Roy Emerson.

"Emmo", como era conhecido, teve longa carreira no tênis, e chegou a competir já com mais de 40 anos, em meados da década de 1970 - seguindo os passos de outro compatriota fenomenal, Ken Rosewall. Seu auge, porém, foram os anos 60, quando venceu 28 Grand Slams (12 em simples) e oito Davis. Em 1967, aos 31 anos, Emerson (cuja lenda diz que sua habilidade para o tênis veio de tanto ordenhar as vacas da fazenda de seu pai em Queensland) ganhou seus dois últimos Majors em simples. Ele suplantou, assim, o recorde do lendário Bill Tilden, que - entre 1920 e 1930 - tinha vencido 10. Na época, ainda antes da Era Aberta, ninguém deu muita bola para o feito.

Trinta e três anos depois, contudo, um norte-americano, aos 28 anos, ousou reescrever os livros de história ao vencer Wimbledon pela sétima vez e alcançar a marca de 13 Grand Slams na carreira. Antes dele, apenas gênios como Rod Laver (que ficou impedido de jogar os Majors durante sete anos por ter se tornado profissional) e Bjorn Borg (que deixou o esporte cedo, ainda aos 26 anos) chegaram perto de tal marca, com 11 títulos nos quatro torneios mais importantes do mundo. Em 2002, já aos 31 anos, desacreditado, Sampras foi além e venceu o US Open para finalizar a carreira com 14 Majors.

Lá veio Roger

No ano seguinte, Sampras se aposentou. No palco de seu último título (a quadra central de Flushing Meadows), o norte-americano dava adeus ao tênis e seguramente estava garantido como um dos maiores de todos os tempos. No entanto, nem ele (nem ninguém), podia imaginar que um jovem suíço de 22 anos - que naquele ano havia vencido seu primeiro Grand Slam, em Wimbledon - poderia igualar ou suplantar seu recorde em apenas sete anos.

Tanto que, no US Open de 2003, quando o norte-americano oficializou sua aposentadoria, Roger Federer sequer passou das oitavas, perdendo para David Nalbandian. Mas, em janeiro do ano seguinte, um novo reinado começaria no tênis. Durante os quatro anos seguintes, o mundo se rendeu ao talento do suíço. Em 16 Grand Slams, ele esteve na final de 13, vencendo 11. Quando 2008 começou, o recorde de Sampras estava por um fio.


O fator saibro e o fator Nadal

Tamanho foi o domínio de Federer que todos começaram a questionar se o que estavam vendo era ou não o maior tenista de todos os tempos. Perto de Laver, Borg e Sampras, o suíço certamente já estava, mas, ele os superava? Para muitos, o que faltava ao gênio da Basileia era um Major no saibro.

A tarefa não parecia das mais complicadas para tamanho talento, mas, em 2004, ele parou na terceira rodada do Aberto da França, quando perdeu para Gustavo Kuerten, por triplo 6/4, numa aula de como se jogar no saibro. Foi a última boa campanha de Guga em Roland Garros e, como os especialistas diriam nos anos seguintes, a última boa oportunidade de Federer vencer o Grand Slam.

Em 2005, o suíço era novamente favorito no saibro francês, mas não contava com o surgimento de um garoto espanhol que não respeitava sua "aura de tenista imbatível" e que o derrotaria nas semifinais. Nos anos seguintes, Rafael Nadal se instituiu como o grande calcanhar de Aquiles de Federer, que perderia as finais de Roland Garros dos anos seguintes para o "Touro" canhoto.

De volta ao começo de 2008, apesar de o Aberto francês estar se tornando um sonho cada vez mais distante para o suíço, a marca de 14 Grand Slams de Sampras estava mais e mais próxima de cair. Se Federer mantivesse o ritmo (no mínimo dois Majors ao ano), ele igualaria ou passaria o norte-americano na temporada.

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Fim antes da glória?

No Australian Open 2008, o sérvio Novak Djokovic frustrou as pretensões de Roger de ganhar seu 13o Grand Slam, mas, até então, tudo estava normal. Algumas derrotas inesperadas em torneios menores e uma "lavada" na final de Roland Garros contra Nadal, contudo, começaram a preocupar. Mas, a grama sagrada de Wimbledon estava lá para redimi-lo.

Ledo engano. O torneio inglês, que era para ser seu refúgio, foi seu calvário. O espanhol impediu sua conquista em partida épica. O golpe foi duro. Restava somente o US Open para "salvar a temporada". Desacreditado, tirado da liderança do ranking depois de tanto tempo, Roger, ainda assim, aproveitou suas chances e, ao menos, saiu com um grande título no seu pior ano desde 2004.

A temporada 2009 iniciou, Nadal novamente levou a melhor sobre o suíço ao vencer a final do Australian Open (uma derrota muito dolorida) e o tema central das discussões sobre tênis não era mais se Federer suplantaria o recorde de Sampras e seria considerado o melhor da história, mas se o espanhol poderia igualar Laver e fazer o Grand Slam (vencer os quatro Majors) em uma só temporada.

Um deus nunca morre

No desenrolar da temporada, Federer anunciou que teria um filho e aproveitou para se casar com Miroslava Vavrinek, sua namorada de longa data. Seria um sintoma de perda de foco, de que o suíço estaria deixando de lado a busca pelos recordes e preferindo a vida fora do tênis? Roland Garros 2009, como nos últimos anos, tinha um único favorito: Nadal. Porém, quis o destino que o espanhol esbarrasse em um sueco de golpes potentes nas oitavas. Robin Soderling fez algo que todos diziam impossível e tirou Nadal da competição. Era a chance de Federer. E ele aproveitou. Sentindo a pressão de encarar mais do que os adversários rodada a rodada, mas enfrentando a história, ele completou o 14o Grand Slam, com vitórias em todos os quatro grandes torneios. Era o que muitos - incluindo outras lendas do esporte que também almejavam esta distinção - esperavam para, enfim, chamá-lo de o melhor de todos os tempos. Alguns dirão que ele só venceu Roland Garros pois seus principais adversários caíram antes de enfrentá-lo. Outros dirão que é impossível comparar épocas. A todos esses, os livros de história, repletos de números frios - tão frios quanto os Alpes suíços no inverno - responderão: Roger Federer conquistou 14 Grand Slam aos 27 anos, sendo que suas conquistas (assim como as de Roy Emerson) se deram em apenas sete anos - Sampras completou o feito em 13 temporadas.

Reconhecido pelos grandes

"Agora que ele (Roger Federer) venceu em Paris, acho que isso apenas reafirma seu lugar na história como o maior tenista que já existiu, na minha opinião". A frase é de ninguém menos que Pete Sampras, o norte-americano que, durante toda a carreira, lutou para quebrar todos os recordes possíveis e ser o maior de todos os tempos. "O que ele fez nos últimos cinco anos nunca foi feito e, provavelmente, nunca será feito novamente", completou Pete.

Andre Agassi - o último a ter conquistado os quatro Grand Slams na carreira (e o único a conseguir em todos os pisos até a conquista de Federer em Roland Garros 2009) - sempre reconheceu a grandeza do suíço e, um dia antes da final do Aberto da França, afirmou: "Amanhã teremos a chance de ver a história sendo escrita e acredito que Roger merece isso mais do que nunca". E após entregar o troféu para o suíço, o norte-americano disse: "Qual o critério para julgar o melhor de todos os tempos? É duro discordar dos números de Roger. É duro discordar de seu domínio nas diferentes superfícies".

Billie Jean King, uma das maiores tenistas de todos os tempos, também não titubeou na hora de nomear Roger como o maior de todos: "Sua vitória no Aberto da França, empatando com o recorde de Pete Sampras em Majors e completando o Grand Slam na carreira, coloca-o certamente num lugar especial como o melhor de todos os tempos. Ele mereceu e provou que este lugar o pertence. Roger é um campeão para todas as eras".

Ele se acha o melhor?

Após conquistar o título que faltava em sua carreira, Federer, certamente, entende a grandeza do feito obtido. "Os recordes significam muito para mim, especialmente quando percebi que estava perto dos maiores de todos os tempos. Claro que gosto de quebrar recordes - pois me espelho em pessoas como Sampras, Connors, McEnroe. É muito bom estar ao lado desses jogadores", afirmou o suíço.

Você é o melhor de todos os tempos? "Sempre achei legal fazer parte dos melhores. Sinto-me privilegiado e honrado com o que conquistei no esporte. É por isso que tenho que mencioná-los (Laver e Sampras). Não sei se algum dia saberemos quem é o maior de todos os tempos, mas, definitivamente, estou contente de ser um dos maiores, isso é certo", disse Federer na coletiva após a vitória que, se não o levou ao topo do Olimpo do tênis, certamente deixou-o em uma posição privilegiada em relação aos deuses do esporte.

Robin Soderling

Aguardando um novo Borg

A Suécia já foi considerada o país do tênis. Com Bjorn Borg, Stefan Edberg e Mats Wilander (e outros menos famosos como Anders Jarryd, Joakim Nystrom, Henrik Sundstrom, Mikael Pernfors), os suecos dominaram o tênis na década de 1980. Depois disso, contudo, a renovação foi lenta e, ultimamente, poucos representantes do país nórdico tiveram destaque. Thomas Johansson - que anunciou sua aposentadoria recentemente - e Magnus Norman talvez tenham sido os últimos a levar o nome da Suécia adiante no começo dos anos 2000. Desde então, raramente se vê alguém de lá despontar. A última esperança foi Joachim Johansson - exímio sacador, grande destaque no circuito juvenil em 2000 e que alcançou o top 10 em 2005. Diversas contusões, porém, limitaram a carreira do garoto. Dois anos mais novo e pouco centímetros mais baixo que Johansson, Robin Soderling também sempre se destacou pela potência do saque e dos golpes de fundo. No circuito desde 2001, nunca havia conseguido uma grande campanha, apesar de se manter no top 100, beliscando melhores posições às vezes.

O rapaz começou a trabalhar com Magnus Norman (que perdeu para Guga a final de Roland Garros 2000 após salvar 11 macth-points) poucos meses antes do Grand Slam em Paris. Ao contrário de seu treinador naquele fatídico ano, nem o mais otimista dos suecos poderia prever que Soderling pudesse estar na final de Roland Garros, ainda mais depois do sorteio da chave, que colocava em seu caminho David Ferrer na terceira rodada e Nadal nas oitavas.

E na maior zebra do torneio francês em anos (talvez desde a derrota de Federer para Guga em 2004), o sueco - enfiando a mão em absolutamente todas as bolas (e vendo elas entrarem) - despachou o tetracampeão sem piedade. Em seguida, confiante, bateu Nikolay Davydenko e Fernando Gonzalez (que deve estar se lamentando até agora pelas chances perdidas no quinto set) para fazer final com Federer. E, como aconteceu com seu técnico há nove anos, Soderling sucumbiu.

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Homens que completaram o Grand Slam na carreira

Fred Perry - Em 1935, o inglês venceu Roland Garros e completou o ciclo que havia inciado em 1933 com a conquista do US Open. Encerrou a carreira com oito Majors: Aus Open (1934); RG (1935); Wimbledon (1934, 35 e 36); e US Open (1933, 34 e 36).
Don Budge - Primeiro a vencer os quatro torneios em um só ano (1938), o norte- americano terminou com seis títulos de Grand Slam ao todo na carreira: (Aus Open (1938); RG (1938); Wimbledon (1937 e 38); e US Open (1937 e 38).
Rod Laver - Segundo tenista a ganhar todos os Majors em uma só temporada. O primeiro a conseguir isso duas vezes (1962 e 69). O australiano fechou com 11 títulos ao todo: Aus Open (1960, 62 e 69); RG (1962 e 69); Wimbledon (1961, 62, 68 e 69); e US Open (1962 e 69).
Roy Emerson - Seu ciclo se completou em 1964, com a conquista de Wimbledon. O australiano venceu 12 Grand Slams na carreira: Aus Open (1961, 63, 64, 65, 66 e 67); RG (1963 e 67), Wimbledon (1964 e 65); e US Open (1961 e 64).
Andre Agassi - O título em Roland Garros 1999 fez com que ele se tornasse o primeiro a ganhar Majors em todas as superfícies (saibro - França - , cimento - Austrália e Estados Unidos - e grama - Inglaterra), já que antes o Australian Open e o US Open também eram disputados em grama. O norte-americano acumulou oito Grand Slams ao todo: Aus Open (1995, 2000, 2002 e 2003); RG (1999); Wimbledon (1992); e US Open (1994 e 99).
Roger Federer - Sete anos após seu primeiro Grand Slam (Wimbledon 2003), o suíço completou os quatro títulos. Mais tempo que ele para alcançar tal feito, só Agassi, com oito anos.

Novas e velhas musas

Roland Garros trouxe sensações diferentes para algumas musas do circuito. Há meses afastada devido a uma lesão no ombro, Maria Sharapova voltou e provou que, se reencontrar seu ritmo, deve ameaçar as líderes novamente. A russa foi bem e só perdeu nas quartas-de-final para a eslovaca Dominika Cibulkova, uma baixinha (apenas 1,61m) que também chama atenção pela beleza - além do bom tênis, obviamente. Aos 20 anos, a garota fez campanha incrível até encontrar Safina na semifinal. Já outra musa, Ana Ivanovic, provou que não atravessa mesmo grande fase. Campeã no ano anterior, quando conquistou os franceses com seu belo sorriso, a sérvia parou nas oitavas - diante da bielo-russa (uma das sensações da temporada 2009) Victoria Azarenka - e, assim, saiu do top 10.

As russas

Até quando Dinara Safina vai viver com o dilema de ser número um da WTA e não ter conquistado um Grand Slam? Nos meses que antecederam Roland Garros, ela, certamente, foi a que melhor tênis apresentou. Mesmo nas primeiras rodadas do Aberto da França, ela arrasou as adversárias.

Ao chegar à final contra a compatriota Svetlana Kuznetsova, ela tinha mais uma chance de por fim às dúvidas sobre merecer o topo do ranking. E, mais uma vez, ela sentiu a pressão. Diante da constância da oponente (que nunca foi número um, mas já venceu o US Open em 2004), Safina não soube como vencer os pontos e, como na temporada passada, ficou com aquele gosto amargo de ver a adversária levantar a taça (em 2008, ela perdeu a final para Ana Ivanovic).

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Um Grand Slam de surpresas

Geralmente, o Grand Slam que mais traz novidades costuma ser o Australian Open. No entanto, o torneio australiano desta temporada foi bastante previsível, com as finais de Nadal x Federer e Serena Williams x Safina. Sendo assim, as surpresas ficaram reservadas para o segundo Major de 2009.

A maior zebra (depois de Soderling vencer Nadal e ir à final), seguramente, foi a presença da australiana Samantha Stosur na semi contra Kuznetsova. Stosur, que nunca havia passado das oitavas em um Major antes, conseguiu uma bela vitória sobre Elena Dementieva na terceira rodada e acabou beneficiada pela derrota de diversas favoritas para avançar à penúltima rodada na França.

Outra grande surpresa foi a campanha da romena Sorana Cirstea. Aos 19 anos, a jovem foi competente para derrotar oponentes de porte de Alize Cornet, Caroline Wozniacki e Jelena Jankovic, mas acabou perdendo nas quartas para Stosur.

Estranha também foi a derrota precoce de Novak Djokovic, diante do alemão Philipp Kohlschreiber - que sequer seguiu adiante no torneio, perdendo para Tommy Robredo na rodada seguinte. O caminho até a semifinal então ficou aberto para o talentoso Juan Martin del Potro. O argentino por pouco não impediu Federer de chegar à final


Bruno Soares

Brasil

O Brasil tinha apenas um tenista garantido na chave principal, Thomaz Bellucci, mas oito no qualifying (Marcos Daniel, João Souza, Ricardo Mello, Thiago Alves, Caio Zampieri, Ricardo Hocevar, André Miele e Franco Ferreiro). No feminino, ninguém. Dois passaram o quali, os gaúchos Daniel e Ferreiro. Alves deu sorte e entrou de lucky loser. Bellucci, que no ano passado tinha passado o qualificatório e estreou em Grand Slams contra Nadal, sofreu com cãibras no inicio do terceiro set e desistiu do jogo contra Martin Vassallo Arguello. E, a "sorte" do paulista (ter a honra de estrear contra o número um do mundo), neste ano, ficou com Daniel. Confiante, o gaúcho chegou a dizer que poderia ir bem, desde que não caísse contra Nadal na primeira rodada. Dito e feito. Enfrentou o espanhol e não fez feio, quebrando três vezes o saque do adversário (que lhe superou em sete oportunidades).

Vania King e Marcelo Melo

Franco Ferreiro, em bom momento após a grande participação na Copa Davis contra a Colômbia, abriu 2 sets a 0 diante de Feliciano Lopez, mas faltou experiência e calma para fechar o jogo. Ele acabou levando a virada em uma partida de mais de 3h30. Alves, por sua vez, até tentou equilibrar o jogo contra o francês Jeremy Chardy, mas perdeu em três sets.

Nossas duplas foram melhor. André Sá e Marcelo Melo, apesar de derrotados na estreia, encontraram boas parceiras para avançar em duplas mistas. Melo e a norte-americana Vania King ficaram com o vice-campeonato. Sá e a japonesa Ai Sugiyama pararam nas quartas, assim como Bruno Soares e a russa Alisa Kleybanova. Soares também fez quartas com o parceiro Kevin Ullyett, do Zimbábue, mantendo- se, assim, no top 10 do ranking de duplas. No juvenil, Guilherme Clezar fez final em duplas, ao lado de Liang-Chi Huang, de Taiwan, e quartas-de-final em simples. É um nome para se guardar e ter alguma esperança no futuro.

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