Crise de personalidade

O circuito feminino está repleto de personalidades únicas e cativantes. Então, por que todas elas jogam exatamente da mesma maneira?

Stephen Tignor em 24 de Agosto de 2009 às 13:41

É Tido como verdade que atletas revelam algo de seu caráter quando estão em quadra. se isso ocorre verdadeiramente, poucos esportes denunciam a personalidade de um jogador tão contundentemente como o tênis. os profissionais vão para a quadra sem nada para os apoiar, a não ser eles mesmos.

Não há como eles adaptarem suas forças e fraquezas a uma equipe (como no futebol, vôlei, basquete), ou se concentrarem somente em rebater e não atacar, ou somente passar a bola. não há como evitar fazer o golpe final. isso tradicionalmente fez dos tenistas os atletas mais multifacetários. seus estilos únicos elevam-nos a status de ícones entre os fãs, fato que tem sido verdadeiro especialmente entre as mulheres durante os anos. o circuito da WTa é o lugar onde as jogadoras são conhecidas pelos seu primeiros nomes apenas.

Diz-se "Billie Jean", "Chris", "martina", "steffi", "gaby" ou "monica" e isso conjuga não apenas a pessoa, mas a filosofia de como o esporte deveria ser jogado. Estas mulheres ícones logo se tornarão um fenômeno do passado? Duas décadas de tênis-força tem diminuído gradualmente as opções de estilo das profissionais e, desde a aposentadoria, em 2008, de Justine henin - que era tão multifacetada quando se via em seu jogo - o conformismo se tornou regra na WTA.

Potentes golpes do fundo parecem ser a chave para alcançar o topo do ranking, que o diga Dinara Safina

Todas iguais

Nesta temporada de primavera europeia, as top 15 estavam usando essencialmente o mesmo jogo, baseado em torno de um conjunto de técnicas e táticas que favorece a agressividade acima do prazer estético: um forehand potente, quase sempre chapado; um backhand feroz e confiável de duas mãos; habilidade para controlar os pontos com a devolução; um saque meio nervoso; e uma tendência a bater as bolas baixas e nos cantos da quadra.

Mas, se o circuito feminino perdeu sua personalidade dentro da quadra, ninguém pode supor isso apenas conversando com as atletas. Ao passar uma semana ouvindo-as nas coletivas de imprensa, fica-se impressionado com suas vívidas individualidades, com seus sarcasmos engraçados, com o bom humor sorridente e ocasionalmente com o mau humor monossilábico de algumas.

Em um mesmo dia você pode deparar com as brincadeiras sarcásticas de Jelena Jankovic, com a honestidade assombrosa de Dinara Safina, a ambição cabal de Victoria Azarenka, ou a arrogância empedernida de Venus Williams. Não há robôs aqui.E é isso que torna tudo mais surpreendente e frustrante (se você gosta de tênis com diferentes estilos) ao acompanhar estas mulheres na quadra e observá-las se enfrentarem com, praticamente, as mesmas empunhaduras, swings, táticas e até trejeitos

Igual por quê?

"Não é um concurso de beleza", ri Rick Macci, técnico da Flórida que já treinou Jennifer Capriati, Venus e Serena Williams. "Se você, atualmente, tivesse um estilo artístico como Sabatini, não seria uma top 50. Você estaria a toda hora "nas cordas", sendo tirada da quadra", comenta. Para Macci e outros técnicos de alto nível, a grande razão para a falta de variedade pode ser resumida em dois nomes: Venus e Serena.

"As pessoas imitam as que têm mais sucesso", diz Chip Brooks, diretor de tênis da academia de Nick Bollettieri, em Brandenton. "Venus e Serena são isso no tênis. Quando elas apareceram, 10 anos atrás, elevaram as apostas na forma atlética das jogadoras. Elas foram as primeiras mulheres que se tornaram "big hitters" ("grandes golpeadoras"), assim como tinham grande mobilidade", completa.

O jogo de "bata antes da adversária e corra o mais rápido que puder" das Williams é um salto evolucionário que ninguém conseguiu superar ainda. Então, elas permanecem como modelos de treinamento para as jovens e talentosas atletas que surgem.

Qualquer que sejam as habilidades da nova garota, o pensamento é que ela deve ficar na linha de base e mandar "tiros de canhão" logo ou ela não terá chance de mais nada. "Você deve explorar suas capacidades físicas", diz Brooks. "Quando vê uma garota como Maria (Sharapova), que mostra que está aumentando de tamanho e força, você não perde muito tempo com a finesse. Você sabe que ela tem chance de estar no topo, então a equipa para alcançar essa meta", afirma. E é preciso fazer isso rapidamente

#Q#

Muita potência e pouco estilo, até a graciosa Ivanovic baseia seu jogo na força dos golpes

Problema da precocidade

Enquanto Roger Federer pôde construir um bom repertório de golpes que lhe valeu seu primeiro título de Grand Slam pouco antes de completar 22 anos, o circuito feminino é o lugar de jovens sem medo, onde as oportunidades aparecem mais cedo se você quiser se tornar uma campeã que domina a turnê. Sharapoca e Serena venceram seus primeiros Majors com 17 anos.

Isso não lhe dá muito tempo para mudar seu estilo de jogo. Esta realidade - unida aos 30 anos de avanços para geração de potência nas raquetes e cordas - fez com que o mais alto escalão do tênis feminino fosse de "batedoras" ao invés de "corredoras". Esta tendência começou com Monica Seles, há 20 anos.

Suas predecessoras no topo do ranking, SteffiGraf e Martina Navratilova usavam backhands de uma mão e baseavam seus jogos na velocidade. Seles - a primeira das queridinhas de Bollettieri - , assim como foi a pioneira nos altos grunhidos que atualmente são "obrigatórios", eliminou também a defesa e a variação da equação do tênis feminino, batendo com as duas mãos dos dois lados. Foi esta tendência que as irmãs Williams pegaram e aplicaram.

"Variar realmente não é a melhor maneira de jogar hoje", diz Macci. "O problema é o elemento tempo. Tudo é uma situação de emergência em quadra. Você não quer moldar alguém para ser como Serena, mas deve perceber que se trata de ter armas. Quando Capriati caiu no ranking e voltou a ser número um, ela pôde fazer isso porque ainda podia subjugar as adversárias com seus golpes potentes. Se você consegue enfiar a mão na bola com força, tem uma chance", revela. A ex-profissional Mary Carillo percebe os limites disso nas jovens jogadoras de hoje.

"Quando as únicas coisas que você faz são bater como louco e ter alguns poucos padrões para alcançar a vitória, se ficar nervoso, o que fará? É muito fácil entrar em pânico. Espero que as mulheres tenham melhores treinamentos, que elas aprendam como se mover e não somente como bater. Espero que elas saibam como mudar o jogo. Se todo mundo está fazendo a mesma coisa, existe a oportunidade para quem fizer algo diferente", acredita Carillo.

Jankovic também tem jogo baseado no tênis-força Navratilova tinha um estilo singular

Variedade masculina

"Algo diferente" já foi uma boa descrição do circuito feminino. Nos anos 70, a maneira graciosa como Evonne Goolagong subia à rede era muito diferente da precisão de Chris Evert, o que também contrastava com a potência ágil de Navratilova. Nos anos 80, o forehand dominador de Graf se contrapunha ao versátil backhand de uma mão de Sabatini.

Hoje, os estilos singulares de jogo estão no circuito masculino, que sobreviveu à época do tênis-força com sua diversidade intacta. Não é preciso ir além dos contrastes entre os três melhores do mundo - Federer, Nadal e Murray - para perceber o quão variado pode ser o caminho para alcançar as principais posições da ATP.

"Uma grande diferença é o movimento", afirma Brooks. "Os homens podem pegar a bola e ir para a rede quando têm chance. Eles jogam muito fora das linhas laterais atualmente e criam mais spin, o que faz os ralis serem mais variados", completa

É possível mudar sem perder?

As mulheres podem mudar o ritmo sem perder jogos? "Será necessário uma grande atleta para romper com este molde. Uma mulher com um backhand de uma mão ainda pode se tornar número um, mas você não vai ver saque-e-voleio com as devoluções de hoje. Não há tempo suficiente para cobrir a quadra adequadamente", revela Macci. Fãs que quiserem ver algo diferente talvez precisem buscar as quadras menos badaladas, onde os estilos mais individuais ainda podem ser cultivados.

Você poderá ver o ataque calmo e sutil de Amelie Mauresmo, a volta do backhand em loop com Carla Suarez Navarro, ou o saque pesado e o jogo completo de Alexa Glatch. Até mesmo Nick Bollettieri não gosta do que vê na tevê no circuito feminino. "Perdemos um pouco da emoção", diz o famoso treinador. Bollettieri forjou a WTA como a conhecemos atualmente. Com obstinados prodígios do Leste Europeu e das repúblicas pós-União Soviética - como Seles e Sharapova - , ele ajudou a tornar padrão golpes poderosos e grunhidos altos.

Ele, como exparaquedista militar, fez isso, em parte, ao criar uma academia com atmosfera de campo de treinamento militar. Militarmente falando, nesses campos, os recrutas aprendem técnicas de sobrevivência, mas também é onde eles têm suas individualidades apagadas. Bollettieri afirma que adoraria ver seu próprio molde quebrado, mas ele é realista sobre o que isso demandaria.

"Para usar golpes diferentes ou ir para a rede, uma garota tem que ser diferente do usual. E ela precisaria ter um jogo diferente implantado em sua mente logo cedo. Porém, os resultados seriam lentos e você precisaria que os pais acreditassem nisso", conta o treinador. "Ela provavelmente iria perder muito antes de poder vencer. E quem tem tempo para isso?", pergunta Bollettieri.

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