Por trás de tenistas profissionais, estão pais e mães com trajetórias distintas, mas um sonho em comum: o sucesso dos filhos

A participação da família é um dos fatores mais importantes na formação de um tenista, mas especialistas e familiares de atletas como Luisa Stefani e Pedro Boscardin destacam que o apoio deve vir acompanhado de planejamento, equilíbrio e respeito ao tempo de desenvolvimento. Pais, treinadores e jogadores precisam atuar em conjunto para priorizar o processo, e não apenas os resultados, permitindo que o esporte contribua tanto para a formação de atletas de alto rendimento quanto para o desenvolvimento pessoal das crianças e adolescentes.
A família de Luisa Stefani não era do mundo do tênis. Mas, acompanhando a filha, hoje medalhista olímpica e top 10 do ranking mundial da WTA em duplas, eles aprenderam desde cedo que o jogo e seus resultados são efêmeros e que o suor do dia a dia é o que leva ao sucesso. É acordar, ter a força de seguir e acreditar em melhorar um pouquinho a cada dia.
Para a família de Luisa Stefani, no início de sua trajetória no tênis, os torneios eram como uma sopa de letrinhas: FPT, CBT, Cosat, USTA, ITF, WTA.
O tênis entrou na vida da família de Luisa por acaso. Apesar de o esporte figurar dentro do que os pais acreditavam ser parte da educação, eles não eram acostumados com o tênis.
“Não sabíamos absolutamente nada”, resume a mãe da número 1 brasileira nas duplas, Alessandra Leao Veras Stefani.
Luisa deu as primeiras raquetadas jogando frescobol nas férias de verão, no Guarujá (SP). Não parou mais.
“Hoje podemos dizer que o tênis é parte de toda família que aprendeu a torcer primeiro e depois se apaixonar pelo esporte”.
Apesar da aptidão demonstrada pela filha, os pais mantiveram o planejamento educativo e o tênis universitário se tornou o principal objetivo quando perceberam que Luisa queria seguir no esporte como profissional.
“A dificuldade em encontrar um centro de treinamento adequado em volume, qualidade e ainda conciliar com educação em São Paulo, levou-nos a procurar uma academia de tênis nos Estados Unidos”, conta.
Assim, eles partiram para o seu maior desafio familiar: toda a família se mudou para Flórida.
Luisa treinou e estudou na Saddlebrook Tennis Academy, que contemplava estudos, treinamento e competição e a direção ao objetivo da universidade americana.
Por fim, os resultados de Luisa foram expressivos e ela finalizou o circuito juvenil da ITF como top 10.
Mesmo assim, os pais insistiram que ela fosse para a universidade. Ela diz que foi por “livre obrigação”, mas Alessandra não se arrepende.
“Foi uma das melhores decisões nossas como pais. Foi um tempo de descompressão individual, porém aprender a jogar por si e pelo time ainda traz outras competências para seguir no circuito mundial. A educação é o porto seguro. Porém a carreira de atleta profissional também é real e possível”. Luisa jogou pela Universidade de Pepperdine.
A grande lição de Alessandra como mãe de uma atleta profissional foi de que o caminho no tênis é um mundo de possibilidades e desafios. “Planejem e sigam seu coração, acreditem nos sonhos dos seus filhos”.
A família de Luisa Stefani já viveu dias mágicos e inesquecíveis. Uma medalha olímpica em Tóquio em 2021 e o título do Australian Open de duplas mistas em 2023, dois dos mais brilhantes até hoje. Mas nem tudo são flores. Em 2021, Luisa sofreu um rompimento do Ligamento Cruzado Anterior (LCA) na semifinal do US Open. Foi, para Alessandra, um dos momentos mais difíceis como mãe.
“Foi uma surpresa e um tempo de muita incerteza, com extrema disciplina e sinceramente nada de descanso. Mas acho que tudo chega no momento certo na vida. A medalha em Tóquio abriu portas para receber o apoio do Comitê Olímpico Brasileiro na recuperação, trouxe mais segurança para atravessar esse período”.
Aos pais de tenistas, ela deixa um conselho: planejar, persistir, ajustar e acreditar. O caminho vai se abrindo para quem busca o seu melhor a cada dia.
Se para a família Stefani o tênis foi uma descoberta, na família Boscardin, o tênis é parte da identidade. Carolina Bitsch Boscardin chegou ao tênis profissional, alcançando o top 600 de simples e top 400 de duplas, mas, a partir dos 25 anos, passou a ser professora.
Seus dois filhos, Pedro e Gabriel, cresceram na quadra de tênis. Gabriel acabou seguindo a trilha do tênis universitário, se formou em Economia e Relações Internacionais e competiu pela Winthrop University. Hoje ainda mora e trabalha nos Estados Unidos. Já Pedro nunca pensou em uma segunda opção.
“O antigo treinador, Ricardo, dizia: ‘As pessoas que realmente querem algo não têm uma segunda opção’. Guardei isso na cabeça e ele também. Dúvidas passam, mas graças a Deus ele conseguiu”, diz Carolina.
Para ela, foi uma satisfação muito grande ter os dois filhos no tênis. Mas isso não quer dizer que não existiram desafios.
Após ser um juvenil de sucesso — chegou a ser o número 6 do ranking mundial —, Pedro, hoje com 23 anos, realizou sua transição para o profissional em meio à pandemia.
Carolina conta que, apesar disso, ele conseguiu bons resultados, mas uma lesão grave em 2022 trouxe muitas dúvidas. Foi um período de incerteza, com a confiança baixa e que atrasou o seu desenvolvimento na carreira.
“Sempre contamos com a supervisão do Guga e do treinador Ricardo Schlachter, eles acharam melhor o Pedro parar de novo e ficar 100%. Aí, ele voltou 100% fisicamente, mas com a confiança baixa. Ele foi morar um ano na Argentina e treinou com Hernan Gumy e, aos poucos, retomou a confiança. O Hernan é uma pessoa sensacional e, com certeza, ele aprendeu muito”.
Depois desse período na Argentina, ele voltou para o Brasil para treinar na Tennis Route, com João Zwetsch, seu técnico até hoje. Atualmente, está no melhor momento da carreira.
Carolina admite que deve muito ao tênis na sua vida. O sucesso do filho, que em maio venceu a primeira partida da carreira em um Grand Slam, no qualifying de Roland Garros, é a realização de um sonho familiar.
“Sou suspeita para falar, mas o tênis ensina muito. Educação, personalidade. Vários campeonatos não têm juiz, então também ensina a honestidade. Desenvolve a criatividade, a resiliência. Para mim, é o melhor esporte do mundo. Meus filhos foram criados dentro de uma quadra. Devo muito ao tênis na minha vida e acredito que eles também. Hoje estou em Roland Garros vivendo esse momento, com meus dois filhos, um jogando e o outro torcendo”.
A sua experiência no circuito acaba sendo um diferencial para lidar com os desafios de uma carreira profissional. “Sempre é muito difícil a distância. Além de o Pedro viajar no circuito, o Gabriel mora nos Estados Unidos, onde fez universidade. Mas, como fui tenista, e eles disputam torneios desde pequenos, não sofro tanto. Sei que eles estão bem e felizes, buscando seus sonhos”.
Para os pais de crianças que estão começando no tênis, o conselho de Carolina é deixar as crianças brincarem: quanto mais elas gostarem, mais chances de elas quererem permanecer.
“Deixei meus filhos à vontade para escolher o esporte. Pedro gostava muito de futsal, até os 8 anos eu até achei que ele poderia seguir esse caminho. Mas ele acabava preferindo o tênis. Ele nunca brincou de carrinho, foi sempre do esporte. É preciso ir devagar. Depois de certa idade, são muitos fins de semana em torneios. Então é melhor deixar as coisas evoluírem naturalmente, com uma boa equipe. Todos os pais ficam mais felizes com as vitórias, mas o importante é a criança competir e não desistir”.
Não há uma fórmula para que uma criança talentosa se transforme em um tenista profissional. A formação de um jogador que está focado apenas em resultados, principalmente em idades jovens, é diferente da formação de um atleta que trabalha diariamente pensando no seu desenvolvimento e no seu futuro como jogador.
O ex-tenista César Kist, atualmente coordenador do Departamento de Capacitação da CBT e Oficial de Desenvolvimento da ITF para a América do Sul, destaca que, para os jovens tenistas, é importante vencer, para motivar e dar confiança, mas que, a longo prazo, o sucesso depende de vários outros fatores.
Para uma criança talentosa de 8 ou 9 anos, é muito importante que os pais entendam que o talento, por si só, não é suficiente para que ela se torne um jogador de alto rendimento.
No tênis, a derrota faz parte do processo. Alguns jogadores que estão entre os 50, 60 melhores do mundo, têm mais derrotas do que vitórias no profissional.
Neste sentido, o tênis é brutal: em todos os torneios, apenas um atleta termina sem perder. Todos os outros, inevitavelmente, passam pelo sentimento de derrota.
Entender que a derrota faz parte do caminho é fundamental. O dia a dia, a forma de avaliar o desempenho e até mesmo o planejamento das competições mudam quando pais, família, jogador e treinador estão alinhados.
Utilizar a derrota como ferramenta de evolução, portanto, torna-se essencial. “Quando o foco está apenas em metas de resultado, há o risco de comprometer o desenvolvimento integral do atleta. Por outro lado, quando o foco está em metas de processo, o crescimento é mais sólido, sustentável e alinhado com o alto rendimento no futuro”.
Jogador, pais e treinador precisam trabalhar em conjunto, de forma harmoniosa, e estar devidamente capacitados e preparados para cumprir o seu papel, evitando conflitos e garantindo um ambiente mais saudável para o desenvolvimento.
“Quando esse equilíbrio não existe, os impactos tendem a ser negativos, trazendo prejuízos tanto para o desempenho quanto para a evolução do atleta”.
Viver do tênis é extremamente difícil e existe um longo processo. Estudos sugerem cerca de 10 mil horas de prática específica, o que pode representar aproximadamente 10 anos de desenvolvimento. Isso, porém, não impede que as pessoas sonhem com esse objetivo. Para Cesar, porém, é essencial que a vontade do filho seja respeitada. Os sacrifícios que a carreira exige precisam vir da motivação intrínseca do atleta.
“Sonhar grande é fundamental, assim como acreditar e trabalhar em busca desse sonho. Porém, é preciso compreender que existe todo um processo até chegar lá. Estamos falando de anos de dedicação e de muito trabalho consistente. Muitas vezes, há o risco de os pais tentarem projetar nos filhos frustrações pessoais, incentivando-os a seguir o caminho do tênis profissional por expectativas que não são do próprio atleta”.
O especialista vê que o grande desafio para os pais está em compreender o caminho de desenvolvimento dos seus filhos.
O tênis exige aspectos técnicos, físicos, mentais e táticos, além do volume de treinamento e da quantidade adequada de competições. De forma geral, os pais não são especialistas nessa área.
Embora hoje exista muito acesso à informação, quem possui o conhecimento específico e a responsabilidade pelo planejamento e condução do processo é o treinador — à exceção, claro, de pai ou mãe que exerce oficialmente a função de treinador do atleta.
“Esse entendimento permite que os pais ofereçam um suporte mais adequado, confiem no trabalho do treinador e contribuam para um ambiente mais equilibrado e saudável para o desenvolvimento do seu filho.”
Ednaldo Leonel dos Santos é um dos pais que “acumulam” a função de treinador. Ele acompanha a filha Maria Eduarda Carbone, de 15 anos, que neste ano foi finalista do Roland Garros Junior Series, medalhista de ouro nos Jogos Sul-Americanos da Juventude e já somou pontos no ranking profissional da WTA.
Em torneios, pai/treinador e filha têm um combinado: só falam de assuntos relacionados ao tênis momentos antes da partida e durante a partida. “Logo que acaba a partida, não falamos mais sobre o esporte.”
Duda começou no tênis com o pai no Lagoa Iate Clube, em Florianópolis. Ele conta que o esporte foi apresentado como mais uma brincadeira para que ela se divertisse e praticava outros esportes. Foi tudo muito natural, sem pressão da parte dele, para que ela continuasse gostando do tênis. Para ele, é importante dosar as orientações, principalmente durante os jogos, quando as emoções estão muito presentes no momento. E, acima de tudo, nunca deixar de ser pai.

“É preciso muito amor e paciência. O tênis é uma profissão que requer muita dedicação, comprometimento e disciplina para otimizar o tempo, para que os estudos sejam prioridade também na formação”.
Cesar Kist relata que é comum ouvir treinadores se queixarem de que os pais acabam intervindo de forma inadequada no processo.
Ele acredita que a solução para essa questão passa por uma mudança de perspectiva por parte dos técnicos.

Para ele, é fundamental entender que os pais não são um problema, mas sim uma parte essencial do processo de desenvolvimento do atleta. Por isso, é necessário investir tempo também na formação dos pais.
“Da mesma forma que os treinadores dedicam horas semanais e mensais ao trabalho com os jogadores, é importante reservar um espaço para orientar, educar e alinhar expectativas com as famílias. Quando esse trabalho é feito de forma consistente, o ambiente se torna mais colaborativo, o alinhamento aumenta e os benefícios para o atleta são significativamente maiores”.
Ele ainda destaca que, quanto menos idade, mais importante é a criança ter espaço para se divertir, conviver com os amigos e aproveitar as fases da vida.
Os resultados podem até acontecer como consequência do talento e do trabalho, mas não devem ser o foco principal.
O objetivo deve ser desenvolver um melhor jogador, mas também um indivíduo mais completo, equilibrado e preparado para os desafios futuros.
O tênis é um esporte extraordinário, uma fonte riquíssima de aprendizado para toda a vida. Tudo aquilo que é vivenciado no dia a dia de treinos e nas competições traz benefícios que vão muito além da quadra.
“No tênis, desenvolvem-se competências essenciais para qualquer ser humano: disciplina, organização, capacidade de resolver problemas, respeito aos adversários, saber ganhar e perder, lidar com adversidades, derrotas e frustrações, tomar decisões, além de superação e resiliência. Também se trabalham habilidades como comunicação, liderança e, ainda que seja um esporte individual, aspectos importantes de convivência e trabalho em equipe. Essas qualidades acompanham o indivíduo ao longo de toda a vida e são fundamentais para o sucesso em qualquer área”.
Talvez o jogador não se torne um campeão no tênis profissional, mas o esporte ainda assim lhe trará um diferencial: o aprendizado adquirido ao longo do processo tem um valor imensurável.
Bruno da Silva
Publicado em 16/07/2026, às 15h40
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