Thomas Muster

Poucos tenistas tiveram a determinação do "Animal" em quadra. Mesmo após sofrer um grave acidente em 1989, ele voltou e atingiu suas metas

Arnaldo Grizzo em 29 de Julho de 2008 às 15:20

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Regina Lages/Alpha Imagem

SOMENTE AOS 28 ANOS O AUSTRÍACO Thomas Muster conseguiu alcançar o primeiro lugar no ranking. Feito relativamente tardio se comparado à maioria dos que atingiram tal posto. Na verdade, ele só não ultrapassou o australiano John Newcombe como o mais velho número um da história (com 30 anos, em 1974). Mas, mesmo "velho", o "Animal" - como era chamado pela imprensa da época - esteve no primeiro lugar por seis semanas, entre fevereiro e março de 1996. No ano anterior, o austríaco tinha tido seu melhor ano. Com 40 vitórias seguidas no saibro - feito que só não era maior do que a seqüência de 46 de Bjorn Borg e 53 de Guillermo Vilas (recordes superados pela incrível marca de 81 jogos invictos de Rafael Nadal) -, Muster era coroado o "Rei do saibro" ao vencer Roland Garros pela primeira vez. A Áustria, de Sigmund Freud e Arnold Schwarzenegger, se tornava o centro das atenções no tênis.

O jogo físico e com muito topspin do canhoto nascido em Leibnitz era perfeito para as quadras de terra batida (lembra alguém?). Toda partida contra ele era uma batalha. O adversário entrava na quadra sabendo que precisaria ter paciência, pois não haveria um ponto de graça. Seus grunhidos guturais eram amedrontadores. Sua aparência - sempre com a barba loira mal feita - dava-lhe um ar de lenhador das montanhas. A determinação de Muster sempre foi sua marca registrada. Em março de 1989, aos 21 anos, o austríaco vinha em boa fase. Após fazer semifinal no Australian Open, ele havia alcançado a final do GrandPrix de Key Biscayne (que hoje é o Masters Series de Miami). Após a semifinal contra o francês Yannick Noah, ele voltou para o hotel. No caminho, parou para comer algo na estrada. Ao pegar a bolsa no porta-malas, houve uma batida e o carro passou por cima de sua perna esquerda. Era 1º de abril, mas não era mentira. O jovem, que acabara de entrar para o top 10, precisou passar por cirurgia e, com isso, ficaria afastado do tênis por longo tempo. Mas, sua força de vontade foi tanta que, em seis meses, ele já estava de volta às quadras. Mesmo sem poder andar durante a recuperação, Muster treinou seus golpes sentado em uma cadeira especialmente projetada.

O gênio forte e o temperamento explosivo também foram constantes em sua vida. Em setembro de 1996, o público brasileiro foi um dos responsáveis por despertar a fera. Jogando no Hotel Transamérica, em São Paulo, em quadra de carpete especialmente preparada para neutralizar seu jogo de resistência, Muster ainda assim era o fiel da balança no confronto entre Brasil e Áustria pelo play-off do Grupo Mundial. Tanto que venceu Fernando Meligeni facilmente no primeiro jogo. Depois, o jovem Guga ganhou de virada de Markus Hipflem partida bastante tumultuada.

No dia seguinte, Muster fez dupla com Udo Plamberger para enfrentar Guga e Jaime Oncins. Reclamando do comportamento da torcida - que tentava o cegar com um espelho e gritava "Muster Gay" em um estrondoso uníssono - o número um da Áustria abandonou a partida no início do quinto set. Alegando que não se sentia seguro em continuar o confronto, ele não deixou os austríacos disputarem os jogos seguintes, dando a vitória ao Brasil.

Muster também ficou marcado para a torcida brasileira no ano seguinte, em 1997, quando perdeu para Guga na terceira rodada de Roland Garros. O austríaco chegou a liderar o quinto set por 3/0, mas tomou a virada, numa partida de mais de três horas. Sua frustração durante o jogo era tanta que seus gritos eram ouvidos de longe. Dois anos depois, o maior tenista da história da Áustria deixou o tênis profissional e abriu uma empresa, a TOMS, que produz vinho, roupas, óculos, engarrafa água etc. Seu legado no esporte, e mesmo seu nome, é um exemplo para os juvenis de seu país (Muster, em alemão, significa exemplo). Em julho deste ano, ele voltou a São Paulo e participou do Grand Champions Brasil. Sem ressentimentos e bem humorado, divertiu o público com suas brincadeiras. Bastante acessível, conversou com a Revista TÊNIS sobre todos os assuntos, sem reservas.

O que aconteceu naquela Copa Davis contra o Brasil em 1996?
Não foi uma Copa Davis legal. E ainda acredito que estava certo em não continuar jogando, porque não era justo. A Davis, eu sei, tem regras diferentes...

Mas o que aconteceu? Por que abandonou a quadra?
Porque é estúpido ter um espelho cegando os jogadores. E não é justo tratar as pessoas daquela maneira, cegar as pessoas com um espelho, jogar pedras e dizer todos os tipos de insultos. Não é muito educado. Ainda acho que foi a coisa certa a fazer, porque aquilo não tinha mais nada a ver com tênis. Ou você joga tênis ou não. Para o seu país é legal, mas você não pode insultar as pessoas, falar coisas sobre a sua mãe, ou o que quer que seja. Entendo português e espanhol o suficiente para saber o que significava e não era muito legal. E a outra coisa era ter um árbitro português. Mas, não importa, foi há tanto tempo. Mas, faria a mesma coisa hoje, porque a Davis ainda é um esporte e não é possível se comportar de uma maneira como aquela.

O que você sabia sobre Guga antes daquela partida em Roland Garros 97?
Só sei que depois do jogo as pessoas diziam: "Como você pôde perder para este cara?" Depois, ele ganhou Roland Garros por três vezes. Mas, naquela época não sabia muito sobre ele. Achava que ele estava jogando o melhor jogo da vida dele naquele dia. Mas, obviamente ele teve mais alguns jogos melhores do que aquele (risos). Ele simplesmente jogou muito bem e ninguém o conhecia direito naquela época. Então, as pessoas perguntavam: "Como você pôde perder para Kuerten?" E ele provou que todos estavam errados.

Você acha que deveria ter vencido?
Você teve 3/0 no quinto set. Eu sei, mas ele jogou um ótimo tênis. Ele estava lutando para voltar à partida. Todas as suas qualidades - que ele provou mais tarde na carreira - vieram à tona.

Algumas pessoas dizem que durante aquele jogo você disse a seguinte frase, em alemão: "Estou jogando meu melhor tênis e este garoto está me matando. Quem é ele? Um gênio?". Você se lembra disso?
Não me lembro. Certamente disse algo, mas não me lembro de ter dito isso. Sei que joguei muito bem, foi um grande jogo. Jogamos no pequeno estádio oval (quadra 1) um ótimo tênis.

"Espero que não haja um segundo Muster, mas um melhor"

Você foi considerado "Rei do saibro". Mas, para você, quem é o maior "Rei do saibro" de todos os tempos?
Até agora é Nadal, por ganhar Roland Garros quatro vezes na idade dele. E ele ainda tem muitos anos pela frente. Além das seqüências de vitorias que ele tem no saibro, a consistência...

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fotos: Luiz Cândido/Alpha Imagem

Ele é melhor que Borg?
Até agora, sim... Borg ganhou cinco vezes Wimbeldon, mas, falando apenas de saibro, não conheço ninguém que tenha jogado melhor.

No seu auge, os críticos diziam você não era capaz de ganhar em outras superfícies além do saibro. Atualmente, Nadal também é alvo deste tipo de crítica. O que acha? (Obs: A entrevista foi feita antes de Wimbledon 2008)
É estúpido. O cara já esteve na final de Wimbledon. Como você pode dizer que ele só sabe jogar no saibro? É o mesmo que dizer que Federer só sabe jogar nas quadras mais rápidas. O cara esteve na final de Roland Garros por três vezes. Nunca estive na final lá por três vezes e era considerado o "Rei do saibro". Então, consideraria Roger a "rainha do saibro" e Nadal o "rei" (risos). É ridículo dizer que Nadal só pode jogar no saibro. McEnroe nunca ganhou em Paris. Lendl nunca em Wimbledon. Todo mundo tem algo... Apenas Agassi realmente ganhou todos os quatro Grand Slams. Se você for nominar isso, então Agassi foi o melhor jogador de todos os tempos porque apenas poucos caras ganharam todos os quatro Majors. Todo mundo tem uma pequena fraqueza. Mas são pequenas coisas. Você não pode dizer que ele não pode jogar em quadras rápidas. Acho que isso é falta de respeito, para ser sincero.

O jogo em saibro mudou com o passar dos anos?
Obviamente mudou. Há mais velocidade, mais físico, mas você ainda precisa do mesmo tipo de golpes, precisa ser paciente, estar em forma, jogar com ângulos. Você precisa ser um jogar mais completo no saibro do que nas superfícies mais rápidas.

O acidente em 1999 foi algo marcante na sua vida. O que aconteceu?
Terminei meu jogo com Noah. Era uma partida noturna. Estava perdendo por dois sets e ganhei no quinto. Terminamos por volta das 23h. Era a primeira vez que alcançava o top 10. Estava no caminho de volta para o hotel e quisemos parar para comer. Apenas pegar algo, pois estava tarde. Estávamos dirigindo pela rodovia de serviço, para chegar a um shopping que havia lá. Estava tentando tirar a minha bolsa de dentro do porta-malas quando alguém, obviamente bêbado, veio do lado errado da pista e bateu na frente do nosso carro. O carro, basicamente, caiu em cima de mim quando estava que de lado e tive o meu joelho completamente espatifado. A bolsa que estava no meu ombro esquerdo estava debaixo da roda traseira. Então, acho que tive um pouco de sorte lá (risos). Lembro que o cara tentou escapar e bateu em um carro da polícia... Foi um infortúnio...

Como isso afetou sua carreira?
Não sei, pois, se não fosse pelo acidente poderia ter sido número um mais cedo... Talvez tenha sido um ponto na minha vida em que tive que trabalhar mais duro e percebi o quanto tênis era importante para mim. Não sei ao certo. Posso pensar em duas carreiras: uma até 89, até o acidente, e então depois disso. Se pensar nisso, hoje diria que o acidente foi bom para mim, porque depois dele fui número um e ganhei Roland Garros (risos)... Não sei, pois não posso provar. Poderia ter acontecido também sem o acidente. Apenas posso dizer que, quando olho para trás, vejo que tudo ocorreu bem. Ainda consegui alcançar minhas metas. Poderia ter feito talvez mais cedo, poderia ter vencido Roland Garros duas vezes... Não sei...

Mas isso mudou sua motivação?
Não sei. Apenas percebi o quanto o tênis era importante para mim e meio que provei para mim mesmo que ainda poderia fazer isso. Sempre fui um lutador, mesmo antes disso. Não sei se isso tem a ver com trabalhar duro ou não, mas certamente mudou a maneira como pensava e, provavelmente, ter de viver com dor, foi uma grande lição. Mas poderia ter feito tudo sem passar por isso (risos).

Como está o tênis na Áustria?
Jurgen Melzer e Stefan Koubek são os melhores jogadores no momento e eles meio que possuem potencial para estar no top 20. Mas, infelizmente, até agora não conseguiram. Melzer tem tido grandes dificuldades. E não há grandes esperanças no momento. Mas, algumas vezes, acontece quando você tem um bom juvenil. Mas, não há ninguém que veja que possa fazer isso agora.

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E a Tamira Paszek?
Ela é muito talentosa. É uma grande jogadora, mas está tendo algumas dificuldades agora, que está entrando em uma idade, na puberdade, em que tenta fazer algumas coisas diferentes. Por isso, ela pode não estar tão focada. Acho que ela tem força de vontade, grande talento, mas teve uma queda dura. Acho que todos temos quedas duras e, se ela passar por isso, acho que tem grande potencial para ser uma boa jogadora. Não sei se é boa o suficiente para o top 10, mas, sim, para o estar no top 20 consistentemente. É sempre fácil um talento sem pressão surgir (como ela fez no ano passado), mas então você tem que começar a defender pontos e precisa se concentrar no seu jogo.

No Brasil há muita pressão para que surja um novo Guga. Há pressão para que apareça um novo Muster na Áustria?
Espero que não haja um novo Muster, mas um melhor. É como a Alemanha. Eles têm esperado por uma SteffiGraf, Michael Stich... Mas, você não pode produzir esse tipo de jogador a cada ano. Milhões de pessoas tentam ser número um. Muitas crianças jogam tênis e o sonho de todo mundo é estar no topo, jogar bem. Mas somente alguns poucos podem ir além e chegar lá. Ok, a Alemanha teve seus jogadores. Brasil também, Áustria... A Espanha teve grandes jogadores, mas eles terão que esperar um longo tempo por outro Rafa Nadal. Você não pode produzir estes jogadores um após o outro. É impossível.

Regina Lages/Alpha Imagem

THOMAS MUSTER

Nascimento
2 de outubro de 1967,
em Leibnitz, Áustria

Altura e peso
1,80m e 75kg

Títulos na carreira
(de 1985 a 1999)
44 de simples (em 55 finais)
e 1 de duplas (em 2 finais)

Melhor ranking
1º simples
(em 12 de fevereiro de 1996)
94º duplas
(em 7 de novembro de 1988)

Vitórias e derrotas
622 vitórias e 271 derrotas

Prêmio na carreira
US$12,225,910

Mas a imprensa austríaca pressiona os juvenis do país?
Você não pode comprar ou pressionar alguém para ser o melhor. Veja o Chelsea (time de futebol inglês). Pôs quantos milhões para vencer a Liga e ainda não venceu? É assim que a coisa é. Você não pode comprar, não pode produzir o sucesso no esporte. O esporte ainda é feito de seres humanos. Não são maquinas. Eles cometem erros. Não importa quanto você os pague ou pressione, eles ainda são seres humanos. E isso é a melhor coisa do esporte. Um time mais fraco ou um jogador mais fraco, ainda pode vencer um time ou um jogador melhor. É por isso que é tão excitante.

Por que "Animal"?
Não faço idéia... Talvez porque tenha treinado muito, talvez porque sempre fui muito duro comigo mesmo. Era capaz de suportar muita dor, talvez seja por isso... Mas, na minha época, as pessoas odiavam jogar comigo porque sabiam que eu correria por um longo tempo, que não cederia nada, que eles teriam que fazer cada ponto. Não sei... A maneira como treinava, o tempo que passava na quadra para superar problemas técnicos. Ou talvez por não ser tão talentoso quanto os outros e apenas trabalhar duro. Talvez seja por isso... Não sei por que me deram esse apelido (risos).

Você gostava?
Não me importava. O que você pegou, pegou. Apenas aceite.

O que você acha que representa para o tênis da Áustria?
Não sei se você sabe, mas Muster significa "exemplo" em alemão. (Essa brincadeira com meu nome) Foi usada várias vezes. Se olhar no dicionário vai ver que a palavra para o meu nome significa exemplo.

Mas você se considera um exemplo?
Sim. As crianças eram muito jovens para se lembrar, mas acho que sim. Os pais, eles contam sobre mim. Você ainda vê muita coisa na televisão e os pais contam para seus filhos que houve um jogador que foi número um do mundo... Sim, acho que fui usado como um exemplo para as crianças. Isso é um orgulho e me considero, sim, um exemplo.


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