US Open

Sem medo de ser feliz

Por que os tenistas dos Estados Unidos sempre conseguem boas campanhas em seu próprio Grand Slam?

Arnaldo Grizzo em 24 de Setembro de 2012 às 14:22

QUANDO ALGUÉM ASSISTE A um jogo da jovem Taylor Townsend, número um do mundo no ranking ITF juvenil, pode pensar: "Essa gordinha não tem futuro". A menina chegou até a ser proibida de jogar o US Open (profissional) pela federação norte- americana (USTA), que considera prioridade sua saúde e diz que, com essa "barriguinha", ela não se adequa ao programa de desenvolvimento deles.

A menina e sua família, contudo, não deram bola para o que pensava a USTA e foram para o US Open para disputar ao menos a chave juvenil. Ela e seu "staff" certamente acreditam que uma nova Serena Williams pode surgir daí. No torneio, chegou às quartas. Em seu jogo, nada de muito especial. Assim como sua musa inspiradora, ela tem um bom saque e golpes muito fortes. Preparo físico? Melhor não tocar nesse ponto.

Ainda assim, não há nada no mundo que tire da cabeça da menina que ela será a próxima Serena, apesar de ela não admitir isso abertamente. "Apenas ver Serena treinar e jogar já serve de conselho", admitiu a jovem. Aliás, o US Open está repleto de tenistas que acreditam se tornar futuros Roddick, Isner, Serena, Venus etc. E eles não têm medo do "big stage", conseguindo quase sempre boas campanhas quando a USTA lhes dá um convite para disputar alguma das chaves do Grand Slam.

Para quem não sabe, a federação norte-americana tem um programa de play-offs nacionais que ocorrem por todos os cantos dos Estados Unidos e valem vagas não somente para o US Open, mas também para a chamada US Open Series, a série de competições da ATP e WTA que antecede o Major nova-iorquino. Qual o mote desse programa? "Think Big", ou seja, pense grande.

PENSANDO GRANDE

E é exatamente assim que os tenistas norte-americanos parecem pensar. A impressão é que todos acreditam mesmo que podem ser os melhores. Com isso em mente, parecem não se comover por estarem jogando uma partida de um Grand Slam, o "big stage". Para eles, estar no US Open é uma honra, mas, ao mesmo tempo, resultado de um trabalho árduo e apenas a primeira parte da realização de um sonho que eles pretendem que seja muito maior.

Voltemos a dar o exemplo dos juvenis. Neste US Open, a campeã foi Samantha Crawford, que recebeu um wild card. Uma das semifinalistas foi Victoria Duval, que também recebeu um convite. Das seis meninas que entraram graças à escolha da USTA, apenas duas não passaram da primeira rodada. No masculino, o aproveitamento foi menor, e apenas dois garotos com wild card chegaram às oitavas.

Ron C. Angle/TPL

"Apenas ver Serena treinar e jogar já serve de conselho", afirma Taylor Townsend, que chegou a ser proibida de jogar o US Open pela USTA

SEM PRESSÃO

Quando passamos ao tênis profissional, a história não é muito diferente. É verdade que a USTA ainda busca - e quer desesperadamente - encontrar algum grande ídolo para motivar mais seus jovens. Com a aposentadoria de Roddick e com as irmãs Williams já certamente pensando em parar, eles querem ver novas caras surgindo. Quem foi ao US Open 2010, por exemplo, lembra que Nova York estava repleta de cartazes do torneio com fotos da nova geração, como Isner, Querrey, Melanie Oudin etc.

Isner e Querrey, por sinal, são dois tenistas que vieram das universidades norte-americanas. E, neste ano, os universitários novamente não fizeram feio. Mallory Burdette, por exemplo, alcançou a terceira rodada, perdendo para Sharapova. A jovem de 21 anos - que estuda em Stanford - teve um ótimo verão nos torneios profissionais do hemisfério norte e pensa em se focar no profissionalismo. "Estava pensando em fazer psiquiatria antes desse verão. Estava me preparando para isso. Ainda meio que estou, mas vamos ver o que vai acontecer quando voltar para a escola", afirma.

Antes de jogar contra Sharapova em pleno Arthur Ashe Stadium, Burdette, uma das estrelas da NCAA - liga universitária norte-americana -, afirmou que estava ansiosa, mas que pretendia se divertir. Quando perguntada se ficou nervosa em sua segunda partida do US Open, respondeu: "Na verdade, senti-me muito bem em quadra. Estava nervosa para fechar o jogo, mas, muito feliz com a maneira com que me comportei". Por ser seu primeiro US Open, ela realmente não sentiu a pressão.

Outra jovem que vem tendo sucesso recentemente e sequer precisou de um convite da USTA foi Sloane Stephens que, aos 19 anos, já está entre as top 40 e atingiu a terceira rodada (pelo segundo ano seguido), perdendo para Ivanovic (também pelo segundo ano). Na primeira rodada, a menina, que é muito amiga de Serena - musa que certamente à inspira -, venceu ninguém menos que Francesca Schiavone.

Ron C. Angle/TPL

"Quando você atua nesses grandes palcos e ao lado de outros tenistas top, você passa a jogar mais calmo, sem pensar que eles são invencíveis", diz Ryan Harrison

Na mesma trilha vai a garota Samantha Crawford, de 17 anos. Antes de sagrar-se campeã juvenil, ela disputou o qualifying do profissional (vencendo a experiente grega Eleni Daniilidou) e passou. Perdeu na estreia para a promessa britânica Laura Robson. "Acho que o qualifying foi uma ótima experiência, foi ótimo ser capaz de jogar em uma situação mais importante e ganhar alguns jogos. Mesmo em um jogo duro como esse contra Laura, senti que estava bem, que tive as minhas chances".

EXPERIÊNCIA INCRÍVEL

Entre os homens, três convidados chegaram à terceira rodada do US Open, sendo dois deles completos "desconhecidos" do público do tênis: Jack Sock e Steve Johnson (o outro foi o veterano James Blake).

Aos 19 anos, já a terceira vez que Sock joga o Aberto norte-americano como profissional. Como ele se sente? "Não dá para pedir um torneio melhor, com melhor atmosfera. Adoro jogar aqui", garante. Mas e os nervos por jogar em casa? "Não importa quem eu esteja enfrentando, vou dar o meu melhor e tentar ganhar. Vou tentar ir o mais longe possível na chave", disse após vencer a segunda rodada. E completou: "A torcida é incrível. Quando você joga contra um cara estrangeiro, é surreal. Em todo ponto você sente que ganhou o jogo. Então, é muito legal jogar aqui". Por fim, e a pressão em substituir caras como Roddick e Blake, por exemplo? "Não sou o único jovem norte-americano chegando ao circuito. Há sete ou oito por aí, portanto, não existe uma pressão sobre mim".

Mais velho, porém com apenas uma participação no US Open, Johnson, de 22 anos, ganhou convite por vencer o campeonato da NCAA e não se fez de rogado, avançando no torneio. "Ele é um cara que sabe como vencer. Não sei quantas vitórias ele teve na universidade, mas creio que foram centenas. Um cara desse é capaz de encontrar uma maneira de vencer", apontou James Blake.

As duplas que receberam wild card também fizeram bonito. Johnson e Sock, por exemplo, derrubaram os cabeças-de-chave número um, Daniel Nestor e Max Mirnyi, na estreia. Nicholas Monroe e Donald Young não fizeram por menos e bateram Nenad Zimonjic e Michael Llodra, cabeças sete, também na primeira rodada. Melhor ainda fizeram os irmãos Ryan e Christian Harrison, que alcançaram as quartas, superando três duplas de prestígio. "Ryan, não importa onde esteja, dará o máximo. Ele trabalha duro. Ele adora ganhar. Ele fará de tudo para vencer", avaliou o veterano Blake, que é um dos inspiradores dessa nova geração.

Harrison, de 20 anos e já top 60, uma das principais promessas norte- americanas, perdeu na segunda rodada de simples para Juan Martin del Potro, porém, antes do jogo afirmava: "Sei que posso ir bem e sei que posso vencer a partida se jogar bem. Não vai ser fácil, mas estou ansioso por esse desafio. Vai ser divertido". Por que ele pensa assim? "Quando você atua nesses grandes palcos e ao lado de outros tenistas top, você passa a jogar mais calmo, sem pensar que eles são invencíveis".

PROTAGONISTAS

Os norte-americanos parecem não se deixar impressionar pela grandiosidade do evento de que estão participando. As quadras de Flushing Meadows, onde fica o centro de tênis da federação batizado com o nome de Billie Jean King, lhes são familiar. Eles não ligam para o público ao redor, não se incomodam com a pressão de estarem jogando em casa.

E pressão é o que não falta para esses jovens. O público e especialmente a mídia dos Estados Unidos está acostumado a ter tenistas que brigam pelo número um do mundo. A década de 1990, por exemplo, foi extremamente pródiga para eles, tanto na ATP, com Sampras, Agassi, Courier, Chang etc, quanto na WTA, com Capriati, Davenport e simplesmente as irmãs Williams.

Quando estão em ação no US Open, os tenistas norte-americanos parecem querer demonstrar sua superioridade em seu próprio país. Mesmo pior ranqueados, não se intimidam e encaram as partidas contra quem quer que seja da mesma forma, acreditando que podem vencer. Quando as cobranças surgem - e elas surgem, pois a mídia lá é implacável -, eles parecem sempre preparados. Todo jovem que atuou no US Open deu entrevistas coletivas concorridas após seus jogos e foi bombardeado de perguntas pela massa da imprensa norte-americana.

Com tudo isso, a verdade é que, em pouco tempo, as promessas do tênis norte-americano já estão prontas, já são experientes para lidar com situações que a maioria não está. Uma das frases finais do filme "Cruzada", com o ator Orlando Bloom, que faz o papel de Balian, defensor de Jerusalém (que está sendo dominada pelos mouros), parece bem adequada para exemplificar um pouco de como os norte-americanos costumam tratar suas emoções em relação ao "big stage". No filme, com a cidade sagrada cercada, Saladino propõe um acordo a Balian, que aceita deixar Jerusalém desde que os cidadãos não sejam mortos. Antes porém de render a cidade, Balian pergunta ao líder islâmico: "O que vale Jerusalém?" Saladino de pronto responde: "Nada". Para logo em seguida, cerrar os punhos e dizer: "Tudo". Ou seja, os norte- americanos entendem que aquilo de que estão fazendo parte tem seu valor, que vão dar o máximo por ele e, caso não o conquistem, não será o fim do mundo. Mas, se o zerem, alcançarão a glória.

COMPREENDER O SEU PAPEL

Andy Roddick se aposentou durante o US Open 2012 e, em sua última entrevista coletiva, foi perguntado sobre a pressão de sempre ter tido que representar a herança do tênis dos Estados Unidos. Para isso, ele respondeu: "Você conhece o fardo. Eu o compreendo. Compreendo o fato de que nós somos de um lugar que teve mais sucesso do que qualquer outro país, portanto, há certas expectativas. E eu não ia me esquivar disso. Caí justo no fim de uma geração dourada, mas é assim que o jogo é jogado. Por mais dura que seja a situação, quando se percebe a grandiosidade das coisas, é um sonho. É algo que você deseja. Não é duro". Essa frase resume o sentimento de muitos dos jovens que têm a difícil missão de serem as novas caras do tênis norte-americano.


Comportamento

Artigo publicado nesta revista

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