Artigo Dentro da ATP

Representante de classe

O Conselho de Jogadores da ATP é um recurso em defesa dos interesses dos próprios tenistas para diversos assuntos do circuito. Conheça algumas curiosidades que acontecem no desenrolar das ações nos bastidores do esporte

Por André Sá em 26 de Dezembro de 2013 às 00:00

DESDE O INÍCIO DA ERA ABERTA (1968), o tênis passou por várias transformações. Com a profissionalização do esporte, os jogadores uniram forças e reivindicaram melhores condições financeiras no circuito. Em 1970, vários torneios formaram um circuito unificado, que ficou conhecido como Grand Prix. Dois anos mais tarde, foi criada a Associação dos Tenistas Profissionais (ATP), entidade responsável por gerenciar os interesses do tênis masculino e, logo em seguida, surgiu um ranking que analisaria a performance dos atletas de acordo com os resultados ao longo do ano, e que serviria de base para classificá-los ao entrarem nos torneios.

De 1974 a 1989, o circuito masculino foi administrado pelo chamado Conselho do Tênis Masculino (Men’s Tennis Council), que era constituído por representantes da Federação Internacional de Tênis (ITF), ATP e diretores de torneios. Mesmo tendo sido um período marcado por uma grande evolução, os tenistas sentiam que tinha chegado o momento certo para terem maior influência no esporte.

Por isso, em 1988, o ex-presidente da ATP, Hamilton Jordan se viu forçado a conceder entrevista coletiva no estacionamento do complexo do US Open para debater os problemas dos tenistas. Pressionada pelos jogadores na época, a entidade ouviu os depoimentos dos atletas e os problemas apontados naquele contexto, e uma das soluções encontradas foi a formação de um novo circuito, o ATP Tour.

A proposta de um novo sistema foi apoiada pela maioria dos jogadores na época e, assim, oito top 10 assinaram um acordo para jogar o novo circuito a partir de 1990. Vários diretores de torneios apoiaram a decisão dos atletas e firmaram uma parceria única na história do esporte. Foi nesse mesmo ano que o Conselho de Jogadores da ATP (ATP Player Council) foi instituído para representar os interesses dos tenistas e fazer recomendações junto à Supervisão (ATP Management) e Diretoria da entidade (ATP Board of Directors).

Olhando por dentro

Passados mais de 20 anos desde sua criação, o órgão continua influente nos bastidores do circuito profissional. Minha primeira passagem pelo Conselho foi entre 2002 e 2003, no entanto, o foco em quadra naquela época não me possibilitou permanecer por mais tempo como membro (somos eleitos para mandatos de dois anos), e a rotatividade também permitiu nomes como Rafael Nadal e Novak Djokovic na diretoria.

Retornei ao Conselho no ano passado, sob a presidência de Roger Federer e com o apoio do diretor do ATP Finals, meu xará, André Silva, a quem os jogadores devem muito, embora nem sempre saibam. O bom relacionamento, que mantive durante meus 17 anos de circuito, garantiram uma boa votação para meu retorno ao cargo, onde sinto que posso informar melhor meus companheiros de classe. Ao mesmo tempo, estou aprendendo muito com a nova realidade. Representar a categoria dentro do Conselho é, na verdade, um privilégio para poucos e essencial para que possamos compreender um lado totalmente desconhecido para a maioria de nossos companheiros de profissão.

André Sá faz parte do Conselho dos Jogadores pela segunda vez

Um por todos

Assim como os sindicatos são criados para defender a causa de uma classe como um todo, o Conselho de Jogadores da ATP funciona de maneira parecida, para melhorar o circuito a partir da opinião dos tenistas. Ele é composto por 12 representantes: 10 que falam pelos “Jogadores”, um pelos “Técnicos” e um para o cargo “Alumni” (ex-jogadores). A votação dos nomes é secreta e participam as divisões I – tenistas no top 200 em simples e top 100 de duplas – e II – tenistas que estão na faixa de 201 até 350 em simples do ranking da ATP – para decidirem os vitoriosos entre os “Jogadores”. Já cerca de 50 membros vão selecionar um candidato que representará a classe dos “Técnicos”, enquanto que aproximadamente 300 ficam encarregados de apontar o escolhido para o cargo “Alumni”. Para a vaga entre os “Jogadores”, qualquer tenista pode se candidatar, de acordo com o ranking da entidade (contanto que esteja entre os 100 primeiros em simples ou duplas).

O nosso papel principal dentro do Conselho é sugerir ideias e propostas à Diretoria, a partir da visão da maioria dos jogadores do circuito. Mas é interessante perceber que nem sempre a opinião de grande parte dos atletas é a mais correta para determinada situação. Por isso, precisamos de tempo para assimilar todas as opiniões do grupo e chegarmos a um meio termo. Como o tênis é um esporte individual, cada um pensa e dá uma sugestão baseada no que é bom para ele como indivíduo. Acredito que o grande truque é não tentar satisfazer todo mundo e conversar bastante. Quanto mais discutimos um tema, mais clareza teremos para tomar a decisão correta. Imagine se sentar em um lugar com 150 jogadores com grandes egos e querendo coisas diferentes? Realmente não é fácil.

Reuniões oficiais

Os 10 membros votantes do Conselho se reúnem em três encontros oficiais, que acontecem durante o Aberto da Austrália, Wimbledon e US Open, para discutirem os assuntos em pauta. Porém, diante de temas polêmicos e que ganham repercussão significativa, a ATP pode convocar reuniões emergenciais. Em 2013, por exemplo, tivemos a necessidade de conversar durante o Masters 1000 de Miami e no ano passado também nos reunimos extraoficialmente, principalmente quando um dos assuntos que mais chamou a atenção dos jogadores foi o aumento na premiação dos Grand Slams.

Os atletas, em geral, exigiam que esses eventos estendessem o valor da premiação devido ao desequilíbrio entre o lucro líquido dos Slams e o que era repassado a eles. Por conta disso, reunimo-nos várias vezes na luta por mudanças em relação a esse panorama e posso afirmar que o próprio presidente, Federer teve enorme participação como líder pela causa.


Tenistas e dirigentes em reunião do Conselho

Depois de muitas horas de conversa com os representantes dos Grand Slams – sobre uma divisão mais justa –, decidiu-se no Australian Open de 2012 que os jogadores teriam que formular um plano para conseguir algum tipo de porcentagem da premiação, após os lucros líquidos desses torneios. Desenvolvemos uma estratégia sob a liderança de Federer e chegamos a um aumento, que os jogadores acharam justo e que, até 2016, será significativo. Foi uma grande vitória para todos nós, jogadores.

Vitória essa que segue rendendo, pois nesta temporada os quatro Majors ofereceram valores significativos aos participantes. O US Open, por exemplo, anunciou a maior premiação da história do esporte – US$ 34,3 milhões, que alegrou “gregos e troianos”, desde o campeão até quem foi eliminado na primeira rodada.

Olhar consciente

Quando uma reivindicação dessa magnitude é atendida, ela serve unicamente para conscientizar os atletas de que a união faz, sim, a diferença quando todos abraçam uma mesma causa – partindo desde a posição do presidente do Conselho. Pouca gente sabe o quanto de tempo Federer gasta se preocupando com os outros jogadores. É uma grande atitude de alguém que não precisa e não está ganhando nada com isso, e que me mostra com muita clareza como é o seu caráter, muito além daquilo que vemos como jogador.

Participando desse Conselho, percebo também que devemos manter um forte diálogo com as novas gerações, trabalhar pelo bem comum e tomar como exemplo a postura de Federer, que é capaz de minimizar tudo o que alcançou profissionalmente para fazer de um esporte, que é essencialmente individualista, mais igualitário, para que os jovens entendam o real valor de pensar também nos outros. Para que tenham a certeza de que nunca é tarde demais para aprenderem algo novo, pelo bem de sua classe.

*André Sá tem 36 anos e é membro do Conselho de Jogadores da ATP pela segunda vez. Ele já conquistou sete títulos de duplas da ATP, já foi top 20 de duplas e top 60 em simples, e participou de três Olimpíadas (Atenas/2004, Pequim/2008 e Londres/2012).

Confira os membros eleitos para participarem do Conselho dos Jogadores da ATP até junho de 2014:

Representantes do top 50 de simples: Roger Federer (Presidente), Kevin Anderson, Jarkko Nieminen e Gilles Simon
Representantes 51-100 de simples: Robin Haase e Sergyi Stakhovsky
Representantes top 100 de duplas: Eric Butorac (Vice-Presidente) e Mahesh Bhupathi
Representantes “At-Large” (visão geral de todos os rankings): James Cerretani e André Sá
Representantes dos Técnicos: Claudio Pistolesi*
Representantes “Alumni”(ex-jogador, paga anualidade da ATP): Yves Allegro*
*Os representantes dos Técnicos e “Alumni” não votam nas decisões do Conselho

Mandato de cada cargo do Conselho: dois anos.

Acima do Conselho dos Jogadores, há a Diretoria da ATP, que é composta por três categorias:
a) Chefe-Executivo e Presidente: Chris Kermode
b) Representantes dos Jogadores: David Edges, Justin Gimelstob e Giorgio Di Palermo (eleitos pelo Conselho dos Jogadores)
c) Representantes dos Torneios: Gavin Forbes, Mark Webster e Charles Smith

Quem e quantos participam da votação para eleger os membros do Conselho dos Jogadores?

R: Votação para eleger os 10 representantes dos Jogadores -
Divisão I – Jogadores: top 200 em simples e top 100 nas duplas.
Divisão II – Jogadores: situados na faixa entre 201 e 350 do ranking de simples.

Votação para eleger um representante “Alumni” – 300 membros.
Votação para eleger um representante dos Técnicos – 50 membros.


Perfil/Entrevista ATP Associação dos Tenistas Profissionais ITF Hamilton Jordan ATP Tour

Artigo publicado nesta revista



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