Revista Tênis
Marcelo Ruschel/Poapress

VOLTAR AO GRUPO MUNDIAL após quase uma década disputando o Zonal contra países teoricamente mais fracos não reservaria ao Brasil um caminho tranquilo na Copa Davis em 2013 com seleções de melhor gabarito. Conforme as palavras do capitão João Zwetsch no ano passado, “não poderíamos esperar jogos fáceis na primeira divisão”.

De fato, isso se confirmou com o duelo contra os Estados Unidos, sobre o piso rápido e coberto de Jacksonville, bem longe de ser a preferência de Thomaz Bellucci & Cia. Jim Courier, ex-número 1 do mundo e integrante do último embate entre as duas seleções em 1997, escalou força total, com John Isner e Sam Querrey, os melhores do país em simples, além dos irmãos Bob e Mike Bryan, vindos do título no Aberto da Austrália.

Do lado verde-amarelo, Zwetsch manteve a base com Bellucci e a dupla Marcelo Melo e Bruno Soares, que havia vencido cinco de seis jogos juntos no torneio. A grande incógnita apontou para o segundo simplista. Rogério Dutra Silva e João Souza, o Feijão, seriam os favoritos, porém o capitão optou por Thiago Alves.

Azarão, o Brasil mostrou brilhantismo e saiu fortalecido depois de uma série duríssima finalizada somente no último jogo. E, acima de tudo, mostrou que não chegou ao pelotão de elite só para fazer número.

O CENÁRIO

Na sexta-feira, Bellucci abriu a programação contra Querrey. O brasileiro fez um jogo abaixo das expectativas e perdeu por 3 a 0. Em seguida, Isner despachou Alves e os norte-americanos ficaram perto de fechar o confronto. No sábado, porém, os duplistas mineiros conquistaram uma vitória épica diante dos irmãos Bryan, que até então só haviam perdido duas partidas em 23 jogos na Copa Davis. “Tentamos esquecer o fato de estarmos 2 a 0 abaixo, porque seria uma pressão a mais. Entramos concentrados, confiantes, sem hesitar, porque tínhamos certeza em nosso jogo, nossa capacidade de poder enfrentar qualquer time e poder vencer. E foi isso que aconteceu”, lembra Melo. “Foi provavelmente o melhor jogo de nossa carreira juntos. Conseguimos ganhar, na casa do adversário, de uma dupla que era extremamente favorita e campeã de tudo no tênis. E quando ganhamos, revertemos a situação, passamos a pressão para eles. O Thomaz deu uma animada e teria nova oportunidade de jogar melhor“, implementa Soares.

Assim, no domingo, um revigorado Bellucci suportou os aces de Isner e empatou o confronto, para surpresa dos rivais. No duelo decisivo, Alves entrou ligado, ganhou o primeiro set, diante de um Querrey assustado, mas que passou a se acalmar durante a partida e selou o confronto. Mesmo derrotado, Alves se emocionou e exaltou o sentimento de representar o País. “Estava jogando com um cara que é 20 do mundo e meu ranking é 140. Dei tudo o que tinha. Acho que deu para sentir que no meu coração tem uma Copa Davis, em que sentiemoções diferentes, calafrios, arrepios e percebi que o coração estava batendo muito forte. Isso é Copa Davis e vai ficar marcado na minha vida”.

fotos: Marcelo Ruschel/Poapress

O QUE VEM AGORA?

Com o revés, o Brasil terá que jogar a repescagem pelo oitavo ano seguido, mas dessa vez para permanecer na elite do torneio. Até o momento, o time de Zwetsch é o sétimo melhor ranqueado entre todos que perderam na primeira rodada e, dessa forma, seria cabeça de chave no sorteio, fato importante para escapar de confrontos indigestos contra Suíça ou Espanha.

Mas, para o elenco canarinho, foi unânime que a bela apresentação contra os americanos serve de parâmetro para que a equipe acredite que possa lutar por qualquer série. “Não é fácil você encarar os Estados Unidos e passar toda essa pressão a eles, exigirmos deles o máximo para vencerem o confronto. Nós percebíamos, no último dia, quando o Thiago esteve um set acima, que eles estavam no limite, tirando tudo de si, e fazer isso nos Estados Unidos mostra que nosso time tem condições. Como já tínhamos vencido os Bryan e acreditávamos que poderíamos vencê-los novamente, isso serve de lição. É crer que podemos sempre vencer qualquer time”, comenta Melo.

A definição dos campeões dos Zonais acontece em abril, mesma data das quartas de final em que os Estados Unidos receberão a Sérvia de Novak Djokovic em Boise. Nações que podem se classificar para jogar em setembro contra o Brasil são: Austrália, Japão, Colômbia e até Grã-Bretanha de Andy Murray. Segundo Alves, o país já tem experiência suficiente para garantir sua permanência na elite, independentemente do rival. “Nossa equipe vem melhorando a cada confronto. Adquirimos uma identidade, batemos na trave por muitas vezes, tivemos chances contra Índia, Equador, mas faltava experiência, para a dupla, para o Thomaz, para todos. E de repente, nossa equipe está muito mais experiente. Provamos que quando o assunto é jogo em equipe somos muito fortes”, conclui.

No papel, temos um time competitivo. A dupla se provou um ponto seguro e Bellucci, todos sabemos, tem capacidade técnica de encarar os melhores do mundo, falta-lhe ainda (e todos esperamos, verdadeiramente, que o tempo lhe dê a experiência necessária para isso) jogar com a regularidade que se imagina. Nosso número dois ainda é uma incógnita, mas já se sabe o perfil que precisa ter: de lutador.

COPA DAVIS – 1ª RODADA DO GRUPO MUNDIAL
Estados Unidos 3 x 2 Brasil
Jacksonville Memorial
Veterans Arena, Jacksonville, EUA
Sam Querrey (USA) v. Thomaz Bellucci (BRA)
6/3, 6/4 e 6/4
John Isner (USA) v. Thiago Alves (BRA)
6/3, 7/6(4) e 6/3
Marcelo Melo e Bruno Soares (BRA) v. Bob Bryan e Mike Bryan (USA)
7/6(6), 6/7(7), 6/4, 3/6 e 6/3
Thomaz Bellucci (BRA) v. John Isner (USA)
2/6, 6/4, 6/7(7), 6/4 e 6/3
Sam Querrey (USA) v. Thiago Alves (BRA)
4/6, 6/3, 6/4 e 7/6(3)

Artigo publicado nesta revista

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