Perfil

Os personagens de Bud

Tributo ao mais famoso jornalista de tênis do mundo

Por Arnaldo Grizzo em 17 de Maio de 2017 às 14:24

Era impossível não notar Bud Collins (Arthur Worth Collins Jr) pelos corredores das salas de imprensa dos Grand Slams. Seu figurino nunca passava despercebido. Nele, tudo tinha cor, ou melhor, cores. Calças, camisas, meias, cintos e até os relógios. Nada discreto. “Gosto de cores. Sempre estive interessando em roupas. Divirto-me com isso”, afirmou.

Para muitos, ele se vestia de um personagem. No entanto, personagens mesmo eram os que ele retratava em suas colunas. Desde 1963, o jornalista formado pela Universidade de Boston acompanhou o circuito mundial de tênis. Em 2007, quando o encontrei no US Open (meu primeiro Grand Slam), ele e sua esposa, Anita Ruthling Klaussen, não sabiam dizer em quantos Majors ele já havia estado. “Provavelmente mais de 150 ou coisa do gênero”, afirmou. Sim, Bud não havia faltado de um US Open desde 1963, quando o torneio ainda era disputado em Forest Hills, e, nos anos seguintes, começou a frequentar todos os outros três Grand Slams.

Bud viveu um período de transição do tênis, do amadorismo ao profissionalismo, e conviveu com lendas de diversas eras. Em 2007, aos 78 anos, já tendo passado por tantas coisas, afirmava: “Não penso em me aposentar. Tenho muita coisa para fazer”. Certamente tinha. O autor da “Enciclopédia do Tênis”, seu livro mais famoso, estava sempre se atualizando. A longa carreira fez com que os tenistas de todas as idades o respeitassem.

Nas salas de entrevista coletiva, Bud era o único a ser chamado pelo nome próprio pelos tenistas na hora de responder a suas perguntas. O jornalista fazia questão de se sentar na primeira fileira, no centro da sala. “Acho que eles (tenistas) me conhecem, pois estou por aí há muito tempo. Fico feliz que alguns conheçam. Alguns, porém, nem falam comigo. O time norte-americano da Copa Davis, como Roddick, que não fala comigo durante a Davis, por exemplo. Mas essas coisas acontecem”, apontou.

No entanto, com o tempo, fez bons amigos entre os atletas. “Billie Jean King, Rod Laver, pessoas como essas, sim, são amigos. Fiz muitos amigos. Dou-me bem com a maioria dos veteranos agora. O problema é que eu fico velho a cada ano e os jogadores ainda têm a mesma idade. Eles seguem surgindo. Gosto de me encontrar os novos garotos, como John Isner, que tem uma boa conversa”, revelou.

Boxe, treinador e prefeito?

Bud começou a cobrir tênis quando passou a atuar no célebre jornal Boston Globe. Antes disso, ele havia sido treinador do time universitário de tênis da universidade de Brandeis, de 1959 a 1963. “Tínhamos um time vencedor. Desfrutei dessa época, mas comecei a viajar muito e não podia mais fazer isso”, disse.

Na época, Bud também ia para a quadra regularmente. Em 1961, ganhou o campeonato norte-americano indoor de duplas mistas. Em 1975, foi vice do seniores de duplas da França ao lado da lenda do tênis australiano dos anos 1930, Jack Crawford. Em 2007, ele havia recém feito uma operação de quadril e dizia: “Não jogo há quase um ano, mas vou voltar quando voltar para casa. Eu era razoavelmente bom”. Em 1967, Bud – que escrevia não somente sobre tênis, mas diversos assuntos do cotidiano para o jornal –, resolveu se candidatar a prefeito de Boston.

“Ah, eu me diverti muito. Eu escrevia uma coluna no jornal. Preenchi uma ficha e encaminhei. Mas então desisti. Meu editor achou que alguém do jornal não deveria concorrer para prefeito. Foi uma campanha curta”, brincou. Além do tênis, Bud cobriu diversos esportes durante a carreira, incluindo boxe e futebol (soccer, como chamam os norte-americanos).

 “Sim, cobri futebol para a televisão. Jogos universitários. Mas costumava cobrir boxe. Boxe e tênis são muito similares. Duas pessoas tentando derrubar uma à outra. Sozinhos, sem time. Só não há muito sangue no tênis. Boxe é muito interessante, passei muito tempo com Muhammad Ali, ele foi o melhor atleta que já conheci”, afirmou. Melhor do que Roger Federer? “Sim, boxe é mais duro do que tênis. Alguém está tentando lhe machucar. Ninguém está tentando fazer isso no tênis. E ele (Ali) chegou a ser a pessoa mais famosa do mundo em um momento. Era incomum estar com ele”.

Tênis no passado e no futuro

Ao ser questionado sobre os melhores tenistas que já havia visto, Bud logo dizia: “Laver e Martina Navratilova”. No entanto, ponderava. “Laver completou dois Grand Slams, foi dominante em seu período. Perdeu cinco anos de sua carreira quando foi profissional, senão teria muitos mais Majors. Ele jogou até quase 35 anos, então poderia ter tido um grande recorde. Ele era rápido, um grande competidor.

Mas era um jogo diferente na época em relação a hoje. Algumas pessoas separam por eras. Federer é o melhor desta era. Sampras foi o melhor de sua era. Evert foi a melhor de sua era por um tempo. Há muitas eras. É difícil julgar, pois é um movimento muito rápido”. Segundo ele, os avanços tecnológicos nas raquetes e nas cordas foram determinantes para o tênis.

“O jogo tem muita força atualmente”. “Você precisa jogar longos jogos hoje, mais do que antes. Jogos de quatro horas nesse torneio (US Open) eram incomuns. Então, o físico é muito importante”, afirmou. Ainda sobre o Aberto do Estados Unidos, Bud dizia não gostar do quão barulhento o evento havia se tornado. “Gosto de música, mas não disso. Nosso país foi construído no barulho. Não gosto disso”, comentou ao falar das músicas nos intervalos dos games.

Bom dia

O jornalista sempre foi uma figura extravagante, porém gentil. Antes de entrevistar algum tenista, verificava de qual país ele era e descobria como dizer algumas palavras na língua nativa. Naquele US Open de 2007, ao saber que eu era brasileiro, nos dias seguintes, toda vez que me encontrava, fazia questão de cumprimentar com um “Olá, bom dia!”.

Em nossa conversa, Bud lembrou de uma entrevista célebre que fez com Guga após sua vitória em Roland Garros 2000 na final contra Magnus Norman. “Foi uma grande entrevista, especialmente depois de ele ter jogado 11 match-points. Foi uma entrevista divertida, pois ele (Guga) achava que o jogo nunca ia terminar”, contou. Em 2007, em nossa conversa, Bud mostrou que ainda tinha faro para as coisas que estavam por vir no tênis.

Ao ser perguntado sobre as rivalidades, ele disse: “Houve algumas grandes, como Pete Sampras e Andre Agassi, Laver e Ken Rosewall, Bjorn Borg e John McEnroe, Borg e Jimmy Connors, McEnroe e Connors. Rafael Nadal e Federer ainda está crescendo. Navratilova e Chris Evert jogaram 70 vezes... Entre os homens, Mac e Borg jogaram 40. Nadal e Federer está se tornando uma grande rivalidade, mas acho que vai se tornar um triângulo como nos anos 1970 com Mac, Connors e Borg, pois agora teremos Novak Djokovic, Nadal e Federer”.

Na época, Djoko ainda não havia ganhado um Grand Slam sequer. Mas qual a melhor rivalidade até hoje? “Laver e Rosewall. Era incrível, apesar de muito dela ter sido jogada longe da cena mundial quando eles eram profissionais”. Bud Collins faleceu em 4 de março deste ano e seu legado para a história do tênis sempre será lembrado, especialmente em sua magnífica “Enciclopédia do Tênis”, que merece ser lida por todo fã verdadeiro do esporte. Nela, há histórias que até mesmo os maiores conhecedores, e até mesmo alguns de seus atores, desconhecem.

 


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