Instrução Capacitação

Dinâmicas para crianças

O importante é garantir alternância de atividades cooperativas e opositivas

Por Susana Silva em 20 de Abril de 2017 às 19:41

Folheando uma revista de tênis brasileira dos anos 1980, depareime com fotos de aulas de tênis em grupo e das chamadas “clínicas” – cursos intensivos com duração de dois dias a uma semana – que eram sucesso na época, com filas enormes de tenistas esperando sua vez de bater na bolinha. Imaginem, nos dias de hoje, se alguma criança ficaria quieta em uma fila com 10 pessoas, para rebater apenas uma ou duas bolas e voltar para o final, esperando sua oportunidade de rebater de novo...

Interessante notar como a metodologia do ensino do tênis mudou desde então, acompanhando a evolução pedagógica do processo ensino-aprendizagem em todas as modalidades esportivas. De um ensino tecnicista baseado em repetições e orientações do professor – para que os movimentos ficassem tecnicamente perfeitos –, surgiu uma geração de tenistas que sabia bater na bola, mas que não entendia como jogar o jogo de modo taticamente plausível. Agora, porém, vem tomando corpo uma pedagogia baseada em partidas, na qual os alunos entendem taticamente como o jogo funciona desde o começo do aprendizado.

Ora, se comprovadamente o ensino do jogo partindo da tática para se chegar à técnica vem dando bons resultados – e é impressionante a qualidade das partidas em quadras vermelha e laranja protagonizadas por crianças “criadas” no sistema Play and Stay (para conferir, basta acessar o link https://www.youtube.com/ watch?v=vUQLwaRBj8Y) –, é preciso dizer que não são apenas as bolas e as quadras reduzidas as chaves do sucesso. A maneira como o tênis é ensinado faz muita diferença.

Dinâmicas

E aí entram as tais dinâmicas cooperativas e opositivas  que são a chave para alunos taticamente mais eficientes e aulas mais cativantes e divertidas. Nas aulas para crianças, recomendamos fortemente os trabalhos em grupos, pois as possibilidades e as variedades táticas geradas por cada elemento da turma os deixarão mais inteligentes. Explico: se numa aula individual a criança recebe sempre as mesmas bolas enviadas controladamente pelo professor, na aula em grupo, ela receberá bolas diferentes de muitas crianças, e precisará desenvolver sua percepção do voo da bola rapidamente e se posicionar bem para rebatê-la.

Além de as habilidades perceptivas serem desenvolvidas, as habilidades interpessoais também evoluem mais rapidamente. Por meio das dinâmicas, as crianças aprendem desde cedo que, para jogar bem, é preciso praticar e, para praticar, é preciso cooperar, é imprescindível a ajuda do outro. Somando-se a isso, podem aprender o que é jogar com alguém, e não contra alguém: eu posso querer vencer meu adversário, mas não preciso considerá-lo meu inimigo. As rivalidades podem continuar existindo, mas uma grande carga emocional pode ser poupada quando a criança entende que os reais adversários estão dentro dela mesma. Mas isso é assunto para outro artigo.

Do ponto de vista técnico, o fato de a própria criança aprender a lançar bolas (com a mão ou com a raquete, o chamado “autolançamento” ou “saque por baixo”) na direção de um alvo no solo para o colega rebater, gera maior controle do próprio corpo e aprendizado dos movimentos dos golpes biomecanicamente mais eficientes. Simples assim.

Na prática

Vamos ver como essas dinâmicas funcionam na prática, passo a passo:

[Colocar Alt]

Passo 1 - Explorar o material individualmente: Aqui, o professor distribui uma bola para cada aluno, para que ele perceba seu peso, textura, o quanto ela quica; se ela rola rápida ou lentamente; como ela pode ser golpeada com diferentes partes do seu corpo etc.

Passo 2 - Cooperar em duplas: Nesta parte, o professor pode lançar mão de várias atividades de carregar a bola (por exemplo: duas crianças segurando a bola com as suas testas) e de passar a bola (rolando primeiro, depois com um quique, passando sem quique etc.) com seus alunos. Para praticar a percepção do voo da bola, a melhor atividade é aquela em que um aluno lança a bola para cair num arco que está à frente de seu companheiro, que agarra e lança-a de volta com o mesmo objetivo (chamamos esse exercício carinhosamente de “mão-mão”). Para esta atividade específica, você precisa de dois arcos e uma bola para cada dupla. Confira a execução da atividade no gráfico ao lado e acima; e as especificações no tópico “Detalhes”.

Passo 3 - Cooperar em duplas competindo com outras duplas: As duplas que trabalharam juntas cooperando farão uma “competição” entre si para ver qual consegue lançar mais bolas ao arco em determinado tempo. Essa competição cooperativa é a famosa atividade de “bater o recorde de trocas de bola”, que começa com alvos no chão para as crianças aprenderem a rebater com controle (1), e depois se desenvolve para as trocas sem os alvos (2). Confira a forma de execução no gráfico abaixo.

Passo - 4 competir em simples: Neste momento, as trocas de bola passam a ser opositivas, ou seja, agora não quero mais dar bolas “amigas” para gerar trocas, quero lançar ou rebater bolas para longe do adversário, para vencer o ponto. Essa situação de trocas com oposição também pode ser iniciada com “mão-mão”, assim a criança pode explorar direcionar as bolas para longe de seu amigo do outro lado da quadra com maior controle.

Detalhes

Conforme exemplificado no gráfico superior na página ao lado, os passos 2 e 3 devem ser feitos em ordem de dificuldade de habilidades, a saber:

1) mão-mão: as duas crianças lançam bolas ao arco com as mãos, arremessando de baixo para cima;

2) mão-raquete: uma criança lança ao arco com a mão, a outra rebate ao arco;

3) raquete-raquete: uma criança rebate para o arco, a outra rebate ao arco de volta.

Em todos os passos, de 1 a 4, o rodízio de posições entre as crianças em aulas, festivais e disputas é altamente recomendável, para que experimentem cooperar e competir com companheiros diferentes.

Em equipe

As atividades cooperativas e opositivas podem ser feitas também por equipes: se há 12 crianças em seis quadrinhas vermelhas, seis delas formam um time, seis, outro. Nesse caso, as atividades de “bater o recorde” podem contabilizar as trocas de três duplas versus as trocas das outras três duplas.

Esse esquema cooperativo “lançarrebater” pode ser feito nas aulas para aprendizado dos golpes de fundo, dos voleios e também do saque. No caso da aula de saque, o movimento de arremesso por cima da cabeça na direção de um alvo é um excelente educativo para que o braço dominante entenda como irá se comportar e, de quebra, a outra criança pratica a devolução (arremesso ao alvo – rebater ao alvo – agarrar).

Em todas as dinâmicas, sejam elas cooperativas ou competitivas, o professor deve imprimir uma contagem para que as crianças saibam que dupla, ou time, ganhou, quem perdeu, e efetuar os rodízios para as próximas atividades. Em grupos grandes, a disputa pode ser feita por tempo, com uma rodada de experiência, uma valendo e uma revanche. Ou então as crianças podem revezar suas posições em exercícios/joguinhos que vão até 4 (quem fizer 4 pontos vence, para já acostumá-las com a contagem do 15, 30, 40 e Game).

Exemplificando essa contagem: num exercício no qual um aluno lança ao alvo e o outro rebate, o ponto para a dupla acontece quando o ciclo é completado: lançamento, rebatida e recepção da bola depois de um quique. Ou, cada bola dentro do arco, seja do lançador ou do rebatedor, marca um ponto.

E o professor, depois de organizar as crianças na atividade, faz o quê? Fica livre para observar e dar feedback de qualidade sobre os critérios técnicos do golpe que é o tema daquela aula.

Os bons professores são excelentes criadores de tarefas: combinam habilidades de percepção, de deslocamento e de rebatida em progressões cada vez mais desafiadoras, de maneira que as crianças possam interagir com autonomia. As boas tarefas motivam as crianças, permitem que o professor possa observá-las atentamente e fornecem informações para que o desempenho delas melhore.

Sim, queremos que as crianças se divirtam, compreendam o jogo o mais cedo possível, e disputem pontos, mas sem perder a técnica de vista jamais.


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