Bellucci

De volta

Sem confiança pela falta de resultados convincentes, Thomaz Bellucci precisou enfrentar seus próprios pesadelos para voltar sorrir no circuito. Agora, terceiro brasileiro com mais títulos de alto escalão tem aposta da psicologia para acabar com altos e...

Matheus Martins Fontes em 20 de Agosto de 2012 às 14:29

"ÀS VEZES É NECESSÁRIO DAR um passo atrás para caminhar dois à frente!" Quantas vezes você ouviu essa frase quando tentou algo e, simplesmente, o rumo das ações pareceu ir na contramão? Quando chegou a Wimbledon e cruzou com Rafael Nadal na estreia, Thomaz Bellucci deve ter se visto à beira de um precipício. Afinal, ocupava apenas a 80ª posição no ranking, tão longe daquele 21º posto de dois anos antes, e parecia perdido em seus planos.

Fadado a ter que jogar o qualifying de grandes torneios em que se acostumou a entrar diretamente desde que furou o top 100 pela primeira vez, em maio de 2008, Bellucci poderia ter fraquejado e continuar no que muitos consideraram o "fundo do poço", já que nem na temporada de saibro de 2012 o tenista mostrou estar afiado.

Além disso, após encerrar o primeiro semestre, Bellucci também escancarou outros problemas que o atormentam no circuito há um tempo: um problema fisiológico - perda excessiva de nutrientes -, que causa uma queda acentuada de rendimento durante os jogos mais longos e sob altas temperaturas, e a fraqueza mental, fato ligado diretamente às limitações e carências do corpo.

RELEMBRANDO...

Marcelo Ruschel/PoapressHá três anos, Bellucci já era titular na Copa Davis (fez sua estreia no time brasileiro em 2007, com apenas 19 anos), tinha participado de todos os Grand Slams e obteve a honra de encarar de igual para igual o espanhol Rafael Nadal na quadra central de Roland Garros. Com a final do Brasil Open, logo no início da temporada, a expectativa foi que o paulista se firmasse dentro do grupo dos melhores do mundo e nos principais torneios do circuito. No entanto, o processo não foi tão fácil assim.

Sem repetir a mesma boa série do ano anterior, quando conquistou três tí tulos seguidos de Challenger, Bellucci despencou no ranking e saiu do top 100. Dessa maneira, a fórmula foi regredir novamente às competições intermediárias e recolher os cacos. Depois de fracassos seguidos em quatro eventos e com a confiança mais do que abalada, veio "o gol de honra" da turnê - um tí tulo no Challenger de Rimini o concedeu uma luz no fim do túnel. E veio Gstaad, onde o jeito foi apelar para o quali.

Uma semana depois, com direito a triunfos sobre o local Stanislas Wawrinka, o alemão Nicolas Kiefer e o russo Igor Andreev, Bellucci teve sua recompensa em grande estilo com o primeiro troféu ATP e o retorno ao lugar que nunca mais deixou até hoje - o seleto grupo dos 100 melhores do planeta.

"É um ponto fraco [problema fisiológico] que venho tentando aprimorar com o meu time. Às vezes, pode parecer que estou fazendo 'corpo mole', que não quero chegar nas bolas, mas simplesmente 'o corpo apaga'. Isso é frustrante para mim, pois quero sempre mostrar para meu adversário que estou lutando, querendo ganhar. E não consigo, o que pode passar uma imagem negativa às pessoas e que abala minha confiança em lutar nos pontos em um jogo de 5 horas, por exemplo", explicou o jogador de 24 anos em entrevista recente.

Ciente das dificuldades que o pupilo atravessa no dia-a-dia e "calejado" de seus vários anos no circuito profissional, o técnico argentino Daniel Orsanic ficou a par da condição física de Bellucci desde o primeiro contato, no final de 2011. Para o ex-duplista, é complicado para o atleta manter o equilíbrio emocional quando sabe que o corpo já não responde.

"Isso dá certa intranquilidade para o Thomaz, no sentido de depender das condições do tempo. É verdade que ele teve partidas nas quais se desidratou e perdeu uma porcentagem muito alta de peso. Foram situações muito difíceis, pois ele ficou completamente sem forças, sem condições de competir com a intensidade necessária. E isso o incomoda, tira a sua confiança", relata. "Mas pelo respeito que o Thomaz tem pela torcida, ele fica na quadra mesmo não tendo mais nada para dar, até colocando em risco a sua saúde. E as pessoas pensam, por não saber disso, que ele não está dando 100%, mas nós sabemos que ele está dando bem mais do que 100%", defende o treinador.

CONTER O ORGULHO

Em um semestre de experiência com Bellucci, Orsanic viu claramente que a meta estipulada no início do ano estava muito longe de ser cumprida, por isso o argentino e seu comandado tiveram uma dose de humildade - primeiro em procurar auxílio psicológico como forma de elevar a autoestima do tenista; e segundo em montar um calendário mais modesto [após a derrota para Nadal em Wimbledon], para que o tenista pudesse recuperar o ritmo de jogo e pontos preciosos na busca pela ascensão aos mais altos postos da ATP.

Dessa forma, o canhoto viajou com o apoio de sua equipe - ao lado de Orsanic, a psicóloga Carla Di Perro, o médico Antônio Herbert Lancha Jr. e o preparador físico Hamilton Souza - para uma sequência de três competições no saibro europeu: o Challenger de Braunschweig e os ATPs 250 de Stuttgart e Gstaad.

Vale lembrar que o número um do Brasil não disputava uma partida de nível Challenger havia quase um ano. O último compromisso em torneios desse porte ocorreu no ATP Challenger Finals, em novembro do ano passado, que ele jogou mais por força do patrocinador do que por necessidade. Aliás, se não considerar a participação em torneios Challenger organizados pela empresa que gerencia a sua carreira, ele não disputa, efetivamente, um Challenger desde 2009. Fora isso, Bellucci mantinha um jejum de canecos (de qualquer categoria) desde Santiago, em fevereiro de 2010 .

Na primeira parada, em Braunschweig, o tenista teve problemas de se readaptar ao saibro. Porém, depois de um primeiro jogo atípico, ele pareceu ter entrado em sintonia e triunfou em uma chave com poucos adversários à altura. Não foi brilhante, porém alcançou o primeiro objetivo - o título - e somou um importante resultado para suas pretensões futuras.

Na semana seguinte, outro compromisso em solo alemão, agora em Stuttgart. Com rivais mais fortes, Bellucci pôde comprovar sua evolução em quadra e parou apenas na semifinal diante do sérvio, top 10, Janko Tipsarevic, em jogo decidido no terceiro set. A campanha o recolocou de volta ao grupo dos 60 melhores do mundo e, logo depois, veio Gstaad, que reservava boas recordações ao brasileiro.

Com o bicampeonato em Gstaad, Bellucci se tornou o terceiro brasileiro com mais títulos de simples da ATP na história

Foi no charmoso evento dos Alpes suíços que Bellucci despontou no circuito. Em 2009, ainda oscilando entre ATPs e Challengers, o jogador de Tietê surpreendeu e conquistou o primeiro título importante de sua carreira com uma campanha que remontou desde a fase qualificatória. Parece que atuar longe dos holofotes foi uma maneira mais fácil de Bellucci colocar em prática seu melhor tênis.

O caminho em 2012 não teve a necessidade do qualifying, mas o desfecho não deixou de reservar grandes emoções - atravessando um caminho respeitável, com direito a vitórias contra Mikhail Youzhny (primeira diante do oponente), Feliciano Lopez e Grigor Dimitrov, Bellucci tratou de devolver o revés da semana anterior contra Tipsarevic na decisão.

FORÇA MENTAL

Clive Burnskill

Além de bater um tenista top 10, ele também mostrou muita força mental, já que precisou virar a final após perder um traumático tiebreak em que teve cinco set points à disposição [ganhava o desempate por 6/1]. Ao lado de Orsanic, Carla, a psicóloga que começou os trabalhos com o jogador havia menos de um mês, não escondeu a felicidade com a aparente evolução de seu paciente.

Em entrevista concedida à Revista TÊNIS alguns dias depois do título de Bellucci na Suíça, a profissional que atua no "Time Brasil", projeto do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) para os Jogos do Rio de Janeiro 2016, brinca e afirma ser "pé quente" ao analisar que o processo, mesmo ainda no início do estágio, já produz frutos. "O Thomaz já vinha trabalhando alguns aspectos, tanto na preparação física, quanto no cuidado com a alimentação e nutrição. O trabalho psicológico foi algo a mais para melhorar a performance. Eu o ajudei a complementar várias mudanças", adianta.

Assim como Orsanic já havia observado no meio ano de parceria ao lado de Bellucci, Carla também apontou que a determinação do atleta em querer evoluir é primordial para que a ajuda psicológica tenha o efeito necessário em médio e longo prazo. "Já deu para perceber nesse tempo um clareamento dos objetivos dele, o estabelecimento de metas. O Thomaz nunca teve um trabalho de continuidade, um processo psicológico permanente, então esse trabalho tem resultado em uma consequência. Ele é muito comprometido com o que quer, focado nos treinamentos. Já o vejo centrado nos ideais pré-estabelecidos e as vitórias [Bellucci tinha vencido 12 em 13 partidas que disputou] o deixaram mais confiante, mais forte. Eu enxergo uma perspectiva de evolução ainda maior para o Thomaz daqui para a frente", opina.

QUE CONSEQUÊNCIA

A jornada pelo saibro europeu, além de trazer novamente a confiança e um espaço entre os 40 primeiros da ATP, rendeu a Thomaz Bellucci um lugar especial na história do tênis nacional. Com o bicampeonato no ATP 250 de Gstaad, o paulista se tornou o terceiro brasileiro com mais títulos em torneios de alto escalão, igualando-se a Fernando Meligeni.

À frente do canhoto, estão apenas Luiz Mattar (7) e Gustavo Kuerten (20). Em termos de ranking, Bellucci é o segundo jogador do País mais bem colocado na tabela da entidade na Era Aberta (1973), só perdendo para Guga, ex-número um do mundo por 43 semanas entre dezembro de 2000 e novembro de 2011.

"Para Thomaz, deve ser uma honra fazer parte da grande história do tênis brasileiro", diz Orsanic, que, ao longo de sua carreira, familiarizou-se com os jogadores brasileiros, principalmente com Jaime Oncins, com quem formou parceria por muitos anos no circuito.

Entre os jogadores que estão na ativa, o paulista é o 14º na lista dos melhores do saibro em número de títulos, segundo aponta o site da ATP. Na temporada, com a excelente campanha realizada nos últimos torneios, Bellucci possui 16 triunfos e nove derrotas, saldo de 64%. O feito supera seu aproveitamento no piso em toda a sua carreira - 61,8%.

Acompanhamento psicológico mostrou os primeiros sinais de que parece ter dado resultado para Bellucci

As marcas são modestas se comparadas com o que o espanhol Rafael Nadal aprontou nas superfícies mais lentas - 36 títulos, entre eles sete Roland Garros, com um histórico de 254 vitórias e apenas 19 derrotas na carreira (aproveitamento superior a 93%), porém Bellucci mostra que seus três títulos no saibro ultrapassam recordes de atletas que ocupam o status de top 10 na atualidade - como é o caso do tcheco Tomas Berdych (dois títulos) e de Tipsarevic (um título).

E Orsanic ainda deixa claro que o objetivo de Bellucci vai além. Segundo o treinador, o foco do brasileiro é manter o bom rendimento ao longo do segundo semestre, sem se preocupar tanto com sua classificação na ATP. O passo mais importante é que Bellucci "encontre sua identidade como jogador" e explore de forma completa todo o seu potencial.

"Nosso trabalho é no sentido de fazer profundas transformações em Thomaz, de todos os pontos de vista. Não posso assegurar quanto tempo é necessário para que essa melhora venha por completo, pois é um trabalho diário. Tem que aproveitar cada dia. Creio que é um ano de investimento, de autoconhecimento para ele. Realmente me emociona ver Bellucci ganhar jogos como foi a final em Gstaad. Mas penso que, se seguirmos trabalhando, o melhor ainda está por vir."


Perfil/Entrevista Bellucci

Artigo publicado nesta revista


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