Instrução mental

Como ganhar de alguém melhor?

Em seu novo livro “6/0 Dicas do Fino – Ensinamentos práticos de um campeão de tênis para melhorar o seu jogo”, Fernando Meligeni diz como fazer para vencer alguém que, teoricamente, joga melhor do que você

Por Fernando Meligeni em 6 de Abril de 2017 às 17:20

Você já teve a experiência de olhar para o outro lado da quadra e ver um tenista muito melhor do que você? Se sim, o que pensou na hora? Já vivenciei isso muitas vezes ao longo de minha carreira profissional. Em várias oportunidades, olhei para o outro lado da rede e quem estava lá como meu adversário era Pete Sampras, André Agassi e tantas outras feras.

E como fazer para ganhar desses caras? Sim, é possível ganhar deles. Ou você é daquele tipo de tenista que já entra derrotado em quadra, pensando que jamais conseguirá vencer um oponente de qualidade excepcional? Ao entrar em quadra, sabemos exatamente o tipo de adversário que vamos encarar, em especial quando já estamos familiarizados com o circuito.

O garoto do juvenil sabe quem é o melhor menino do seu estado ou do seu país. A jovem garota tem consciência de quem lidera o ranking da sua categoria. O amador sabe no bate-bola inicial quem é o cara que vai encarar na partida de final de semana no parque. E o profissional muitas vezes enfrenta o líder do ranking mundial já nas primeiras rodadas do torneio.

Ao longo da minha carreira, venci adversários que eram muito melhores do que eu. Lembro-me muito bem da vitória sobre o Sampras no Masters de Roma, em 1999. Também me recordo da vitória na final dos Jogos Pan-Americanos de 2003, contra Marcelo Ríos no auge de sua forma física e técnica. E de outras tantas: contra Andy Roddick em uma quadra rápida e sobre Mark Philippoussis nas Olimpíadas de 1996.

Em todos esses jogos, a torcida e a imprensa achavam que era impossível eu sair da quadra com a vitória. E quem saiu vitorioso da partida fui eu. Qual foi o segredo? Tática e atitude! Existe um jeito de vencer alguém melhor do que você, mas para isso você precisa jogar com a cabeça a partida inteira. O nome desse segredo é tática, estratégia de jogo.

Acreditar não basta

Infelizmente, muitos tenistas já entram derrotados em quadra. Nem eles acreditam ser possível vencer o adversário melhor qualificado. Vejo muita gente aceitando a derrota antes do jogo começar em vez de tentar encontrar uma maneira de jogar contra o temível adversário. Se nem você acredita na sua vitória, então perderá a partida. Não tem jeito! Não existe vencedor em qualquer modalidade esportiva que não acredite em seu potencial e na sua vitória, por mais difícil que ela pareça.

Assim, a primeira coisa a fazer quando você tem de encarar um jogador excepcional, melhor do que você, é acreditar: acreditar em você, acreditar na zebra e acreditar no quase impossível. Além de crer em sua vitória, o tenista precisa compreender que todos os adversários, por melhores que sejam, também são seres humanos, com defeitos e fraquezas.

Como qualquer pessoa, eles também sentem a pressão por jogar e a obrigação de vencer. Eles também têm medo e se complicam na hora do “vamos ver”. E para que eles se compliquem, precisamos dar um calorzinho neles. Ou seja, precisamos que joguem com um pouquinho de medo. Para isso, precisamos conseguir chegar perto deles no placar. Os primeiros games são fundamentais. Não podemos deixar que eles abram vantagem no marcador.

O jogo precisa ficar no 1 a 1, 2 a 2 e 3 a 3 a maior parte do tempo. Se deixarmos um cara melhor do que a gente abrir dois ou três games de vantagem, se permitirmos que quebrem facilmente nossos saques, realmente o jogo fica muito difícil para a gente depois. Recuperar uma grande desvantagem é quase impossível. O jogador melhor acaba se soltando e metendo mais a mão na bola. Seu jogo cresce ainda mais, e ele acaba passando por cima da gente sem dó.

Explorar as deficiências

Para ganhar desses caras, não podemos jogar bonito. Esqueça aquela história de “priorizar o belo jogo” e “o mais importante é o espetáculo”. Não! Meta a mão na bola. Jogue no erro do adversário. Precisamos jogar essencialmente na deficiência do nosso oponente. Todo cara, mesmo o Federer ou o Nadal, tem uma maneira de jogar e uma deficiência.

Não existe atleta perfeito. Temos de saber qual é esta fraqueza. Devemos nos programar antes do jogo, conversar muito com o nosso técnico e precisamos estudar incansavelmente o nosso adversário. Essa é a lição de casa. Precisamos estudá-lo e conhecer os pontos fortes e os fracos. Devemos montar uma estratégia que evite destacar suas qualidades e que evidencie as suas fragilidades.

Essa é a tática certeira! Lembro-me muito bem da partida contra o Pete Sampras, em 1999. Para mim, aquele jogo foi emblemático. Encarar o melhor tenista de todos os tempos era algo dificílimo para qualquer um. Em uma conversa de bastidores, alguns dias antes do jogo, Ricardo Acioly, o Pardal, meu treinador, me falava: “Você quer ganhar do Sampras?! Ele é dezoito mil vezes melhor do que você. Ele foi o número um do mundo por anos e hoje ele é o número dois. Você vai jogar em uma quadra de saibro em que você pode de repente chegar perto dele.

O que você vai ter de fazer para derrotá-lo? Noventa por cento das bolas, você vai ter de jogar na esquerda dele. Alta, angulada, com slice e forte. Você tem de mandar sempre a bola no lado esquerdo dele, que é o ponto fraco. Não o deixe bater de direita. A direita dele é perfeita. Ela pode acabar com o seu jogo”. O que fiz durante toda a partida? Joguei no lado esquerdo do Sampras. A bola sobrava no meio da quadra e mandava na esquerda dele. “Mas poderia ter aberto lá na direita?”. Não! A estratégia era clara e precisava ser respeitada à risca. Era jogar na esquerda e jogar na esquerda. Era jogar o tempo inteiro no ponto fraco dele. Taticamente estava claro para mim como eu deveria atuar.

E que se dane o jogo bonito e o espetáculo. Eu queria vencer da lenda viva do meu esporte. Vejo muitas vezes o jogador mais fraco tecnicamente jogar de qualquer jeito, sem uma estratégia nítida na cabeça. “Ah, eu vou meter a mão na bola de qualquer jeito. Estou jogando com um jogador melhor, não vai fazer diferença”. Não! Essa não é a maneira correta de atuar. Se você quer vencer, tenha uma tática eficiente e não saia dela. Para ganhar de alguém muito melhor do que você, só contando com a tática correta.

“Mas eu não posso ganhar dele!”. Pode sim! Existem maneiras, existem dias em que o seu adversário não está tão bem. Você pode perder de 6 a 1 e 6 a 1? Pode. Você também pode vencer? Pode. O jogo contra o Sampras foi 2 a 0, parciais de 6 a 3 e 6 a 1. Para mim! Eu venci. Ninguém acreditava no que havia acontecido naquela quadra em Roma depois da partida. Acho que os únicos que acreditaram antes que aquilo fosse possível era o Pardal e eu.

Pedra no sapato

Tenha um jogo mental forte. Acredite que você pode ganhar. A vitória e a derrota são elementos do esporte e só são definidos após o encerramento da partida. Jamais antes. Vencendo ou perdendo o jogo, não fuja da sua tática. Estude muito bem o adversário na véspera e tenha uma estratégia clara para o dia do jogo. Mesmo que você perca fácil, o que pode acontecer, encontre um jeito de incomodar o oponente. Você precisa ser a pedra no sapato dele.

Mostre para o seu adversário, mesmo ele sendo melhor, que você está ali para derrotá-lo. Mostre para ele que você acredita nisso e que fará de tudo para conseguir seu objetivo. Não precisa gritar na cara dele, xingá-lo, trapacear nem usar de estratégias antiéticas. Mostre pela sua postura corporal que você sabe que pode derrota-lo.

A maneira como você entra em quadra, como você olha para ele e como corre atrás das bolas passam mensagens importantes: “Bom dia, hoje eu vim aqui para ganhar de você. Você está preparado para perder de mim?”. Não importa o resultado depois da partida. O que você precisa mostrar durante o jogo com o seu corpo, com o seu físico e com a sua garra é que você acredita na sua vitória o tempo inteiro, do primeiro ao último ponto.

O que não pode acontecer jamais é você entrar em quadra e, no primeiro game, ao perder o saque, sair dizendo ou pensando: “Está vendo! O cara é melhor do que eu mesmo. Não tem jeito!”. Não se comporte assim! Lute até o último ponto, mostre a sua estratégia para ele, tente várias coisas caso o plano A não funcione como você pretendia. Mostre para o seu adversário que você quer ganhar.

Lembro-me de quando enfrentei Mark Philippoussis nas oitavas de final dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Todos achavam que eu não teria qualquer chance de vitória. A imprensa brasileira já dava como perdido aquele jogo. Afinal, o australiano era um dos melhores jogadores do mundo e um exímio sacador. A partida ainda seria realizada em um piso rápido, a especialidade dele.

O Acioly, conversando comigo, mostrou que Mark era um cara incrível, mas não era imbatível. Se eu conseguisse sacar bem e imprimir o meu jogo, na hora “H” ele forçaria demais o saque e cometeria erros. Quando pressionado, ele costumava sucumbir e dar muitas chances ao adversário. Foi exatamente o que fiz. Fui levando meu saque e concentrava minhas oportunidades no segundo saque dele.

Queria ganhar todos os pontos na devolução de saque dele. Fui minando sua confiança até chegar ao tie break do terceiro set. Nesse momento, ele cometeu uma dupla falta. Entrei com tudo na cabeça dele, e ele se desestabilizou completamente. Aí mostrei (para mim mesmo, para ele, para o meu treinador, à torcida, à imprensa e para todos) que era possível derrotá-lo. Alguns minutos depois, o jogo era encerrado: vitória de Fernando Meligeni por 2 a 1. Espero que você se lembre dessa dica quando for jogar aquele campeonato importante e aquele jogo decisivo.

Não importa o lugar no ranking do outro tenista e qual cabeça de chave ele é. Sua atitude ao jogar é o que importa. Seja aguerrido. Acredite em você. Eles, que são bons hoje, um dia também foram como você. Eles trabalharam, evoluíram constantemente, olharam taticamente a maneira de jogar. Isso não acontece naturalmente de um dia para outro. Requer muito esforço e dedicação. Quem sabe logo mais o seu adversário é quem vai olhar para o outro lado da quadra e se perguntar: “Será que consigo vencer este cara que é tantas vezes campeão?”.


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