As idas e vindas de Martina Hingis

Dois anos após sua volta, a talentosa suíça, com novos problemas físicos e uma acusação de doping, decide se aposentar novamente. Desta vez, em definitivo

Gustavo Pereira em 13 de Dezembro de 2007 às 13:47

Ron Angle/TPL

#R#

Em 2003, por causa de uma contusão crônica no tornozelo, a suíça Martina Hingis abandonou o tênis pela primeira vez. Ainda aos 22 anos, a jovem, dona de um estilo magistral, não suportou as dores e, dizia-se na época, tampouco o aparecimento de tenistas fortes e musculosas. Estávamos na Era das Williams, que chegaram até a zombar da suíça dizendo que ela estava é com medo. Com Hingis, foi-se toda a sutileza do circuito e uma geração de garotas atléticas transformaram o tênis feminino. Anos depois, contudo, o “tênis força” começou a dar lugar novamente ao talento das que sabiam jogar com potência e com a cabeça também. Nesse cenário, a ex-número um resolveu arriscar uma volta. Preparou-se e jogou a temporada de 2006.

Sua volta foi triunfante. Saiu do zero e terminou o ano em sétimo lugar. Entretanto, com o físico ainda frágil, teve diversos problemas em 2007 e não conseguiu repetir as boas campanhas. E, para nova decepção dos fãs, anunciou sua aposentadoria definitiva do tênis no dia 1º de novembro. Além das contusões, outro motivo fez com que ela tomasse esta decisão: foi pega por doping de cocaína em Wimbledon. A tenista jura que nunca usou drogas na vida. “Acho esta acusação tão terrível, tão monstruosa, que decidi enfrentá-la de frente ao levá-la para a imprensa. Estou frustrada e com raiva. Acredito que sou inocente, mas essa alegação não me dá motivação para tentar outro retorno. Entretanto, vou fazer de tudo para limpar o meu nome,” afirmou a suíça que possui 43 títulos de simples e 37 de duplas na carreira. “Passei três anos longe das quadras e voltei com muito sucesso. Ganhei três títulos e cheguei ao sexto lugar no ranking”, disse. “Mas preciso ser realista. Tenho 27 anos e, com todos os problemas físicos que já tive, é impossível competir em alto nível. Por isso, decidi não participar mais do circuito”, sentenciou.

Importada
A “Swiss Miss”, na verdade, não é uma suíça original. Ela nasceu em 30 de setembro de 1980, em Kosice, Eslováquia. Os pais, Melanie e Karol, a batizaram em homenagem a Martina Navratilova. A garota sempre foi precoce, tanto que começou no tênis aos dois anos. Aos quatro, já disputou seu primeiro torneio. Em 1993, com apenas 12 anos, ela conquistou o título da chave juvenil de Roland Garros e se tornou a mais jovem a conseguir tal feito. Em 1994, conseguiu o bi e ainda levantou o troféu em Wimbledon.

Duas semanas após seu 14º aniversario, estreou no circuito profissional e se tornou a tenista mais nova a vencer uma partida de Grand Slam, no Aberto da Austrália de 1995. A consagração chegou dois anos mais tarde. Ainda em Melbourne, com apenas 16 anos e três meses, derrotou a francesa Mary Pierce e conquistou seu primeiro título de Grand Slam. E 1997 foi o ano de Hingis. Depois de vencer o Australian Open, ainda triunfou em Wimbledon e no US Open. Em março, se tornou a mais jovem número um do mundo. A temporada só não foi perfeita devido ao tropeço na final de Roland Garros, diante da desconhecida croata Iva Majoli. Paris nunca trouxe boas lembranças para a suíça. Ela teve outra chance de conquistar o Grand Slam francês em 1999, quando enfrentou SteffiGraff na decisão. Contudo, sentiu muito a pressão da torcida que apoiava fortemente a alemã, que se aposentaria naquele ano. A torcida francesa vaiou a suíça constantemente, tanto que ela até sacou por baixo no terceiro set. Hingis deixou a quadra em prantos após a derrota por 4/6, 7/5 e 6/2, e teve de ser consolada pela mãe (e técnica) que sempre a acompanhava.

Melanie, mãe e treinadora de Hingis, estava sempre presente em seus jogos

Se a habilidade de Hingis com a raquete era enorme, seu comedimento nas entrevistas, nem tanto, e ela sempre causou polêmica. Na véspera da final do Aberto da Austrália de 1999, contra a francesa Amelie Mauresmo, disse: “Ela está aqui com uma namorada. Olhe para ela. Amelie já é meio-homem”. Mais tarde, perguntada sobre a rivalidade com a jovem Anna Kournikova, soltou: “Que rivalidade? Eu ganho todas as partidas”. Curiosamente, Hingis e a russa fizeram uma dupla de sucesso. Ganharam dois títulos no Aberto da Austrália e ficaram com o vice em Roland Garros. As irmãs Williams também foram alvo de Hingis: “O fato de serem negras as ajuda. Muitas vezes conseguirão patrocínios porque são negras. E sempre foram beneficiadas por isso”.

Outro fato que casou espanto foi o anúncio do noivado da suíça com o tcheco Radek Stepanek no início deste ano. Alguns questionaram o gosto de Hingis para homens, já que Stepanek não é uma unanimidade no quesito beleza. Outros, porém, mais recentemente brincaram com o fato do doping da tenista, dizendo que tal relacionamento era efeito da “mente perturbada por drogas”. Brincadeiras à parte, a ligação entre eles acabou no meio do ano.

Primeira aposentadoria
O jogo da suíça sempre foi tático e de grande variação de golpes. Ela combinava bolas carregadas de topspin, slices desconcertantes e deixadinhas com extrema precisão. Porém, aos poucos, tenistas mais jovens e atléticas, que golpeavam com potência surgiram. O pesadelo de Hingis foram as tenistas norte-americanas. Além das irmãs Williams, Jennifer Capriati e Lindsay Davenport se tornaram grandes adversárias, especialmente Davenport, que lhe roubou o posto de número um em 1998, acabando com o reinado de 80 semanas consecutivas da suíça.

#Q#

Para piorar, em 2001, Hingis passou por cirurgia no calcanhar direito. Quatro meses depois, fez outro procedimento para reparar os ligamentos da região. Desde então, ela nunca mais foi a mesma, e processou a empresa responsável pelo calçado que usava. Assim, em 2003, anunciou sua primeira aposentadoria.

fotos: Ron Angle/TPL

Nesse período, sempre deu indicações de que poderia voltar. Aproveitou a boa condição financeira para curtir a vida, estudar e andar a cavalo, um dos seus hobbies favoritos. Às vezes participava de exibições, como a que aconteceu no Rio de Janeiro no final de 2005, quando enfrentou Kournikova na praia de Copabacana. Os rumores sobre uma possível volta ao profissionalismo ganharam força naquele ano. Jogou como convidada no torneio de Pattaya, Índia, em fevereiro e perdeu na estréia. Depois do jogo, afirmou que não tinha planos para retornar ao circuito. No entanto, em novembro de 2005, anunciou que voltaria às quadras. Dizia-se que uma de suas motivações neste retorno era a possibilidade de enfrentar Maria Sharapova, a queridinha do circuito. E, logo na primeira vez que se defrontaram, a “veterana” deu uma aula à musa na semifinal do torneio de Tóquio. Depois, perdeu as duas partidas seguintes para a russa.

No Aberto da Austrália de 2006, Hingis chegou às quartas, parando apenas diante da belga Kim Cljisters, mas deixou Melbourne com o título de duplas mistas, ao lado do indiano Mahesh Bhupathi. Ela conseguiu bons resultados durante o ano e se classificou para a disputa do Masters de Madri, onde perdeu em três sets para a Henin e Mauresmo, números dois e três do mundo na ocasião. Assim, encerrou a temporada na sétima colocação.

A expectativa era que 2007 fosse ainda melhor. Logo no começo, chegou à final de Gold Coast e novamente às quartas do Australian Open. Em seguida, foi à Tóquio e arrasou Ana Ivanovic na final. Nesse momento, uma lesão no quadril atrapalhou. As vitórias ficaram escassas e a dor aumentou, tanto que tomava analgésicos durante partidas. A contusão também impediu que disputasse Roland Garros.

Em Wimbledon, na estréia, passou um sufoco enorme e precisou salvar dois matchpoints. Na terceira rodada, caiu diante da inexpressiva norte-americana Laura Granville. Depois do jogo, disse que não deveria ter entrado no evento. E talvez ela devesse ter seguido seus instintos, já que foi justamente na Inglaterra onde testou positivo para cocaína. Desde então, disputou apenas quatro torneios e foi mal em todos, incluindo o US Open. Sua última partida aconteceu em setembro, em Pequim. Na segunda rodada, foi derrotada pela chinesa Shuai Peng.

fotos: Ron Angle/TPL

Desta vez, mais uma vez sem Hingis, o circuito feminino, apesar de repleto de tenistas musculosas e devastadoras, se rende ao talento de uma tenista franzina, que sabe usar algo mais do que força para vencer. Aí está um dos legados da suíça.

Martina Hingis

1,70 m e 59 kg

Destra (esquerda com duas mãos)

Foi número 1 do mundo em simples (em 31 março de 1997) e duplas (em 8 de junho de 1998)

Hobbies: esquiar, natação e cavalos (possui três: Montana, Sorrenta e Velvet)

Filmes: gosta de musicais. Seus favoritos são “Miss Saigon” e o “Rei Leão”

Cidades favoritas: Paris e Nova York. “Pela compras”, admite.

Superstição: Nunca pisar nas linhas de uma quadra de tênis.

Títulos
43 em simples (três Australian Open, um Wimbledon e um US Open) e 37 em duplas (quatro Australian Open, dois Roland Garros, dois Wimbledon e um US Open)

Prêmios
US$20,130,657


Perfil/Entrevista

Artigo publicado nesta revista

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