A missão dos Battistone

As maluquices e a história destes irmãos (que já foram missionários da Igreja Mórmon) são atrações do circuito de duplas

Rodrigo Linhares em 23 de Março de 2009 às 06:23

Brian e Dann Battistone

O tênis é um esporte clássico. Tem charme, história, e ainda hoje sustenta um valioso manual de comportamento que deve ser seguido por praticantes e admiradores. Mas, isso está longe de significar que não é um esporte repleto de diversidade. Tem tenistas destros e canhotos e isso é normal. Porém, existe até destro que joga com a esquerda e vira número um do mundo, como Rafael Nadal. Há alguns que batem o backhand com uma mão e outros que golpeiam com as duas.

No entanto, existem os Fabrices Santoros que batem tudo com as duas mãos - até para volear, ou fatiar a bola em um slice, não tiram nenhuma mão da raquete - criando uma arte quase impossível de imitar. Há também os que gostam de jogar no fundo, os que preferem buscar a rede, os que adoram dar um smash pulando como Pete Sampras, ou os que inventam de golpear a bola por debaixo das pernas, imitando o genial Guillermo Vilas. Tem os que gritam - como Maria Sharapova -, os que xingam o árbitro - como John McEnroe -, os que dão raquetadas na própria cabeça - como Mikhail Youzhny -, os que usam roupas chamativas - como Bethanie Mattek -, enfim, há maluco para tudo.

Mas, no meio desta "maluquice" toda, uma dupla de irmãos norte-americanos consegue chamar ainda mais a atenção por unir tantas características diferentes. Se você é o tipo de pessoa que adora uma surpresa, uma novidade, ou algo extravagante além do simples jogo de tênis rotineiro; a história - curiosa e inusitada - e as habilidades - pouco ortodoxas - destes dois rapazes seguramente vão lhe cativar. Se os irmãos gêmeos Bob e Mike Bryan são a dupla mais famosa do tênis na atualidade, Dann e Brian Battistone são a mais "inovadora". Ainda distantes das primeiras posições do ranking, os Battistone formam uma parceria que, apesar de não ter o sucesso dos Bryan nas competições, pode ser apontada como a mais espetacular, ou espetaculosa, do circuito.

Quando eram mais jovens, os dois tentaram a carreira profissional, mas não tiveram sucesso. Hoje, Dann, com 32 anos, e Brian, com 29, estão de volta ao tênis disputando torneios de duplas. Junto com eles, em todos os torneios, viaja o irmão mais velho, Mark, ex-professor de línguas em Los Angeles, que agora serve como técnico e manager da parceria. Eles se profissionalizaram em maio de 2007 e, no ano passado, saíram do número 700 do ranking para o top 200. Contudo, definitivamente, não é esta incrível ascensão que faz deles uma atração.

Assim como os irmãos Jensen, Luke e Murphy, que na década de 1990 davam um show a parte em suas partidas, os jogos dos Battistone também são entretenimento garantido. Apesar da irreverência e das "coisas estranhas" que os Jensen faziam em quadra, eles chegaram a ter algum sucesso, além do fato de serem uma espécie de Harlem Globetrotters do tênis. Os Battistone seguem a mesma linha, mas suas performances e técnicas chegam a ser ainda mais "loucas" do que as dos Jensen.

Primeiro lugar (in)comum: a raquete

Nos primeiros dias de 2009, os irmãos estavam no Aberto de São Paulo. Eles não conseguiram vaga na chave principal, mas, mesmo assim, chamaram muita atenção do público por usarem uma raquete nada convencional. Com dois cabos, o modelo inventado por Lionel Burt, em Los Angeles, e que recebeu o nome de "The Natural" virou atração até mesmo para quem estava no Parque Villa Lobos só para fazer uma caminhada. "A raquete chama atenção em todos os lugares que a gente vai. Todo mundo quer saber o que é isto", conta Brian. Na internet, existem comentários que se referem a ele como "um dos irmãos crazy (malucos) que jogam com aquela raquete esquisitona".

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Segundo lugar (in)comum: o saque

O mais novo dos Battistone não chama atenção apenas pela raquete diferente que usa. Praticante de vôlei e basquete, o tenista resolveu misturar elementos de outros esportes em suas exibições na quadra de tênis. Inspirado pelo saque viagem do vôlei - aquele em que o jogador lança a bola para o alto, corre, pula e ataca a bola com o corpo voando no ar -, Brian resolveu tentar fazer algo parecido com raquete e bolinhas de tênis.

E não é que deu certo? O saque do tenista impressiona pelo visual, pela velocidade - chegou a 224 km/h em medição da ATP - e pelo ângulo diferente que a bola faz por vir de um ponto tão alto. Os acertos são constantes e fazer a devolução é tarefa bem complicada. "Sempre gostei e pratiquei vários esportes (o vôlei foi um deles). Por isso, acabei tendo essas idéias e desenvolvi outras habilidades que tento usar no tênis", revela o tenista.

Há alguns anos, ao ver o treinamento de Brian Battistone para executar o seu "saque viagem", o desenvolvedor de raquetes Lionel Burt teve certeza de que tinha encontrado a pessoa certa para usar, e bem, todo o potencial de seu peculiar equipamento. Os irmãos não escondem que relutaram um pouco antes de assumirem a "The Natural" como equipamento oficial de jogos. "No primeiro momento, olhei para a raquete e pensei: 'Não vou conseguir jogar com isso'".

fotos: Rubens Chiri e Rodrigo Linhares
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Como jogar com isso?

Mas, hoje, eles defendem a escolha e não têm dúvidas de que a inovação foi muito boa para a dupla. "Se você observar bem, vai perceber que o ângulo que este cabo forma é melhor para o saque. Você não precisa compensar com o punho porque ele já tem uma inclinação. Além disso, você pode jogar com as duas mãos dos dois lados, e quando quiser ter mais alcance pode rapidamente deixar a raquete em uma mão só e se esticar. Dá para fazer tudo o que uma raquete normal faz", defende Brian.

Com o novo equipamento em mãos, o irmão mais novo da dupla começou a aumentar seu leque de possibilidades. Agora, ele, que é destro, consegue sacar com a mão esquerda para mudar o ângulo; com a direita, sacar viagem; bater com as duas mãos ou com apenas uma nos dois lados. E tudo isso com uma naturalidade que torna difícil descobrir qual é o seu braço "bom" de verdade.

Os irmãos acreditam que este modelo de raquete vai conquistar mais adeptos nos próximos anos e que veremos jogadores nas primeiras posições do ranking usando este equipamento. Por enquanto, esta idéia parece loucura. Mas, muitas vezes, a história já mostrou que: certa dose de maluquice no presente pode estar bem perto do que se chamará de genialidade no futuro.

Testamos a "The Natural"

Curioso, diferente, divertido. Jogar com a "The Natural" é uma experiência muito interessante para qualquer amante do tênis. Após bater algumas bolas com a inusitada peça dos irmãos Battistones, a mesma pergunta deve pairar sobre a cabeça de qualquer um: "Como esses malucos conseguem jogar em alto nível com essa raquete?"

Sem dúvida, ela exige uma técnica totalmente diferente das raquetes comuns. Ao bater uma direita, se você segura em um dos cabos, a batida sai atrasada e sua bola sai totalmente para o lado direito. Segure no outro cabo, e você baterá na bola antes do desejado, jogando-a totalmente para o lado esquerdo. No saque, situação parecida. Dependendo do cabo em que você segura a raquete, sua bola pode tanto ir direto para o chão como subir a uma altura muito maior do que a desejada, parecendo um lob.

A grande vantagem - e até por isso os norte-americanos são especialistas em duplas - está no voleio. Se você tiver habilidade com as duas mãos, a "The Natural" lhe oferece uma agilidade muito grande junto à rede. Segure com uma mão em cada cabo da raquete e espere a bola do adversário. Se ela vier na sua direita, solte a mão esquerda e estique o braço para batê-la. Se vier na esquerda, inverta o procedimento. Isto lhe fornece rapidez nos golpes, além de maior alcance em ambos os lados.

A primeira sensação que se tem ao experimentar a curiosa raquete é de que é impossível jogar com ela. Porém, após algumas bolas, você vai ganhando uma pequena prática e consegue desenvolver alguma coisa. Se for possível tirar alguma conclusão, a impressão é de que, após alguns anos de prática, a "The Natural" pode ser uma boa opção para tenistas com habilidade e bons reflexos junto à rede. Além disso, pessoas com facilidade em qualquer uma das mãos podem se dar ainda melhor com a raquete de dois cabos. Vale a pena testar. No mínimo, as risadas estão garantidas. Se quiser comprar, cada uma é vendida por US$ 200.

Por José Eduardo Aguiar

fotos: Rodrigo Linhares

Do contra!

É claro que as invencionices da dupla não alegraram todos do meio tenístico. Alguns mais conservadores já questionaram a legalidade da raquete de dois cabos e do saque viagem de Brian. Precavidos, os irmãos enviaram o equipamento para a ITF e possuem um documento da entidade que comprova que a "The Natural" pode ser usada. O saque viagem também é permitido e é até uma atração em um vídeo no site da ATP. "A gente sempre anda com o certificado. No começo, os jogadores e juízes sempre estranhavam e a gente tinha que mostrar para poder jogar", conta Brian.

Mórmons???

E os Battistone são mesmo uma caixinha de surpresas. Mesmo com toda a pinta de estrangeiros que não entendem uma palavra em português, os dois falam a língua de Camões com uma fluência impressionante. Os tenistas fazem parte da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, também conhecida como Igreja Mórmon, e, nos tempos em que se afastaram do circuito profissional, passaram dois anos trabalhando como missionários em comunidades carentes no Rio de Janeiro (de 2003 a 2005). Para não perderem a fluência, os irmãos costumam usar o português quando conversam entre si. Nas partidas de duplas, em que quase todos os tenistas entendem o inglês, falar o português é mais uma carta na manga dos Battistone na hora de combinar jogadas e movimentações.


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