2008 O ano que mudou o tênis?

A vitória de Nadal em Wimbledon significa uma nova Era no tênis? O período Federer acabou e agora se inicia a Idade "depois de Nadal"?

Arnaldo Grizzo em 30 de Julho de 2008 às 07:03

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Ella Ling/RCA Productions/TPL

MELHOR, MAIOR, INCRÍVEL, FANTÁSTICO, SENSACIONAL, extraordinário, fenomenal, maravilhoso, espetacular. O domingo, 6 de julho de 2008, provavelmente foi o dia em que mais se utilizaram expressões de forma superlativa para descrever uma partida de tênis. Rafael Nadal e Roger Federer protagonizaram não um jogo, mas um momento histórico, como também foi descrita a final de Wimbledon. Se apenas o placar, 6/4, 6/4, 6/7(5), 6/7(8) e 9/7, já impressiona, imagine as nuances que o construíram.

Os felizardos que estavam na quadra central naquele dia certamente vão se vangloriar de ter vivido tal momento (um jogo de 4h48, sem contar as duas paralisações pela chuva, que terminou quando a luz natural já se fazia extremamente escassa) dizendo aos filhos e netos, com aquele orgulho inerente de quem foi testemunha ocular de um marco na história do esporte. O que significa a vitória de Nadal na sagrada grama inglesa após seis anos de domínio de Federer? Ao que tudo indica, o surgimento de uma nova Era.

Desde o início de 2004, vive-se o período pós-Federer, que seguramente foi um divisor de águas. Por quatro anos, o tênis seguiu os desígnios do suíço, aclamado como o maior artista a já ter empunhado uma raquete. Mas, como se sabe, o tempo é impiedoso e a história está fadada a sempre se renovar. Pouco após seu auge, uma nova força começava a despontar. Hoje, a frieza e perfeição técnica dão lugar à determinação e suor espanhóis.

Como um pintor clássico, Federer sempre foi sinônimo de precisão, apuro. Seu estilo limpo e detalhista, de traços suaves, lembra um Leonardo da Vinci em seus temas religiosos, ou talvez um Eugene Delacroix, sempre em busca de retratar as vitórias épicas. A harmonia, a seriedade, a perfeição formal. Roger é um artista clássico por natureza. No entanto, como a arte, as tendências do tênis também mudam.

Em 2005, brotava um novo espírito no circuito. Um jovem espanhol - dotado de golpes com uma técnica pouco ortodoxa, mas de extrema eficiência, aliados a um tipo de persistência fora do comum - apareceu. O suor de seu trabalho incessante em quadra fez sua excelência. A sucessão de golpes que Nadal consegue desferir é como um quadro impressionista, em que as seguidas pinceladas (aparentemente sem lógica) formam a cena desejada. Ele é o movimento. O espanhol talvez vá ainda mais longe e se torne um expressionista, tamanha a emoção e força com que carrega suas obras. Porém, ele nada mais é do que a ruptura com o estilo clássico que Federer representa. É a revolução a caminho.

fotos: Ella Ling/RCA Productions/TPL

HISTÓRIA CÍCLICA
Muitos acreditam que a história se repete. Apenas os ciclos se renovam. Será que estamos fadados a cometer sempre os mesmos erros? Roger Federer talvez tenha se esquecido de estudar os acontecimentos do passado. Há 27 anos, em 1981, uma tragédia parecida com a vivida pelo suíço acontecia em Wimbledon. O sueco Bjorn Borg, cinco vezes campeão do Grand Slam britânico, perdia seu reinado para um jovem canhoto, o norte-americano John McEnroe, de estilo completamente oposto ao seu.

A semelhança entre estes fatos é grande. Em 1981, Borg tinha 25 anos, um a menos que Roger agora. McEnroe tinha 22, o mesmo que Nadal. Borg era o "Homem de Gelo", Federer é o intocável. McEnroe, o garoto prodígio, assim como Rafa. No ano anterior, Borg e McEnroe decidiram Wimbledon em um duelo memorável. Em 2007, a final entre Federer e Nadal foi considerada a melhor partida da temporada. Após anos de domínio, no início de 1981, Borg parecia que não estava em seu melhor momento, sofrendo com contusões e perdendo jogos estranhos. Em 2008, Federer também teve altos e baixos e revelou estar com mononucleose. Há 27 anos, a imprensa, antes do torneio inglês, já dizia que o sueco poderia perder. Neste ano, também pairava dúvida sobre a continuidade do reinado do suíço.

O duelo Borg e McEnroe era um confronto de estilos. Um dos introdutores do "tênis força", o sueco ousou dominar a grama de Wimbledon, de 1976 a 1980, com a consistência de suas batidas cheias de spin do fundo de quadra.

O jogo de rede só foi usado quando extremamente necessário. McEnroe, por sua vez, era adepto do "Big Game", de saque-e-voleio o tempo todo, com golpes plásticos, sempre em busca da definição. Após uma partida equilibrada, mas sem tanta emoção, estava decretado o fim da Era Borg, com o placar de 4/6, 7/6(1), 7/6(4) e 6/4. Pouco tempo depois, o sueco se aposentou.

Será que isso passou pela cabeça de Federer ao ver Borg e McEnroe assistindo à final que poderia reafirmar sua enorme superioridade na grama? Se vencesse, o suíço suplantaria a façanha de Borg e repetiria um feito que não acontecia há 122 anos, desde 1886. Nos primórdios de Wimbledon, o britânico William (Willie) Charles Renshaw ganhou o torneio por seis vezes seguidas entre 1881 e 1886 (três vezes contra seu irmão gêmeo, Ernest). Contudo, naquela época, o campeão do ano anterior simplesmente defendia seu título, disputando apenas a final contra o vencedor da chave dos tenistas restantes. Nadal acabou com o sonho do suíço e se tornou o primeiro desde 1980 a vencer Roland Garros e Wimbledon na mesma temporada, igualando-se, curiosamente, a Borg.

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POR QUE FEDERER PERDEU?
Após a derrota do número um, mais uma vez surgiu a pergunta: "Por quê?" Como o tenista que se diz ser perfeito, "o maior de todos os tempos", pôde perder em seu piso predileto - em seu quintal, dizem - para o espanhol? Se o estilo do suíço é ideal para a grama, o que aconteceu?

Há algum tempo o mundo do tênis percebe que, talvez devido a certo bloqueio mental quando atua contra seu maior rival, ou talvez mesmo por conta de sua genialidade (Como assim? Explicações mais adiante...), Federer simplesmente não consegue jogar com Nadal. Os altos spins do espanhol incomodam? Sim. A esquerda do suíço é vulnerável? Sim. Mas, só isso não explica tal transtorno enfrentado pelo número um cada vez que encara o canhoto. Que Nadal é extremamente determinado e focado, todo mundo sabe. Que ele é o tenista que melhor se move na quadra, também. Que o peso de seus spins machucam, é óbvio. Sabe-se ainda que o jovem não é um jogador tão limitado quanto seus críticos pregam e nem somente defensivo. O repertório do "Touro" é cada dia maior e sua desenvoltura ficou provada na campanha de Wimbledon. Os que o taxavam de "devolvedor" viu um Nadal "matador" em boa parte dos jogos, com forehands potentes e backhands cruzados inalcançáveis. Até o saque, seu ponto mais falho, foi decisivo.

No entanto, uma coisa também é certa: o respeito que o espanhol tem pelo suíço. Da primeira rodada até a semifinal na Inglaterra, Nadal foi um jogador. Na decisão, foi outro. O canhoto, conhecedor de suas limitações e do arsenal que Federer possui, toma, sim, uma postura diferente, um pouco mais cautelosa, mas não submissa. O espanhol sabe que, para vencer quem ele mesmo chama de "o melhor da história", precisa - além de jogar bem, estar focado e tudo mais - manter uma disciplina tática. E, como um time de futebol italiano, o canhoto segue as diretrizes que podem lhe valer a vitória. Ele sabe que, se fugir da estratégia ou cometer pequenos deslizes, pode ser fatal diante de um adversário tão qualificado.

Sendo assim, o que se viu na final de Wimbledon foi um Nadal extremamente aplicado em sua tática de jogo. Primeiro, manteve alta a porcentagem de primeiros serviços, para que Federer não pudesse atacá-lo com a devolução. Além disso, direcionou - principalmente nos pontos importantes - seus serviços para o backhand falível de seu oponente. Depois, quando o suíço de volvia, a preferência do espanhol pela primeira bola após o saque era o mesmo alvo, a esquerda. Por fim, quando Federer sacou, as respostas do "Touro" também seguiam este rumo, sempre que possível.

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Antijogo? Os críticos chamem do que quiserem, mas a verdade é que cada um luta com as armas que tem e está mais do que provado que uma boa estratégia é capaz de anular e vencer o brilhantismo inconstante. Diante da disciplina tática de Nadal, o que faz Federer? Agora se explica o porquê de a genialidade, nestes momentos, não oferecer uma saída tão eficaz. O suíço sabe que possui vários golpes definidores em seu vasto repertório. Porém, fica claro que tantas opções, contra um adversário como Nadal, não lhe servem de nada se não aplicadas com uma finalidade. Enquanto o espanhol segue fielmente um plano de jogo pré-determinado, Federer confia apenas em sua habilidade para sair das situações adversas e, com isso, erra.

Há ainda certo descontrole emocional do número um diante do "Touro"? Certamente. Contudo, boa parte em decorrência destes equívocos que minam sua confiança. Por várias vezes, durante os break-poins, Federer simplesmente não conseguiu jogar, chegando ao cúmulo de devolver na rede os segundos serviços de Nadal para perder as oportunidades de quebra. Mesmo quando a situação lhe era psicologicamente favorável, quando esteve à frente no segundo set e teve boas chances de derrubar o saque adversário no terceiro, o suíço sentiu a pressão. O mesmo aconteceu na parcial decisiva, quando começou sacando e viu o espanhol ter de confirmar seus serviços para ficar vivo na partida. Por fim, impotente, tomou a quebra decisiva, após ter salvo diversas chances criadas pelo "obediente" Rafael Nadal.

fotos: Ella Ling/RCA Productions/TPL
"Renascidos" Marat Safin "se comportou" até a semifinal contra Federer. O alemão Rainer Schuettler também "reviveu" com a semi em Wimbledon, definitivamente o Grand Slam das surpresas

COMEÇOU UMA NOVA ERA?
Terminada "a melhor partida de tênis da história", novas questões surgiram. Será o fim da Era Federer? "Creio que a ordem mundial mudou e é apenas uma questão de tempo antes que os rankings reconheçam isso", afirmou o britânico Tim Henman. Será muito difícil que o suíço mantenha sua incrível seqüência de semanas consecutivas como número um (mais de 230), pois, no segundo semestre, Nadal não precisa fazer campanhas espetaculares, basta manter a regularidade que tomará o posto.

Desde o início do ano, Federer tem oscilado. A "desculpa", no começo, foi a mononucleose, mesma doença que manteve Justine Henin afastada das quadras em 2004, no auge de sua forma. Mas, mesmo "recuperado" - como dizia estar - o suíço ainda assim não conseguiu mais as mesmas performances dos anos anteriores, perdendo para Andy Murray na estréia em Dubai, para Mardy Fish na semifinal de Indian Wells, para o "freguês" Andy Roddick nas quartas em Miami e para Radek Stepanek em Roma, também nas quartas. Após a vexatória derrota na final de Roland Garros, quando anotou apenas quatro games contra Nadal, todos comentavam sobre o impacto que isso poderia produzir em Roger e se ele reagiria com o sexto título na Inglaterra. Veio Halle e Wimbledon e o suíço pareceu estar tinindo novamente, favorecido pela superfície. No entanto, seu domínio do tênis atual seria colocado à prova em uma hipotética semifinal contra Novak Djokovic e, caso vencesse, na aguardada decisão contra o espanhol. Sem o sérvio - que perdeu para um renascido Marat Safin na segunda rodada, Federer passou com facilidade pelos pequenos testes em seu trajeto rumo à final, mas falhou quando mais precisava.

"Isso realmente machuca... Perder em Paris não foi nada para mim, perder aqui é um desastre", resumiu Federer, de olhos avermelhados e cabisbaixo, durante a coletiva de imprensa que ele mais quis evitar na vida até então. Seu desconsolo com uma derrota tão dura era evidente mesmo antes do ponto final. Quando tomou a quebra no quinto set, o pentacampeão seguramente já pressentia o pior e foi se sentar visivelmente incomodado. Ele ainda lutou, salvou um match-point com um winner fenomenal de devolução cruzada no backhand, mas, na verdade, foi apenas para adiar o fim por poucos instantes, pois, não havia mais coelhos para tirar da cartola mágica.

Federer tentou se segurar durante a premiação. Os olhos ficaram vermelhos, mas as lágrimas não correram. McEnroe, comentarista da BBC, foi entrevistá- lo em seu caminho para o vestiário. Percebendo o tamanho da dor na alma do suíço, deu-lhe um abraço, que foi recebido com um misto de surpresa e acanhamento. Algoz de Borg na fatídica final de Wimbledon em 1981, o norte-americano certamente entendia o sofrimento de Federer naquele momento. Se, como diz a sabedoria popular: quanto mais alto, maior a queda; portanto, não há queda maior que a do suíço em Wimbledon. A aurora de um novo tempo no tênis masculino começa a despontar.

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As adversárias ficaram pelo caminho e as irmãs fizeram mais uma final

DISPUTA ENTRE AS MULHERES
Se o futuro do tênis dos homens parece se tornar mais generoso em disputas, no feminino isso já é uma tônica. E Wimbledon é prova disso. Tão logo Henin deixou seu posto de número um com a aposentadoria, a sérvia Ana Ivanovic o tomou. Com o título em Roland Garros, deu a entender que seria uma digna sucessora. Mas, foi só chegar Wimbledon e seu reinado já ficou na berlinda.

A bela, despreparada para o jogo na grama, perdeu na terceira rodada para uma chinesinha de 1,65m, Jie Zheng - que ainda ousou alcançar a semifinal do Grand Slam inglês depois disso. Com a derrota de Ivanovic, a russa Maria Sharapova e a sérvia Jelena Jankovic tinham chance de assumir o número um.

fotos: Ella Ling/RCA Productions/TPL
Se tamanho não é documento, a chinesa Jie Zheng provou ao atingir a semifinal

Mas Sharapova conseguiu fazer pior e foi errotada na segunda rodada para a compatriota Alla Kudryavtseva e, Jankovic, machucada, caiu nas oitavas diante da tailandesa Tamarine Tanasugarn. Depois disso, o que aconteceu? Simples. Caminho livre para as - muitas vezes desacreditadas, mas ainda bastante eficazes - irmãs Williams. Na terceira final entre elas em Wimbledon (a sétima em Grand Slams no total), Venus finalmente se deu melhor e garantiu o quinto título. Para ratificar a supremacia na grama, as duas ainda se uniram para ficar com a taça nas duplas. E assim está o tênis: no feminino, a "rainha" foi embora e as princesas se digladiam pelo posto; no masculino, o "rei" estaria nu?


Torneio

Artigo publicado nesta revista



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