MARIA ESTHER BUENO, então com 13 anos, adentrou confiante às dependências do Graciosa Country Club (GCC), em Curitiba. Ela era jovem, lépida e impetuosa, e trazia consigo dozes de entusiasmo adolescente que, temperadas pela convicção precoce de sua genialidade, davam à paulista a certeza de que eram bem poucas as mulheres no mundo que poderiam derrotá-la no jogo de tênis.
Vencidas algumas partidas no Aberto de Tênis da Cidade de Curitiba, em 1953, Maria Esther foi surpreendida ao pôr os pés no saibro do clube curitibano. Do outro lado da rede, Ilse Ribeiro, já uma senhora, desafiava aquela que viria a ser a maior tenista sul-americana da história. A menina, porém, não parecia assustada.
Aos 41 anos, Ilse preservava o corpo esguio e atlético, tinha charme e beleza, mesmo que as marcas do tempo denunciassem que a graciosiana já não era nenhuma colegial. Ver do outro lado da rede aquela mulher que, não fossem os olhos claros e os cabelos intensamente loiros, poderia muito bem ser sua mãe deve ter aumentado ainda mais a confiança da pueril Maria Esther. "Essa senhora não tem chance", teria pensado.
Não apenas a garota não impôs uma vitória categórica, como saiu derrotada, por 6/3 e 6/4. "Ela ainda era inexperiente, mas ficou amiga desta velhinha. Tinha 13 ou 14 anos e eu, 41", lembrou Ilse, em entrevista concedida, aos 94 anos de idade, para uma publicação interna do GCC. O título de 1953, conquistado sobre Estherzinha, foi o último no Aberto de Curitiba de Ilse Ribeiro, que venceu em outras seis oportunidades a competição, em 1939, 1940, 1943, 1949, 1950 e 1952.
Ilse foi o primeiro expoente graciosiano no esporte. Nascida em Santa Catarina, em maio de 1912, a tenista se filiou ao clube em 1934, após casar-se com Epaminondas Ribeiro. A partir de então, deu a largada para a mais bem sucedida trajetória tenística de uma mulher já vista no Paraná. Além dos títulos no torneio curitibano, conquistou em 25 temporadas o campeonato feminino do Estado.
Fora das fronteiras do Paraná, sua carreira registra, também, bons resultados, como as conquistas dos torneios de Santos, em 1935, do Club Atlhetico Paulistano, em 1936 e 1939, e de dois vice-campeonatos brasileiros de tênis, em simples, em 1950 e 1951. "Ela era uma apaixonada. Antes de qualquer coisa, amava o tênis, gostava de estar em quadra. Se pudesse, teria continuado a jogar até os 90 anos", diz Ivo Ribeiro, sobre a mãe, que faleceu em 3 de janeiro de 2009, aos 96 anos.
OS RIBEIRO E MARIA ESTHER
O curitibano Ivo Ribeiro, nascido em 7 de setembro de 1938, tratou de dar continuidade ao legado da mãe. As peripécias do filho de Ilse com a raquete não ficaram, porém, restritas às fronteiras brasileiras. "Ivo Ribeiro foi vice-campeão juvenil de Wimbledon. Tricampeão brasileiro - 1957, 1960- 1961. Campeão paranaense 22 vezes", lembra o livro O Tênis no Brasil - escrito por Gianni Carta e Roberto Marcher - em seu capítulo Anos Dourados: década de 60.
Os anos 1960, de fato, foram uma época admirável para o tênis nacional e para o Graciosa. Ivo foi o representante do clube na geração que brindou o Brasil com atletas como Ronald Barnes, Thomas Koch e Edison Mandarino, no masculino, e no feminino, claro, Maria Esther Bueno, que fortalecia seu elegante jogo de saque-e-voleio com as sessões de treinamento junto ao graciosiano.
Os dias dividindo quadra fizeram de Ivo e Maria Esther bons amigos, o que fortaleceu a relação da tenista com os Ribeiro e, consequentemente, com os graciosianos.
Finalista juvenil de Wimbledon, em 1957, Ivo não dá muita bola para a conquista. "O torneio juvenil (de Wimbledon) não é tão importante", diz o extenista, que prefere celebrar seus feitos na categoria adulta, como a participação no confronto em que a equipe brasileira derrotou os Estados Unidos na Copa Davis, em 1966, ou mesmo os títulos no Aberto de Curitiba, em 1964, 1966 e 1969.
Tenista maior do Paraná, Ivo, que divide com a mãe o Olimpo do esporte graciosiano, nunca se dedicou exclusivamente à sua carreira. Ainda juvenil, tentava, em vão, conciliar as viagens do circuito com sua rotina na faculdade de direito. "Deixei de disputar vários torneios porque tinha que voltar ao Brasil para fazer provas", lembra.
"Poderia ter ido muito mais longe", afirma o graciosiano, que reconhece, porém, ter tido uma trajetória de sucesso no cenário nacional. "Desde 56, quando entrei pela primeira vez no ranking brasileiro, permaneci por 15 temporadas seguidas entre os 10 primeiros. Em 60, fui o número um", ressalta.
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