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Revista Tênis  
 

2008 O ano que mudou o tênis?
A vitória de Nadal em Wimbledon significa uma nova Era no tênis? O período Federer acabou e agora se inicia a Idade "depois de Nadal"?

Por Arnaldo Grizzo


Ella Ling/RCA Productions/TPL

MELHOR, MAIOR, INCRÍVEL, FANTÁSTICO, SENSACIONAL, extraordinário, fenomenal, maravilhoso, espetacular. O domingo, 6 de julho de 2008, provavelmente foi o dia em que mais se utilizaram expressões de forma superlativa para descrever uma partida de tênis. Rafael Nadal e Roger Federer protagonizaram não um jogo, mas um momento histórico, como também foi descrita a final de Wimbledon. Se apenas o placar, 6/4, 6/4, 6/7(5), 6/7(8) e 9/7, já impressiona, imagine as nuances que o construíram.

Os felizardos que estavam na quadra central naquele dia certamente vão se vangloriar de ter vivido tal momento (um jogo de 4h48, sem contar as duas paralisações pela chuva, que terminou quando a luz natural já se fazia extremamente escassa) dizendo aos filhos e netos, com aquele orgulho inerente de quem foi testemunha ocular de um marco na história do esporte. O que significa a vitória de Nadal na sagrada grama inglesa após seis anos de domínio de Federer? Ao que tudo indica, o surgimento de uma nova Era.

Desde o início de 2004, vive-se o período pós-Federer, que seguramente foi um divisor de águas. Por quatro anos, o tênis seguiu os desígnios do suíço, aclamado como o maior artista a já ter empunhado uma raquete. Mas, como se sabe, o tempo é impiedoso e a história está fadada a sempre se renovar. Pouco após seu auge, uma nova força começava a despontar. Hoje, a frieza e perfeição técnica dão lugar à determinação e suor espanhóis.

Como um pintor clássico, Federer sempre foi sinônimo de precisão, apuro. Seu estilo limpo e detalhista, de traços suaves, lembra um Leonardo da Vinci em seus temas religiosos, ou talvez um Eugene Delacroix, sempre em busca de retratar as vitórias épicas. A harmonia, a seriedade, a perfeição formal. Roger é um artista clássico por natureza. No entanto, como a arte, as tendências do tênis também mudam.

Em 2005, brotava um novo espírito no circuito. Um jovem espanhol - dotado de golpes com uma técnica pouco ortodoxa, mas de extrema eficiência, aliados a um tipo de persistência fora do comum - apareceu. O suor de seu trabalho incessante em quadra fez sua excelência. A sucessão de golpes que Nadal consegue desferir é como um quadro impressionista, em que as seguidas pinceladas (aparentemente sem lógica) formam a cena desejada. Ele é o movimento. O espanhol talvez vá ainda mais longe e se torne um expressionista, tamanha a emoção e força com que carrega suas obras. Porém, ele nada mais é do que a ruptura com o estilo clássico que Federer representa. É a revolução a caminho.

fotos: Ella Ling/RCA Productions/TPL

HISTÓRIA CÍCLICA
Muitos acreditam que a história se repete. Apenas os ciclos se renovam. Será que estamos fadados a cometer sempre os mesmos erros? Roger Federer talvez tenha se esquecido de estudar os acontecimentos do passado. Há 27 anos, em 1981, uma tragédia parecida com a vivida pelo suíço acontecia em Wimbledon. O sueco Bjorn Borg, cinco vezes campeão do Grand Slam britânico, perdia seu reinado para um jovem canhoto, o norte-americano John McEnroe, de estilo completamente oposto ao seu.

A semelhança entre estes fatos é grande. Em 1981, Borg tinha 25 anos, um a menos que Roger agora. McEnroe tinha 22, o mesmo que Nadal. Borg era o "Homem de Gelo", Federer é o intocável. McEnroe, o garoto prodígio, assim como Rafa. No ano anterior, Borg e McEnroe decidiram Wimbledon em um duelo memorável. Em 2007, a final entre Federer e Nadal foi considerada a melhor partida da temporada. Após anos de domínio, no início de 1981, Borg parecia que não estava em seu melhor momento, sofrendo com contusões e perdendo jogos estranhos. Em 2008, Federer também teve altos e baixos e revelou estar com mononucleose. Há 27 anos, a imprensa, antes do torneio inglês, já dizia que o sueco poderia perder. Neste ano, também pairava dúvida sobre a continuidade do reinado do suíço.

O duelo Borg e McEnroe era um confronto de estilos. Um dos introdutores do "tênis força", o sueco ousou dominar a grama de Wimbledon, de 1976 a 1980, com a consistência de suas batidas cheias de spin do fundo de quadra.

O jogo de rede só foi usado quando extremamente necessário. McEnroe, por sua vez, era adepto do "Big Game", de saque-e-voleio o tempo todo, com golpes plásticos, sempre em busca da definição. Após uma partida equilibrada, mas sem tanta emoção, estava decretado o fim da Era Borg, com o placar de 4/6, 7/6(1), 7/6(4) e 6/4. Pouco tempo depois, o sueco se aposentou.

Será que isso passou pela cabeça de Federer ao ver Borg e McEnroe assistindo à final que poderia reafirmar sua enorme superioridade na grama? Se vencesse, o suíço suplantaria a façanha de Borg e repetiria um feito que não acontecia há 122 anos, desde 1886. Nos primórdios de Wimbledon, o britânico William (Willie) Charles Renshaw ganhou o torneio por seis vezes seguidas entre 1881 e 1886 (três vezes contra seu irmão gêmeo, Ernest). Contudo, naquela época, o campeão do ano anterior simplesmente defendia seu título, disputando apenas a final contra o vencedor da chave dos tenistas restantes. Nadal acabou com o sonho do suíço e se tornou o primeiro desde 1980 a vencer Roland Garros e Wimbledon na mesma temporada, igualando-se, curiosamente, a Borg.

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