SOMENTE AOS 28 ANOS O AUSTRÍACO Thomas Muster conseguiu alcançar o primeiro lugar no ranking. Feito relativamente tardio se comparado à maioria dos que atingiram tal posto. Na verdade, ele só não ultrapassou o australiano John Newcombe como o mais velho número um da história (com 30 anos, em 1974). Mas, mesmo "velho", o "Animal" - como era chamado pela imprensa da época - esteve no primeiro lugar por seis semanas, entre fevereiro e março de 1996. No ano anterior, o austríaco tinha tido seu melhor ano. Com 40 vitórias seguidas no saibro - feito que só não era maior do que a seqüência de 46 de Bjorn Borg e 53 de Guillermo Vilas (recordes superados pela incrível marca de 81 jogos invictos de Rafael Nadal) -, Muster era coroado o "Rei do saibro" ao vencer Roland Garros pela primeira vez. A Áustria, de Sigmund Freud e Arnold Schwarzenegger, se tornava o centro das atenções no tênis.
O jogo físico e com muito topspin do canhoto nascido em Leibnitz era perfeito para as quadras de terra batida (lembra alguém?). Toda partida contra ele era uma batalha. O adversário entrava na quadra sabendo que precisaria ter paciência, pois não haveria um ponto de graça. Seus grunhidos guturais eram amedrontadores. Sua aparência - sempre com a barba loira mal feita - dava-lhe um ar de lenhador das montanhas. A determinação de Muster sempre foi sua marca registrada. Em março de 1989, aos 21 anos, o austríaco vinha em boa fase. Após fazer semifinal no Australian Open, ele havia alcançado a final do GrandPrix de Key Biscayne (que hoje é o Masters Series de Miami). Após a semifinal contra o francês Yannick Noah, ele voltou para o hotel. No caminho, parou para comer algo na estrada. Ao pegar a bolsa no porta-malas, houve uma batida e o carro passou por cima de sua perna esquerda. Era 1º de abril, mas não era mentira. O jovem, que acabara de entrar para o top 10, precisou passar por cirurgia e, com isso, ficaria afastado do tênis por longo tempo. Mas, sua força de vontade foi tanta que, em seis meses, ele já estava de volta às quadras. Mesmo sem poder andar durante a recuperação, Muster treinou seus golpes sentado em uma cadeira especialmente projetada.
O gênio forte e o temperamento explosivo também foram constantes em sua vida. Em setembro de 1996, o público brasileiro foi um dos responsáveis por despertar a fera. Jogando no Hotel Transamérica, em São Paulo, em quadra de carpete especialmente preparada para neutralizar seu jogo de resistência, Muster ainda assim era o fiel da balança no confronto entre Brasil e Áustria pelo play-off do Grupo Mundial. Tanto que venceu Fernando Meligeni facilmente no primeiro jogo. Depois, o jovem Guga ganhou de virada de Markus Hipflem partida bastante tumultuada.
No dia seguinte, Muster fez dupla com Udo Plamberger para enfrentar Guga e Jaime Oncins. Reclamando do comportamento da torcida - que tentava o cegar com um espelho e gritava "Muster Gay" em um estrondoso uníssono - o número um da Áustria abandonou a partida no início do quinto set. Alegando que não se sentia seguro em continuar o confronto, ele não deixou os austríacos disputarem os jogos seguintes, dando a vitória ao Brasil.
Muster também ficou marcado para a torcida brasileira no ano seguinte, em 1997, quando perdeu para Guga na terceira rodada de Roland Garros. O austríaco chegou a liderar o quinto set por 3/0, mas tomou a virada, numa partida de mais de três horas. Sua frustração durante o jogo era tanta que seus gritos eram ouvidos de longe. Dois anos depois, o maior tenista da história da Áustria deixou o tênis profissional e abriu uma empresa, a TOMS, que produz vinho, roupas, óculos, engarrafa água etc. Seu legado no esporte, e mesmo seu nome, é um exemplo para os juvenis de seu país (Muster, em alemão, significa exemplo). Em julho deste ano, ele voltou a São Paulo e participou do Grand Champions Brasil. Sem ressentimentos e bem humorado, divertiu o público com suas brincadeiras. Bastante acessível, conversou com a Revista TÊNIS sobre todos os assuntos, sem reservas.
O que aconteceu naquela Copa Davis contra o Brasil em 1996?
Não foi uma Copa Davis legal. E ainda acredito que estava certo em não continuar jogando, porque não era justo. A Davis, eu sei, tem regras diferentes...
Mas o que aconteceu? Por que abandonou a quadra?
Porque é estúpido ter um espelho cegando os jogadores. E não é justo tratar as pessoas daquela maneira, cegar as pessoas com um espelho, jogar pedras e dizer todos os tipos de insultos. Não é muito educado. Ainda acho que foi a coisa certa a fazer, porque aquilo não tinha mais nada a ver com tênis. Ou você joga tênis ou não. Para o seu país é legal, mas você não pode insultar as pessoas, falar coisas sobre a sua mãe, ou o que quer que seja. Entendo português e espanhol o suficiente para saber o que significava e não era muito legal. E a outra coisa era ter um árbitro português. Mas, não importa, foi há tanto tempo. Mas, faria a mesma coisa hoje, porque a Davis ainda é um esporte e não é possível se comportar de uma maneira como aquela.
O que você sabia sobre Guga antes daquela partida em Roland Garros 97?
Só sei que depois do jogo as pessoas diziam: "Como você pôde perder para este cara?" Depois, ele ganhou Roland Garros por três vezes. Mas, naquela época não sabia muito sobre ele. Achava que ele estava jogando o melhor jogo da vida dele naquele dia. Mas, obviamente ele teve mais alguns jogos melhores do que aquele (risos). Ele simplesmente jogou muito bem e ninguém o conhecia direito naquela época. Então, as pessoas perguntavam: "Como você pôde perder para Kuerten?" E ele provou que todos estavam errados.
Você acha que deveria ter vencido?
Você teve 3/0 no quinto set. Eu sei, mas ele jogou um ótimo tênis. Ele estava lutando para voltar à partida. Todas as suas qualidades - que ele provou mais tarde na carreira - vieram à tona.
Algumas pessoas dizem que durante aquele jogo você disse a seguinte frase, em alemão: "Estou jogando meu melhor tênis e este garoto está me matando. Quem é ele? Um gênio?". Você se lembra disso?
Não me lembro. Certamente disse algo, mas não me lembro de ter dito isso. Sei que joguei muito bem, foi um grande jogo. Jogamos no pequeno estádio oval (quadra 1) um ótimo tênis.
"Espero que não haja um segundo Muster, mas um melhor"
Você foi considerado "Rei do saibro". Mas, para você, quem é o maior "Rei do saibro" de todos os tempos?
Até agora é Nadal, por ganhar Roland Garros quatro vezes na idade dele. E ele ainda tem muitos anos pela frente. Além das seqüências de vitorias que ele tem no saibro, a consistência...
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