Há algum tempo A Revista TÊNIS tenta entrevistar o sul-africano Etienne de Villiers, presidente da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP). Desde o início de seu mandato, em janeiro de 2006, ele tem promovido diversas mudanças no circuito, o que causa espanto nos tradicionalistas. Se durante os 15 anos da presidência de Mark Miles as modificações foram lentas e graduais, de Villiers simplesmente não teve medo de fazer as experiências que achava necessárias para que a turnê fosse mais facilmente entendida pelos fãs.
Aliás, desde que assumiu o comando, ele afirma que quer, cada vez mais, aproximar os fãs do esporte e, para isso, implantou uma nova mentalidade na ATP. Com a experiência de quem já esteve nos mais altos escalões da empresa de Walt Disney, solicitou diversas pesquisas de opinião pública e, como manda o figurino, começou a tomar decisões baseadas nas respostas que recebia dos fãs. Ou seja, a maior mudança que promoveu não foi na regra de duplas, no hawk-eye, no formato do circuito ou até mesmo na infrutífera tentativa de introduzir o round-robin. Seu maior feito até agora foi começar a ouvir os espectadores, algo que talvez nunca tivesse sido feito antes.
Durante o Brasil Open deste ano, a Revista TÊNIS entrevistou Mark Young, CEO da ATP para as Américas, e ele se mostrou empolgado com os novos rumos da associação. Desde então, com a prestimosa ajuda de Luiz Carvalho e Davina Aryeh, tentamos contato com de Villiers. E, durante o US Open, o evento de maior público do tênis no mundo, conseguimos agendar um precioso horário para conversar com o presidente. Por coincidência, a entrevista foi marcada para a sexta-feira, 31 de agosto, dia em que a ATP anunciou o novo formato do circuito para 2009.
Mudanças
Pela manhã, de Villiers convocou a imprensa e falou sobre a criação dos torneios “1000”, “500” e “250”. Estes eventos, designados por sua pontuação (os números que representam os pontos obtidos pelo campeão), serão intercalados com os quatro Grand Slams de forma a deixar a turnê mais simples de ser entendida pelos fãs e menos penosa para os tenistas. Sendo assim, os atuais Masters Series se equivaleriam aos torneios “1000” e terão a participação obrigatória dos melhores tenistas (chamados de mandatários).
Atualmente, são nove os Masters Series (Indian Wells, Miami, Roma, Monte Carlo, Hamburgo, Cincinnati, Canadá, Madrid e Paris) e, em 2009, serão apenas oito, com a exclusão de Hamburgo e o acréscimo de Xangai, sendo que Monte Carlo será do grupo dos “1000”, porém não mais mandatário. Haverá ainda 10 torneios do tipo “500”, que ocorrerão em Rotterdam, Dubai, Acapulco, Memphis, Barcelona, Washington, Pequim, Tóquio, Basel e Valência. “A nossa igreja não são as pessoas que estão sentadas aqui. Nossa igreja não é o fã inflexível. Estes continuarão com o tênis e amarão o tênis. Chame-o do que quiser e eles ainda o assistirão porque isso é o que é: isso ainda é tênis. Mas temos que atrair mais pessoas para o esporte”, afirmou de Villiers na coletiva.
Mas nem tudo foram flores durante a conversa. O presidente da ATP precisou abordar o problema das apostas. “O elefante enfim veio à tona”, riu quando um repórter tocou no assunto. De Villiers explicou longamente todos os programas montados para evitar a corrupção no meio do tênis, mas se irritou quando um jornalista afirmou conhecer tenistas envolvidos em apostas e achar incrível a ATP nunca ter pego alguém. “É muito fácil especular”, retorquiu de Villiers.
 |
| Não tenho problemas com críticas. Sempre espero que todas as mudanças do meu período sejam difíceis, especialmente em um esporte que não muda muito. Mas estamos sendo honestos com nossos fãs |
A coletiva terminou com um clima um pouco mais ameno, mas o fantasma das apostas iria crescer ainda mais nas semanas seguintes, com declarações e especulações surgindo de diversos lugares. A nossa entrevista estava marcada para o começo daquela tarde. Na hora determinada, o assessor da presidência, Kris Dent, conduziu a reportagem da Revista TÊNIS até o camarote da ATP no Arthur Ashe Stadium e, no caminho, gentilmente fez a seguinte observação: “Sem perguntas sobre apostas, ok?”
Ok Kris, a pauta original não tinha a ver com isso mesmo... Sendo assim, durante quase meia hora, Etienne de Villiers conversou sobre o seu trabalho frente à ATP e o mercado de tênis mundial. Confira.
Nestes quase dois anos, você promoveu diversas mudanças em um esporte que prima pelas tradições e, por causa disso, você tem sido muito criticado. Como lida com as críticas?
Não me importo. Não tenho problemas com críticas. Sempre espero que todas as mudanças do meu período sejam difíceis, especialmente em um esporte que não muda muito. Mas estamos sendo honestos com nossos fãs. Ouvimos o que eles dizem e vemos se as coisas que estamos fazendo estão funcionando ou não. Se elas funcionam, permanecem. Se não, param. Se você está preparado, é experiente, é honesto sobre as experiências, honesto com seus eleitores... Eu não me importo com as críticas. Isso é bom...
Neste período, qual foi sua maior conquista até agora?
Não acho que tenha alcançado nada que possa ser considerado grande ainda. O que pude fazer foi montar um time forte ao meu redor, do qual estou muito orgulhoso. Conseguimos reunir algumas pessoas ótimas, aquelas que já estavam e aqueles que vieram para ajudar a fazer essa caminhada. E então somos capazes de falar em uníssono como um esporte, mais resolvido do que era antes. Sinto-me muito bem com o fato de estarmos trabalhando muito mais próximos com a WTA, ITF, mais próximos dos fãs. Estamos todos comprometidos em fazer o esporte falar com uma só voz, pois este é um esporte só, o tênis.
Como sua experiência na Disney pode ajudar o tênis?
Acho que a minha experiência nos negócios podem ajudar o tênis de maneira que possamos dar aos fãs mais do que eles gostam. Estamos promovendo uma enorme quantidade de pesquisas e acho que entendemos melhor do que as pessoas gostam ou não. Tentaremos corrigir isso e dar-lhes um produto melhor, um jogo mais bem comercializado. Atualmente é difícil para o fã comum entender do que se trata.
Tênis é um esporte sério demais? Precisa ser mais divertido?
Não acho que o tênis seja um esporte “sério” (tenso). Se você observar os nossos jogadores, eles são grandes personalidades e cada um é de um tipo diferente. Apenas precisamos mostrá-los mais, mais destas diferenças e, obviamente, o que eles fazem nas quadras.
Ultimamente, a ITF tem se preocupado em fazer as pessoas jogarem mais tênis. Isso também é uma preocupação da ATP?
Somos responsáveis pelo esporte profissional masculino e o nosso papel é fazer o esporte crescer neste nível. E tudo o que ajuda o esporte a crescer, a estimular o esporte, é uma boa coisa. Sim, nós estamos – não preocupados – mas
gostaríamos de ver mais gente praticando o esporte, mais gente envolvida, mais gente vendo. O mundo do esporte profissional segue nesse sentido, então estamos perfeitamente alinhados.
Como assim?
Muito do que leva os jovens para o esporte é uma associação com os grandes profissionais. Se você olhar para a atratividade do futebol no Brasil é por causa dos grandes heróis que jogaram, como Pelé, Garrincha. Eles são os grandes modelos que farão os jovens se interessarem pelo esporte. Quanto mais “inspiradores” pudermos tornar nossos jogadores, maior será o nosso esporte, mais vamos ajudar a aumentar as categorias de base.
"Sinto-me muito bem com o fato de estarmos trabalhando muito mais próximos com a WTA, ITF, mais próximos dos fãs. Estamos todos comprometidos em fazer o esporte falar com uma só voz, pois este é um esporte só, o tênis"
Conversei com Mark Young durante o Brasil Open...
Eu vi.
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | 4 | Próxima >>