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Carlos Bernardes
Se há tempos o Brasil não tem um tenista top, ao menos temos alguns brasileiros representando o País nos mais importantes torneios. Nossos árbitros estão entre os melhores do mundo e um deles conseguiu algo "impossível": fazer a final de um Grand Slam

Por Arnaldo Grizzo


João PiresDesde 2001 o Brasil não tem um representante na final de um Grand Slam, certo? Errado! Você não se lembra? Nem faz tanto tempo assim! Em setembro do ano passado um brasileiro estava lá no Arthur Ashe Stadium, em Flushing Meadows, para fazer a final do US Open. Ele entrou em quadra tenso, mas confiante. Era a primeira vez que estava em uma decisão de Major. Mal podia acreditar, contudo sabia que estava bem preparado, sabia que estar ali era como vivenciar um sonho, era o ápice do que podia alcançar na carreira, era a realização de algo “impossível”.

 

 

 

De quem estamos falando? Carlos Bernardes, um dos principais árbitros de cadeira do mundo, que no US Open 2006 realizou um sonho e se tornou o primeiro sul-americano a arbitrar uma final de Grand Slam. Para se ter idéia do tamanho de sua façanha, em uma entrevista à Revista TÊNIS em 2003, ele afirmou: “Os Grand Slams são eventos da ITF e sou árbitro da ATP. Além disso, eles sempre privilegiam árbitros locais. Fazer uma final é praticamente impossível”. Entretanto, três anos depois, lá estava ele.

Bernardes é um tipo sempre sorridente e humilde, que adora conversar e contar histórias. Se quando garoto pulava o muro de um clube em São Caetano do Sul para jogar tênis, agora viaja pelo mundo todo vendo de perto os melhores tenistas e conhecendo diversas culturas. Louco por esporte, por pouco não se tornou apenas mais um professor de tênis, mas escolheu ser juiz, profissão com que muito poucos conseguem sobreviver. Atualmente ele é um dos 15 árbitros Gold Badge, ou seja, de grau máximo da ATP (são quatro os níveis de juízes: White, Bronze, Silver e Gold) e representa, com orgulho, o Brasil nos maiores torneios.

Há três anos, você me disse que fazer uma final de Grand Slam era um sonho impossível. E agora? Como explica?
O impossível aconteceu. O que aconteceu nos Estados Unidos foi especial. Na terça-feira o chefe de árbitros me chamou e perguntou quando era meu último dia. Disse que meu vôo estava marcado para quinta. “Marca seu vôo pra segunda-feira”. Até aí, eu não sabia de nada. Falei: “Putz, o que será que eu vou fazer? Uma dupla?” Nem imaginava. Na quinta de manhã eles me chamam de novo. O chefe dos juízes falou: “A gente está com um problema. Tem dois americanos, um em cada parte da chave, Blake e Roddick. A gente não sabe o que vai acontecer, então, você vai fazer a final, domingo”. Fiquei olhando pra ele assim: “Como é que é?” Aquilo foi um baque grande, porque, como tinha falado para você, as chances de acontecer seriam menos que zero. Antes disso, alguns juízes que estavam lá brincaram: “Você vai fazer a final”. E eu: “Vocês estão loucos”. “Vamos apostar?” Apostei que ficaria de empregado deles por três dias na Austrália, fazendo qualquer coisa. Aí, putz... Saí da sala e encontrei um deles logo de cara. Só falei assim: “Perdi a aposta...” Até aí ninguém sabia. Avisei todo mundo, a família. Fiquei muito emocionado. É um sonho e você não espera que vá acontecer assim, de repente. E desde o primeiro dia do US Open foi legal. Fiz o primeiro jogo do Agassi. Ele entrou na quadra chorando, emocionado com a recepção do publico. De arrepiar. E foi um torneio tranqüilo, gostoso, até chegar nesse ápice.No domingo, fui pra lá às 11h. O jogo era às 19h. Teve uma reunião na sala do árbitro para explicar como é o esquema da final, porque é tudo diferente. O jogo foi tranqüilo. Acabou, eu ia sair com as bolas e o referee falou: “Fica aqui. Você merece ver a cerimônia da quadra”. É espetacular. Voltei pra levar as bolas, de repente, entra o Tiger Woods, vem na minha direção e diz: “Bom jogo”. Ele tirou uma foto e assinou a bolinha. Foi um sonho. É uma coisa de anos, que você trabalha e, de repente, acontece e você não está esperando.

Como começou sua relação com o tênis?
Eu e um amigo, Heraldo, pulávamos o muro do Lauro Gomes, pra jogar tênis, porque a gente não fazia parte da escolinha. Eles guardavam a rede, a gente colocava um cavalete de atletismo no meio da quadra. Vira e mexe a gente ia embora e esquecia. Então chovia e o cavalete afundava. Jogamos vários meses e um dia a mulher encarregada esperou a gente e falou: “Porque vocês não vêm jogar aqui normalmente?” E a gente foi. Eu continuei, ele parou logo. Tinha 12, 13 anos. Quando meu pai faleceu, eu tinha 16 e comecei a dar aula. O tênis mudou tudo. Lembro daqueles jogos de Wimbledon, de Borg e McEnroe e, de repente, você está em Wimbledon, naquela quadra que você vê na televisão, fazendo um jogo na central. É um negócio que mexe com a gente. Cada profissão tem uma coisa que você fala: “Isso seria um sonho”. E cada hora você vai dando um passinho e vai cumprindo uma parte daquele seu sonho. O tênis mudou minha vida definitivamente.

"Cada profissão tem uma coisa que você fala: ‘Isso seria um sonho’. E cada hora você vai dando um passinho e vai cumprindo uma parte daquele seu sonho. O tênis mudou minha vida definitivamente"

De onde veio a idéia de ser árbitro?
Não sei. Eu dava aula em clube e na APM de Tênis. Aí a Cássia Lorenzini (coordenadora) chegou e falou: “Você tem que decidir, porque está viajando muito (como árbitro)”. E eu adorava dar aula. Foi um momento difícil porque tinha estabilidade e ia pegar uma coisa que não tinha a mínima idéia no que ia dar. E os caminhos foram sendo abertos por pessoas como a Joyce Segal, uma americana que veio pro Brasil fazer um torneio em Itaparica. Ela viu seis juízes aqui, gostou e levou a gente pra fazer o Lipton (Masters Series de Miami). Nós fomos os primeiros a sair em grupo pra lá. No ano seguinte, eu e o Adão (Chagas) fomos os primeiros estrangeiros, junto com outros três, a fazer as finais do Lipton, que era uma coisa inédita. Tanto que quando a gente viu o nome na lista, muitos dos americanos não falavam mais com a gente. Ficaram com raiva. E nós recebemos convite pra fazer o US Open. As portas foram se abrindo. Quando a ATP se separou da ITF a gente acabou ganhando mais espaço.

Como era no começo?
Na primeira viagem pra Miami a gente alugou um carro, foi pra Disney e gastou todo o dinheiro lá. Nosso quarto parecia um shopping.A gente brigava com as crianças pra tirar foto com Mickey, Pateta. Foi muito legal. Hoje, voltando no tempo, a gente nunca imaginava que ia chegar onde está. Isso era 1992, já são 15 anos. Nessa época a gente fazia um ou dois jogos de cadeira no quali e o resto era só linha. Eles te pagavam uma grana por dia, mas não te davam ajuda de custo pra passagem aérea, hotel e alimentação. Então a gente ficava em seis num quarto pra economizar. Nessas primeiras viagens a gente empatou ou perdeu dinheiro. Mas era a única forma. A primeira vez que viajei pra Campos do Jordão, eu arrumava minha cama no hotel. Nunca tinha viajado.

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