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| A felicidade de ver o compatriota Yannick Noah vencendo Roland Garros foi o impulso que a atraiu para o tênis. Hoje ela coloca a França na liderança do ranking |
A CARREIRA DA FRANCESA Amelie Mauresmo confirma uma das teses preferidas de pais de tenistas infanto-juvenis. A tese, que busca motivar até os menos dotados, diz: "Vence quem não desiste". Tudo bem que Mauresmo teve uma infância e adolescência de resultados expressivos nas quadras, mas daí a se tornar a número um do mundo, foi preciso muita personalidade, persistência e um bocado de sorte. Ajudou-a muito ser apaixonada pelo que faz e acreditar que seu esforço seria recompensado. Mas o sonho de liderar o ranking não seria conquistado se a elite do tênis feminino não tivesse de se dividir entre as quadras e os leitos hospitalares. A intensidade do jogo e a necessidade (ou ambição?) de jogar torneios seguidos estourou as irmãs Serena e Vênus Williams, as belgas Justine Henin-Hardenne e Kim Clijsters, Martina Hingis e Lindsay Davenport e permitiu a ascensão de Mauresmo.
Todas as tenistas citadas, com exceção de Henin (5 a 5), têm saldo positivo contra a francesa. Em 10 jogos contra Serena Williams, Mauresmo só venceu um; em 14 contra Davenport, venceu três; em 13 contra Clijsters, ganhou 5. Também tem déficit com Venus Williams (3 a 5), Hingis (6 a 7) e Mônica Seles (2 a 3).
Mauresmo chegou pela primeira vez a top ten em 1999, com 20 anos, e desde então, com exceção de 2000, quando terminou o ano como número 16 do ranking , nunca ficou abaixo na nona posição. Mais experiente, soube se impor às emergentes russas e tem sal do sobre todas elas: 3 a 0 em Maria Sharapova; 5 a 2 em Nadia Pe trova ; 8 a 4 em Elena Dementieva e 4 a 2 em Svetlana Kuznetsova . No início de 99, com 19 anos, tornou- se a segunda francesa a chegar à final do Australian Open (a última fora Mary Pierce, em 1995). Perdeu para Hingis em dois sets (2 e 3), mas causou impacto nas entrevist as coletivas, ao declarar-se homossexual. Em 2004 , usando seu poderoso jogo de fundo de quadra, ganhou cinco títulos, a medalha de prata na Olimpíada e no dia 13 de setembro tornou-se o primeiro tenista francês (mulher ou homem) a liderar o ranking na era profissional. Foi criticada por chegar ao topo sem nunca ter vencido um torneio de Grand Slam, o que só conseguiu nesta temporada de 2006, derrotando Justine Henin-Hardenne nas finais do Australian Open e de Wimbledon.
NO COMEÇO, NOAH NA TEVÊ
Era quase verão na pequena cidade de Saint Germains em Laye. Todas as crianças estavam brincando na rua , com exceção daqu ela garotinha magra, de pernas compridas, grudada na tevê. Jogavam o francês Yannick Noah e o sueco Mats Wilander pelo título de Roland Garros/1983. Para alegria da menina , Noah venceu por 6/2, 7/5 e 7/6. O tênis virou febre na França e contaminou também a pequena Amelie. Vendo a filha tão empolgada, seu pai, Francis, comprou-lhe uma raquete, e com ela a garotinha passou a bater bola na garagem ou dentro de casa mesmo. Aos seis anos foi matriculada em uma escola de tênis e teve a sorte de cair com o professor Inger Delamare, que, segundo ela, "foi a primeira pessoa a reconhecer meu potencial". Aos 11 anos já tinha golpes desenvolvidos e foi convidada pela Federação Francesa a se mudar para Blois e entrar para o programa francês de tênis. Ao contrário de outras crianças, Amelie foi sem olhar para trás, sem permitir que a saudade atrapalhasse sua vocação: "Desde aquela época, tênis é minha paixão", diz ela. Aos 15 anos ela já treinava em Roland Garros, era uma das melhores juvenis do país e seu backhand era estudado e admirado pelos técnicos da Feder ação Francesa. Em 1995 , aos 16 anos incompletos, ocupava a 752a posição da WTA, quando rec beu um wild card para disputar o qualifying de Roland Garros. Venceu três tenistas de ranking melhor que o seu e pôde jogar a chave principal do torneio que ela mais gosta. "Foi um sonho realizado", disse.
Na chave principal, venceu por 6/1 o primeiro set contra a italiana Nathalie Baudone, 119 no ranking, mas a falta de experiência acabar ia por derrotá-la. Porém, não ficou triste. "Mesmo perdendo, eu estava muito feliz de saber que tinha potencial para de safiar tenistas daquele nível", lembra.
Três meses depois, sem perder um set, conquistou seu primeiro título profissional, o Future de Saint Raphael. Em 1997, depois de um período de progressos lentos, contratou um técnico particular e saiu do programa da Federação Francesa. Treinada pelo sul-africano Warwick Bashford as coisas começaram a melhorar. Ela entrou para o top 100, passou a jogar torneios maiores e enfrentar as grandes tenistas. Em 1998, quando era a 65a no ranking, teve um desempenho surpreendente no torneio de Berlin. Passou o quali sem dificuldades e na chave principal derrotou Florencia Labat (43 do ranking), Lindsay Davenport (segunda da WTA), Barbara Paulus (29a), Jana Novotna (terceira) e na final perdeu para a espanhola Conchita Martinez. Esse resultado a colocou perto da 30a posição do ranking e fez com que Yannick Noah, o ídolo que a atraiu para o tênis, a convocasse para jogar pela França a semifinal da Fed Cup contra a Suíça . Ela perdeu para Patty Schnyder e Martina Hingis , mas os jogos foram decididos apenas no terceiro set. Logo no início de 1999 Mauresmo mostrou que seria uma tenista de ponta ao chegar à final de seu prime iro Grand Slam. Não foi possível impedir o tricampeonato de Hingis, mas derrotou três tenistas entre as vinte mais bem classificadas, entre elas Davenport, que liderava o ranking, o que significou sua primeira vitória contra uma número um do mundo.
O Australian Open foi um divisor de águas para a revelação france sa de 19 anos. Além do desempenho em quadra, Mauresmo foi duramente testada em seu caráter, e não poderia ter se saído melhor. Os boatos sobre sua homossexualidade, que antes eram restritos aos vestiários, aumentaram quando Hingis disse que jogar contra ela era como enfrentar "meio homem". Amelie sempre deu prioridade à preparação física e por isso desenvolveu mais a musculatura do que as outras tenistas. Poderia dar uma desculpa e evitar falar sobre assunto delicado, mas foi franca e não escondeu sua opção sexual.
Em outubro de 1999 conquistou seu primeiro WTA , em Bratislava, ao derrotar Kim Clijsters por duplo 6/3. No ano seguinte também só ganhou um torneio, o de Sydney, e isso a fez terminar o milênio na 16a posição. Parecia fadada ao segundo pelotão quando, em 2001, depois de superar uma séria contusão nas costas, venceu três torneios consecutivos (Paris , Nice e Amelia Island) e derrotou Hingis (de quem perdia no confronto direto por 7 a 2) por duas vezes. Como chegou a Roland Garros depois de um título em Berlin e um vice em Roma, foi apontada por muitos como a favorita. Sentindo-se pressionada para realizar o sonho de vencer no seu torneio preferido, entrou muito tensa para jogar e foi eliminada logo na estréia, em dois sets, pela desconhecida alemã Jana Kandar. A derrota influiu no seu rendimento até o final do ano. Não alcançou mais nenhuma final e terminou 2001 na nona posição no ranking.
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